Fronteira fechada não impede ingresso de venezuelanos no Brasil

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Venezuelanos usaram caminhos alternativos para chegar ao Brasil durante o período em que a fronteira esteve fechada. Crédito: Luiz Fernando Godinho/ACNUR

Travessia, antes feita por vias oficiais, depende de caminhos clandestinos e vulnerabiliza os migrantes

Por Rodrigo Veronezi
Em São Paulo

O fechamento da fronteira da Venezuela com o Brasil – ordenada há dois meses pelo governo de Nicolás Maduro – não interrompeu o fluxo migratório entre o país vizinho e o Estado de Roraima.

Desde então, a travessia entre a venezuelana Santa Elena de Uairén e a brasileira Pacaraima, antes feita a pé ou de carro pela rodovia que liga os dois países, é realizada por rotas clandestinas na mata – chamada de “Caminho Verde”. Militares venezuelanos também têm cobrado propina dos migrantes que buscam chegar ao Brasil.

Segundo estimativas de funcionários da ONU em Roraima, mais de 80% dos migrantes precisam pagar propina a soldados, mesmo passando por trilhas abertas em meio à vegetação local.

Dados da Operação Acolhida – criada pelo governo federal em março de 2018 para administrar o fluxo migratório em Roraima e renovada por mais um ano – indicam que cerca de 450 pessoas cruzam da Venezuela para o território brasileiro diariamente. O movimento chegou a cair nos primeiros dias após o fechamento da fronteira, em fevereiro, mas hoje é bem semelhante ao que era verificado quando a passagem entre os dois países estava aberta.

Parte dessa movimentação é de venezuelanos que fazem compras em Pacaraima e retornam pouco depois ao país vizinho – a movimentação, chamada de fluxo migratório pendular, é uma realidade antiga da região.

Só uma parte desses venezuelanos opta por permanecer no país e tentar residência provisória ou fazer solicitação de refúgio, partindo em seguida para a capital, Boa Vista – distante cerca de 200 km ao sul.

Apesar da continuidade da crise política na Venezuela, já existem conversas entre autoridades dos dois países para a reabertura da fronteira. O senador Telmário Motta (Pros-RR) já fez duas viagens à Venezuela em menos de um mês para encontros com o governo venezuelano com esse objetivo. No entanto, a travessia oficial permanece fechada e sem uma previsão de término.

Depois de um desses encontros, o jornal local Correio do Lavrado chegou a noticiar que a fronteira seria reaberta – o que até agora não se confirmou.

O que acontece atualmente entre Brasil-Venezuela não é diferente do efeito que outras ações de fechamento de fronteiras têm gerado mundo afora. Ao fecharem as vias oficiais de ingresso, os fluxos migratórios continuam por rotas clandestinas. E nelas, os migrantes ficam mais sujeitos a explorações e abusos de todo o tipo – de extorsão de agentes a situações de violência.

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