Haitiana que vive em São Paulo pede união para combater o racismo e a xenofobia

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Lauren esteve no elenco da peça Cidade Vodu, encenada na Vila Itororó e que reuniu haitianos e brasileiros. Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Depoimento dado a Eva Bella

Meu nome é Lauren (nome completo é Roselaure Jeanty), tenho 25 anos, sou haitiana.

Moro aqui há 3 anos e antes de chegar aqui eu estudava medicina na República Dominicana, e pretendo terminar meus estudos aqui, esse é meu grande objetivo. Enquanto isso, eu faço parte da USIH ( União Social dos Imigrantes Haitianos)  e nosso trabalho é facilitar  a integração dos imigrantes haitianos na sociedade brasileira, sou muito orgulhosa de ser haitiana e me sinto obrigada a ajudar meus irmãos.

Vamos conseguir superar as dificuldades, queremos ser vistos como guerreiros, afinal o Haiti foi o primeiro país negro a se tornar independente.   Queremos ser vistos como seres humanos, guerreiros,  estamos na luta para isso se concretize.

Essa luta é feita com união e sem violência.

Lauren, sobre o combate ao racismo e à xenofobia: "Essa luta é feita com união e sem violência". Crédito: Eva Bella/MigraMundo
Lauren, sobre o combate ao racismo e à xenofobia: “Essa luta é feita com união e sem violência”.
Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Como ensinou Jean-Jacques Dessalines (líder revolucionário do Haiti e primeiro governante do país), ele sempre dizia que temos que lutar pelo que queremos, que sabemos onde queremos chegar e sabemos de onde viemos. É essa força que carregamos. Eu carrego essa força em qualquer lugar que eu for, ela nos leva a enfrentar as dificuldades, principalmente vivendo fora de nosso país. Olhamos nossos antepassados para manter a força deles para ter a terra livre, onde os escravos tomavam conta do poder, isso com sabedoria, paciência. Essa luta é diária, sempre iremos lutar, e vivendo aqui por sermos negros, as dificuldades são piores, são maiores. E ser mulher negra não é fácil, mas gosto da minha cor, tenho orgulho, é uma coisa única. Ser negra significa muito para mim, é minha história, não somos vítimas.  Nós somos humanos, e quando vejo os negros eu sinto resistência, coragem, temos características que nos ajudam a sobreviver, afinal o racismo existe.

Não é porque somos negros que estamos recebendo favores, somos todos humanos, temos direitos iguais, iremos conseguir lidar com o racismo, aqui somos vistos com desconfiança, nos olham como coitados, mas temos uma história. Não saímos de um país pobre onde só existe fome, onde não tem água. Estão usando o Haiti como laboratório, queremos nossa terra livre, o país já foi conhecido como a Pérola das Antilhas.

Há muitos haitianos formados, mas aqui não temos oportunidades na área. Existem barreiras por sermos negros e haitianos, e isso tem que mudar, nós precisamos mostrar o lado bom. A mídia não tem mostrado as coisas boas, mas nós queremos mostrar essa imagem positiva e sempre vou contribuir para nossa evolução.

O Haiti tem cerca de 95% da população de negros, e os 5% entre mulatos e brancos, dificilmente o racismo acontece lá.

Mas aqui no Brasil eu fiquei impressionada com esse crime de racismo, pois aqui eu passo por isso quase todos os dias, é quase uma coisa normal. Mas hoje eu me aceito mais, eu consigo explicar porque me orgulho de ser negra.

Além de buscar um futuro melhor, Lauren se mobiliza contra o racismo e contra xenofobia. Crédito: Eva Bella/MigraMundo
Além de buscar um futuro melhor, Lauren se mobiliza contra o racismo e contra xenofobia.
Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Não sabia como o racismo afetava as pessoas, não imaginava que a cor da pele seria motivo de piadas, de se desprezar uma pessoa, mas olhando pelo lado positivo,  sou confiante, sempre luto e acredito na história e em mim mesma.

Vamos aprender a nos conhecer melhor, nos valorizar, procurar saber de onde viemos, porque sou negra/negro e qual importância disso?

Temos que estar prontos para enfrentar as dificuldades, temos que ter o pensamento bom. Sou uma pessoa melhor, cada dia aprendo a me aceitar mais.

Tive muitas oportunidades de participar de atividades culturais, pois isso gera uma integração entre nós e a sociedade brasileira. Estou aprendendo e conquistando muitas coisas, participando de peça teatral e mostrando a realidade do Haiti, me sinto realizada!!

Vai além do que imaginei, não é fácil representar e contar um pouco sobre a História do Haiti, relembrar em uma peça vale muito à pena, expressei meus sentimentos e isso contribuiu para meu crescimento.

E tem muitos haitianos que tem participado também de outras atividades culturais para nos integrarmos na sociedade brasileira e vou lutar para que consigamos mostrar nosso valor!

Lauren é integrante da USIH (União Social dos Imigrantes Haitianos), que busca facilitar a integração dos haitianos no Brasil. Crédito: Eva Bella/MigraMundo
Lauren é integrante da USIH (União Social dos Imigrantes Haitianos), que busca facilitar a integração dos haitianos no Brasil.
Crédito: Eva Bella/MigraMundo

Esses eventos são ótimos para convivermos! Quero ver os haitianos ocupando espaços na sociedade, hoje os brasileiros estão interessados e tenho sonho de falar às pessoas o que é o Haiti, mostrar as coisas boas. A história de lá reflete em muitos países, todos países tem altos e baixos, mas não podemos esquecer da origem, sempre levanto minha cabeça, nunca negarei ser haitiana.

Cada país tem seu momento de crise, tem também seu lado bom, as paisagens do Haiti são maravilhosas, e também temos nossos heróis, fica aqui o convite para que todos possam conhecer mais nosso país.

Sei que muitos brasileiros também passam por dificuldades, mas vamos nos unir para enfrentarmos juntos o racismo, preconceito, xenofobia. A luta é nossa!

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