G7 endurece discurso contra fluxos migratórios; MSF chama cúpula do grupo de “fracasso”

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Operação de resgate conduzida por MSF a bordo do barco Aquarius. Crédito: Kevin McElvaney/dez.2016

Países ricos defendem “direito soberano de controlar” as fronteiras; enquanto isso, deslocamentos humanos se convertem cada vez mais em “loterias”

Por Rodrigo Borges Delfim
De São Paulo (SP)

Até o último dia 24 de maio, 60.521 migrantes e refugiados tinham entrado na Europa pelo mar Mediterrâneo neste ano. No mesmo período, outros 1.530 não tiveram a mesma sorte e acabaram ficando pelo caminho, aumentando o número de sepultados pelas águas.

Esses dados, divulgados na última sexta (26) pela OIM (Organização Internacional para as Migrações) continuam a aumentar e não devem demorar muito para bater 2016, quando o total de chegadas à Europa foi de 387.739, além de 5.098 mortos. Ou seja, atravessar o Mediterrâneo, especialmente, continua sendo uma verdadeira “loteria” para os migrantes que se arriscam.

Chegadas à Europa via Mediterrâneo e mortes até entre 1º de janeiro e 24 de maio deste ano.
Crédito: Arte OIM

Diante desse quadro nas costas europeias, organizações internacionais têm cobrado visão e políticas mais humanitárias e humanas dos governos. No entanto, a predominância de um discurso cada vez mais conservador e avesso aos grandes deslocamentos humanos no continente tende a aumentar o já extenso fosso existente entre a demanda dos migrantes por acolhida e a disposição dos governos em acolhê-los.

Braços e olhos fechados

Essa distância ficou ainda mais evidente com a declaração final da cúpula do G7, o grupo dos sete países mais ricos do mundo (Estados Unidos, Canadá, Japão, Reino Unido, França, Itália e Alemanha), que aconteceu na cidade italiana de Taormina. Os líderes do G7 exigiram “esforços coordenados a nível nacional e internacional” para a gestão do fluxo migratório, ao mesmo tempo em que defenderam “o direito soberano de controlar” as fronteiras.

Os líderes do G7 também ressaltaram “a necessidade de apoiar os refugiados para que retornem aos seus países de origem na medida do possível”, de forma segura e impulsionando a reconstrução de suas comunidades – embora uma rápida busca na internet ou uma simples checada no noticiário internacional mostre que os fatores que causam deslocamentos forçados mundo afora continuam em plena atividade.

A questão migratória, aliás, foi determinante para a escolha do local da reunião do G7, atualmente presidido pela Itália. O país é o que mais recebe migrantes a partir do mar Mediterrâneo (foram 50 mil até agora neste ano) e escolheu uma cidade na ilha da Sicília para o encontro. E por conta das medidas de segurança impostas para a reunião, o desembarque de migrantes e refugiados esteve proibido na Sicília durante os três dias do evento.

Ao mesmo tempo, inseridos no G7 estão o plano de Trump, presidente dos Estados Unidos, de expandir o já existente muro na fronteira com o México, além dos discursos cada vez mais duros de Reino Unido e França contra imigrantes.

Estudos em diferentes países e instituições mostram que a maior restrição aos fluxos humanos cria um círculo vicioso que tende a fomentar atividades de tráfico humano, que se tornam mais lucrativas para os criminosos e mais arriscadas para os migrantes que a elas recorrem.

Reação

A ONG Médicos Sem Fronteiras, que em geral opta pela neutralidade em suas ações e discursos, fez uma manifestação dura contra a cúpula do G7, que considerou “um fracasso”.

“Vemos em primeira mão as consequências dessas políticas para pessoas que assistimos em todo o mundo – no Mediterrâneo, que se transformou em um cemitério gigante; nas condições terríveis de detenção na Líbia; nas necessidades humanitárias dos refugiados sírios; ou no nível extremo de violência na rota centro-americana de migração e refúgio. O fracasso da cúpula do G7 na Sicília só pode causar mais sofrimento, aumentar as mortes no mar, perpetuar condições de recepção terríveis para migrantes e refugiados, e justificar acordos desumanos que terceirizam a migração para países inseguros. Isso está acontecendo diante dos olhos do mundo inteiro, e em total desrespeito aos direitos humanos e aos princípios humanitários básicos”.

Operação de resgate conduzida por MSF a bordo do barco Aquarius.
Crédito: Kevin McElvaney/dez.2016

Dias antes, a organização tinha feito um apelo aos líderes do grupo para que assumissem “compromissos sólidos com políticas de migração humanas e de longo prazo”. A declaração final da cúpula passou anoz-luz disso.

A reação dos Médicos Sem Fronteiras é reforçada ainda pelo resgate de 1.446 pessoas no Mediterrâneo pela organização, neste fim de semana, próximo à costa da Líbia. O desembarque, em geral feito na Sicília, estava proibido justamente por causa do encontro do G7 na ilha, e só foi autorizado em Nápoles, que ficava a 48 horas de barco do ponto de resgate – a Sicília ficava a 30 horas do local.

Com informações de OIM e Médicos Sem Fronteiras

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