Foca-se em imigração para evitar falar de crise política, diz candidata a eurodeputada

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Sede do Parlamento Europeu em Estrasburgo (França). Novos deputados serão eleitos em maio para representarem seus países na Casa. Crédito: Victória Brotto/MigraMundo

Único veículo brasileiro presente, MigraMundo acompanhou debate em Estrasburgo sobre imigração entre estudantes, políticos e especialistas

Por Victória Brotto
Em Estrasburgo, França

Uma bandeira azul com 12 estrelas amarelas estende-se do chão ao teto do saguão central da sede do Parlamento Europeu em Estrasburgo. Enormes corredores vêm e vão, confundindo o passante sobre o melhor caminho a tomar.

Entre bandeiras de Estados-membros da União Europeia e nomes de pensadores renomados cravados na entrada de salões enormes – como o da pensadora francesa Simone Veil – passam ao menos três equipes de limpeza, uma em cada andar do prédio feito em forma de arena, limpando um chão de madeira clara extremamente brilhante.

Com as suas sedes em Bruxelas, na Bélgica, e em Estrasburgo, na França, o Parlamento Europeu é responsável por votar as leis elaboradas pela Comissão Europeia e é subordinado ao Conselho da Europa, órgão máximo do bloco. No próximo mês de maio, os cidadãos europeus votarão para novas deputadas e deputados do Parlamento – a França, por exemplo, elegerá 79 deles no dia 26 de maio.

”O papel da classe política é de racionalizar a realidade, de trazer paz e calma ao povo, mas não é isso o que acontece na União Europeia”, afirmou Sophie Rauszer, colaboradora parlamentar da frente Esquerda Europeia e Esquerda Verde do Norte (GUE/NGL) no Parlamento europeu. Rauszer é uma das concorrentes às eleições em maio.

Segundo ela, defensora de uma Europa baseada no protecionismo solidário, a temática migratória é usada para pressionar um cenário que já é tenso, onde público e privado, políticos e povo são colocados em lados opostos, sem opção de diálogo.

”O imigrante aparece no meio de tudo isso como mais um elemento de pressão, quando, na verdade, existe uma profunda crise política na UE onde não há espaco para reflexões sérias nem para debates profundos”, afirmou a candidata. ”Foca-se demais na imigração para que se evite falar sobre essa crise política.”

Estudantes acompanham debate no Parlamento Europeu.
Crédito: Victória Brotto/MigraMundo

Rauszer participou da conferência ”A Europa face à imigração” no Parlamento em Estrasburgo na última sexta-feira (8). Além da candidata, também foi convidado o deputado Nicolas Bay, do partido de extrema-direita Reagrupamento Nacional (ex-Frente Nacional) – o mesmo de Marine Le Pen, um dos expoentes da direita conservadora na Europa.

Com presença confirmada até a divulgação da programação, Bay informou na véspera que não iria. Além de Sophie Rauszer, esteve presente um dos diretores da Médicos Sem Fronteiras (MSF), Michael Neumann.

O debate foi promovido pelo Instituto de Ciências Políticas de Estrasburgo, uma das instituições mais renomadas da França, e faz parte da 25ª Semana Europeia da instituição no Parlamento, que discute temas importantes como meio-ambiente, igualdade de gênero e questões sociais com parlamentares e especialistas.

Ao final de cada mesa redonda, mais de 200 estudantes nacionais e internacionais simulam sessões plenárias e comissões parlamentares. Entre os convidados do único veículo de imprensa brasileiro, o MigraMundo acompanhou os debates da manhã de sexta-feira.

”Vocês sabem o que é votar o orçamento anual em uma casa onde políticos fazem campanha para custear operações da FRONTEX (Agência europeia de proteção de fronteiras) de 25 mil euros por migrante?”, perguntou Rauszer. ”Relatórios e relatórios são apresentados no plenário e que não estão nem relacionados com o tema da imigração”, acrescentou ela ao auditório lotado de estudantes de mestrado, bacharelado e estudantes-visitantes de países como EUA, Irlanda e Brasil.

”É um privilégio estar aqui debatendo com a um nível que não existe ainda no Brasil”, afirmou Eduardo Rezende, brasileiro estudante de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Para a estudante irlandesa, Claire Cullen, 21 anos, falta imaginação e coragem para tratar da temática migratória. ”É importante para mim estar aqui e ouvir o que a Europa tem a dizer, mas hoje falta criatividade e coragem para pensar em soluções, ”afirmou.

Estudantes de todo o mundo que estudam na Europa acompanharam o evento no Parlamento Europeu, em Estrasburgo (França)

Para a norte-americana Kaitlyn Vlahaulis, 21 anos, vinda do Arizona, a UE poderia lidar diferentemente com a questão, sendo um ponto oposto do que pratica hoje seu presidente, Donald Trump. ” Eu estou animada para ouvir o que o povo francês tem a dizer.”

Segundo a candidata ao Parlamento, responder ao fluxo migratório hoje não é uma missão impossível de ser resolvida. ”A população imigrante representa 0,2% da população total na Europa“, afirmou. De acordo a Eurostat, órgão europeu de dados e estatísticas, em 2016 haviam 4.7 imigrantes para cada 1.000 habitantes nos 28 Estados-membros.

Em ressonância com Rauszer está o estudante francês Arthur Cor, 20 anos, do segundo ano de Ciências Políticas. Para ele, fala-se demais em imigração, quando na França, existem graves problemas sociais. ”Fala-se à exaustão”.

Ao lado da parlamentar, estava Michael Neumann, diretor de estudos da MSF, que fez críticas aos políticos europeus. ”Eu fui convidado para debater a questão migratória com deputados no Parlamento. Eu vim a primeira vez, eu vim a segunda…e depois não vim mais. Quando a discussão política vira teatro é melhor se retirar”, afirmou.

Para Neumann, a classe política ”trata muito mal” o debate da questão migratória. ”Ninguém é capaz de propor uma reforma séria do Tratado de Dublin, por exemplo”, afirma.

”Para quê (participar de debates com políticos)? Para ouvir que na verdade o poder real é do Conselho [Conselho da Europa, órgão máximo do bloco, como se fosse a Presidência da República do Poder Executivo brasileiro] e que os deputados mesmo não podem fazer nada?” , acrescenta. ”Quando a gente trabalha, o nosso trabalho deve ser útil, mas será que o trabalho feito hoje (com migrantes) pelos Estados é útil? Eu não acredito”, afirmou Neumann.

Há 20 anos na Médicos Sem Fronteiras, Neumann trabalhou na região dos Balcãs, no Sudão, Cáucaso e África oriental, além de coordenar programas da MSF em Nova York e Paris. Hoje ele dirige o centro de estudos e pesquisas humanitárias da organização, o chamado CRASH. Questionado pelos estudantes sobre o que espera das eleições europeias quando o assunto é acolhimento de imigrantes, ele responde de pronto: ”Eu não espero nada. Infelizmente não sairá grande coisa.”

Bandeira da União Europeia aparece com destaque nas dependências do Parlamento Europeu, em Estrasburgo (França).
Crédito: Victória Brotto/MigraMundo

Acolhimento de migrantes e fronteiras

A grande questão para Neumann no acolhimento de migrantes ”não é fazer de todo o migrante uma vítima”, mas de vê-lo como um ser humano autônomo, com grande forca de vontade e com capacidade de tomar decisões apesar do medo.

”Uma pessoa que pega um avião até a Turquia, depois pega um barco da Turquia para a Itália essa pessoa é animada por projetos de vida. Ela tem uma grande força interior, ela é capaz de pensar por si mesma, de tomar decisões’, afirmou.

”Muitas vezes colocamos o migrante como vítima passiva de contrabandistas, mas o migrante é um ser humano que toma decisões dificílimas e as toma apesar do medo”, completa Neumann.

Outro ponto debatido foi a fronteira. Para a candidata ao Parlamento, as fronteiras são pensadas hoje como área policial, com o que ela chamou de “Fenômeno FRONTEX”.

”Nós temos a tendência de emprestar dinheiro do fundo às operações FRONTEX que nos custam milhões de euros, transformamos a Europa em uma Europa fortaleza, em detrimento do migrante”. Ela defende a existência de fronteiras que promovam um protecionismo solidário e baseado nos direitos humanos.

Para o membro da MSF, enquanto as fronteiras não forem questionadas pelos próprios migrantes, ”que é quem sofre as consequências”, elas não serão repensadas. Neumann chegou a propor um Parlamento de migrantes, onde se debateria, com políticos europeus, questões concernentes à migração.

Tal proposição irritou um dos alunos presentes. ”Os senhores falam de ajuda a migrantes, até de criar um Parlamento de migrantes, mas e o interesse do povo europeu onde é que fica? A senhora, madame Rauszer, deveria representar o povo europeu não deveria – e não o migrante?” questionou um dos estudantes de Ciências Políticas.

”Primeiro que o senhor fala em ”interesse do povo europeu” como se existisse um interesse geral. Como se o interesse do francês fosse o mesmo que do italiano. Não há um interesse comum (…) Eu acredito que o papel do político não é colocar lenha na fogueira, trazer divisão, mas sim de racionalizar, de trazer paz e calma ao povo e, no meio de todo esse processo, claro que está o interesse do povo francês”, respondeu a candidata.

Também em resposta ao estudante, Neumann, da MSF, afirmou que o interesse europeu já está bem presente no debate, o ausente é o interesse do migrante. ”Quem está ausente do debate é o migrante, porque o europeu é chamado a se pronunciar, a votar.”

E acrescentou: ”No meu ponto de vista, é sempre complicado essa ideia de tratar o nosso país como se fosse a nossa casa, nós não somos proprietários do nosso país, nós fazemos parte de uma comunidade, de um pacto enquanto nação. A relação entre o cidadão e o país deve acontecer fora dessa ideia de casa.”

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