Fórum expõe fronteiras a serem superadas para melhor entender as migrações

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A exemplo de outros eventos recentes, o Fórum Fronteiras Cruzadas busca "romper fronteiras" ao reunir pessoas de diferentes áreas e origens nos debates. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Evento que acontece nesta semana em São Paulo tenta aproximar diferentes saberes e fomentar novas formas de ver e agir em relação aos deslocamentos humanos

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)

As fronteiras vão além dos marcos convencionais. Elas estão em elementos materiais e imateriais diversos, como idiomas, acesso a serviços públicos e espaços de discussão e até mesmo nos termos usados nas pesquisas sobre migrações. E como entender as diferentes possibilidades de comunicação e de conhecimento a partir desse movimento? O I Fórum Internacional Fronteiras Cruzadas (ou Fontié Ki Kwaze, em créole haitiano), que começou nesta segunda-feira (06/11) na Escola de Comunicação e Artes da USP, em São Paulo, aposta na superação de tais fronteiras para um melhor entendimento da dinâmicas dos fluxos humanos atuais.

A programação (clique aqui para acessar) procura reunir, em um mesmo debate, estudiosos, especialistas, militantes e os próprios migrantes. Um modelo que, aliás, tem sido aplicado em outros seminários e debates semelhantes no Brasil e procura eliminar as fronteiras existentes entre áreas como a academia e a sociedade civil e os migrantes – como o IX Fórum de Migrações/Migratic 2017, no Rio de Janeiro, em outubro passado.

Ir além das fronteiras: proposta do I Fórum Fronteiras Cruzadas é buscar novos caminhos para o entendimento das migrações.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Para rever conceitos

No primeiro dia, em diferentes debates e intervenções artísticas, foram abordadas temáticas como as diásporas ao longo da história, a questão laboral, as dinâmicas de comunicação e de rede dos migrantes e as fronteiras existentes na cultura e nas artes. Em todas elas a necessidade de rever e ir além dos conceitos já estabelecidos foi um fator presente.

“Migração é chão. temos de sair na rua e ver o que está acontecendo. E é um tema que a sociedade em si não gosta de debater. Não existem portas abertas no Brasil. Existe, sim, uma seletividade dos fluxos migratórios”, apontou o sociólogo Alex André Vargem, membro do IDDAB (Instituto do Desenvolvimento da Diáspora Africana no Brasil), a partir da pesquisa que há 14 anos desenvolve junto a migrantes de origem haitiana e de países africanos.

Ainda no sentido de romper fronteiras, o professor Reginaldo Nasser, do Departamento de Relações Internacionais da PUC-SP, apontou a necessidade de se revisar as terminologias usadas nas pesquisas e debates sobre os deslocamentos humanos atuais para melhor entendê-los. “Discutir fluxos de pessoas e o acesso aos espaços é cada vez mais se desfazer dessas amarras”.

Protagonismo migrante em pauta

Os migrantes presentes nas mesas e no auditório também enfatizaram a importância de rever conceitos e se articular para trazer à tona uma nova narrativa sobre o tema migratório. “Mais do que nunca, devemos abrir nossos olhos e nos unir”, apontou o haitiano Fedo Bacourt, da USIH (União Social dos Imigrantes Haitianos).

O comunicador boliviano Antonio Andrade, fundador dos portais Bolívia Cultural e Planeta América Latina, reforçou a importância das redes. “Se nós queremos combater estereótipos, temos de nos aliar e mostrar que os problemas são reais”.

A exemplo de outros eventos recentes, o Fórum Fronteiras Cruzadas busca “romper fronteiras” ao reunir pessoas de diferentes áreas e origens nos debates.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Para Vargem, o debate sobre protagonismo do migrante ainda é muito centrado em instituições, mas o momento atual representa uma mudança (ou melhor, uma fronteira sendo rompida). “É um processo e uma efervescência de coletivos migrantes se formando”. “É preciso destacar esses coletivos”, complementa Patrícia Villen, socióloga e doutoranda pela Unicamp.

Continuação dos trabalhos

O evento continua nesta terça (07), das 09h30 às 21h, com mais debates, intervenções culturais e com quatro oficinas simultâneas sobre vídeo, questões de gênero, performance artística e segurança digital.

Já o encerramento, na quarta (08), é chamado de “Pós-Fórum” na programação. Sua proposta é de construir a próxima edição do Fórum, além de promover a troca de conhecimento entre os presentes – sobre temas como mecanismos de proteção a direitos humanos e fortalecimento de articulações e redes de ação inter-regionais.

O Fórum tem a coordenação do professor Artur Matuck e é organizado pelo Departamento de Relações Públicas, pelo COLABOR – Centro de Pesquisa em Linguagens Digitais, ambos da ECA-USP; pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Estética e História da Arte da USP; e pelo Núcleo de Arte, Mídia e Política das Ciências Sociais (NEAMP) da PUC-SP. O projeto tem financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

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