Há 50 anos, encíclica da Igreja Católica já falava de progresso e mobilidade humana

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Obra Saliendo, exposta no metrô de Buenos Aires, Argentina. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

O documento reafirma que “não é demasiado insistir sobre o dever do acolhimento – dever de solidariedade humana e de caridade cristã – que incumbe tanto às famílias como às organizações culturais dos países que recebem

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs
De Roma (Itália)

Em março deste ano, comemorou-se o 50º aniversário da Carta Encíclica Populorum Progeressio (PP) (leia aqui na íntegra), publicada pelo então Papa Paulo VI, em 1967, sobre o desenvolvimento dos povos. Vale a pena retomar o texto sob o enfoque da mobilidade humana.

De início, de acordo com Ildefonso Camacho Laraña – em Doutrina Social da Igreja, abordagem história – , a PP constitui uma espécie de segundo capítulo da Constituição Pastoral Gaudium et Spes (GS), aprovada no final do Concíclio Ecumênico Vaticano II. Ambos os documentos, de resto, passam pela mão do Cardeal Montini, sucessor de João XXIII, com o nome de Paulo VI.

Reportando-se à Rerum Novarum (1891) e à Quadragesimo Anno (1931), Paulo VI constata, na primeira parte da PP, que “o fenômeno importante de que cada um deve tomar consciência é o fato da universalidade da questão social” (n. 3). Em seguida, passa a cunhar algumas expressões que ilustram o estado atual da temática. Entre elas podemos destacar: “colonização e colonialismo” (n. 7); “desequilíbrio crescente entre os povos ricos e pobres” (n. 8); “tomada de consciência cada vez maior”, pois “os conflitos sociais propagam-se em dimensões mundiais” (n. 9); “crescimento ambivalente”, o qual pode levar o homem a se tornar “prisioneiro no momento em que se transforma no bem supremo que impede de ver mais além” (n. 19); “tentação da violência”, onde o Papa anuncia que “certamente há situações cuja injustiça brada aos céus” (n. 30).

Na segunda parte, intitulada Para um desenvolvimento solidário da humanidade, o pontífice insiste na “fraternidade dos povos” (n. 44), na “luta contra a fome” (n. 45), no “dever de solidariedade” (n. 48) e propõe um “fundo mundial” (n. 51), com vistas à regulação das relações internacionais. Paulo VI lembra a exigência da “equidade das relações comerciais” (n. 56), na busca de um “mundo solidário (n. 64), com a ressalva de que os “povos são artífices do seu destino” (n. 65).

Obra Saliendo, exposta no metrô de Buenos Aires, Argentina.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Até aqui, um pano de fundo que, não raro, cria as condições para a migração. Do ponto de vista mais estrito da Mobilidae Humana, porém, o documento reafirma que “não é demasiado insistir sobre o dever do acolhimento – dever de solidariedade humana e de caridade cristã – que incumbe tanto às famílias como às organizações culturais dos países que recebem (…). Isto, em primeiro lugar, para defender da solidão, do sentimento de abandono e da miséria que inutilizam toda a energia moral” (n. 67). Lembra, a seguir, os riscos e o “drama dos jovens estudantes” que se encontram fora do seu país (n. 68), bem como o dever de “acolhimento aos trabalhadores emigrados que, economizando para aliviar um puco a família que na tera natal ficou na miséria, vivem em condições por vezes desumanas” (n. 69). E refere-se também “àqueles que são trazidos pelos seus negócios a países recentemente abertos à industrialização: industriais, comerciantes, chefes ou representantes de empresas maiores” (n. 70). Faz, ainda, uma alusão aos “técnicos enviados em missão de desenvolvimento”, sublinhando que “um povo depressa compreende se os que vêem em seu auxílio o fazem com ou sem amizade” (n. 71).

Ao final, a Carta Encíclica recomenda um chamado ao “diálogo das civilizações (n. 73), enfatizando que “o desenvolvimento é o novo nome da paz” (n. 76) e convidando a “sair do isolamento” (n. 77) para uma ação de “todos solidários” (n. 80). Conclui com o convite de mãos à obra “vós todos que ouvistes o apelo dos povos na aflição, vós que vos empenhais em responder-lhes, vós que sois os apóstolos do bom e verdadeiro desenvolvimento” (n. 86).

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