Imigração no Brasil: o medo infundado do outro

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Por Rodrigo Borges Delfim

Quem navega pelas redes sociais certamente já viu posts ou sites com frases alarmistas e apocalípticas dizendo que o Brasil “sofre uma invasão estrangeira”, que forasteiros “vão roubar os empregos e as escolas de nossos filhos”. Tudo isso, veja bem, em um país constituído basicamente por… imigrantes.

Pois bem, esse é apenas um exemplo da esquizofrenia que toma conta de parte da sociedade brasileira quando ouve falar ou pensa em opinar sobre imigração. Ela é criada basicamente por uma mistura de falta de conhecimento com pré-julgamentos e preconceitos, temperada com algumas doses de preguiça em buscar fontes de informação confiáveis. Tudo isso amplificado pela cobertura deficiente que o tema em geral recebe da mídia – superficial e que oscila entre algo que soa como “curioso” em algumas pautas e que reproduz os mesmos estereótipos já presentes na sociedade.

São pessoas que adoram ir a um restaurante japonês, francês ou italiano, se gabam de terem sobrenome europeu e romantizam a trajetória de seus antepassados, mas ao mesmo tempo torcem o nariz quando cruzam com uma família boliviana no supermercado; acham que refugiado e fugitivo são sinônimos; sentem repulsa quando veem um imigrante de algum país africano trabalhando como ambulante; ou mesmo chegam ao disparate de ofender aquele que veio de outro país – o caso ocorrido recentemente contra um frentista haitiano em Canoas, no Rio Grande do Sul, é apenas um exemplo do que se repete Brasil afora.

Embora tenham chegado ao Brasil em momentos diferentes, os imigrantes do passado também foram alvo de preconceito quando começaram a se estabelecer aqui. Por isso soa cada vez mais incompreensível o preconceito contra imigrantes em uma sociedade que é basicamente constituída por eles e seus descendentes diretos ou indiretos.

Árvore na praça Kantuta, em São Paulo. Migrantes são parte da sociedade e não devem ficar à parte dela. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Árvore na praça Kantuta, em São Paulo. Migrantes são parte da sociedade e não devem ficar à parte dela.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

A migração pode ser encarada como uma expressão global do direito de ir e vir. É considerada um direito humano (embora a maioria dos países não façam essa leitura), uma movimentação natural desempenhada pelo homem desde os primórdios da história. E como algo que é feito pelo homem desde antes das primeiras civilizações e pode ser considerado um direito humano é tão combatido pelos governos? Pode um ser humano ser “menos humano” ou mesmo “perder sua humanidade” só por que cruzou uma fronteira? Ou ainda, ser considerado “ilegal”?

Não, nenhum ser humano deve ser considerado ilegal. E o migrante não é um turista, não sai de um país para outro para fazer compras ou “selfies” em locais turísticos; quando decide partir, o migrante deseja buscar em outro lugar as oportunidades e desenvolvimentos que seriam muito mais limitados em sua terra natal. E isso implica em uma série de renúncias, desafios e angústias para o indivíduo, que fica afastado de entes queridos, da cultura que forneceu os valores que carrega, do idioma que aprendeu na família e na escola. Além disso, ainda vive a incerteza se sua empreitada terá êxito – e caso não tenha, o que vai dizer em casa?

O caso fica ainda mais grave quando esse imigrante é, na verdade, um refugiado. Enquanto o migrante decide partir em busca de uma vida melhor, o refugiado simplesmente é obrigado a fugir para não ser violado ou morto por algum tipo de perseguição ou em um conflito armado. Ou seja, o refugiado não tem escolha: sua fuga nada tem a ver com a fuga de um criminoso, e migrar para ele é simplesmente uma questão de vida ou morte.

Certamente muitas das pessoas que julgam e apontam contra imigrantes e refugiados nunca pararam para se colocar no lugar deles – imaginar de onde vieram, como e por que chegaram ao Brasil, o que viveram no caminho para cá. Também devem ignorar o fato de que, em verdade, existem mais brasileiros morando fora do país (cerca 2,8 milhões, de acordo com o Itamaraty) do que imigrantes vivendo dentro do Brasil (em torno de 1,7 mi, segundo dados de outubro de 2014 do governo federal).

E mais: os brasileiros que vivem no exterior também são os imigrantes nos países onde estão – e assim como os imigrantes daqui, também são alvo de preconceitos, ofensas e classificados por meio de estereótipos. Além disso, brasileiros no exterior e migrantes internacionais no Brasil partilham de um outro problema: a falta de uma legislação digna e que preveja não somente deveres, mas também direitos para essa população.

Graças a décadas de mobilização da sociedade civil organizada, dos grupos de migrantes e de parte da área acadêmica, os últimos anos testemunharam iniciativas privadas e políticas públicas em todo o Brasil que contribuem para tentar preencher o vazio deixado por tantas décadas de descaso e abandono de gestões passadas do poder público. É pouco frente à demanda crescente no país, mas não deixam de representar uma luz no fim do túnel – e quanto maior o buraco pelo qual essa luz passa, melhor.

Uma coisa precisa ficar clara. Embora migrar seja um movimento natural do homem, o ato de migrar está longe de ser uma decisão fácil – pode ser, inclusive, até a única saída para se evitar uma morte. Procurar colocar-se no lugar dessas pessoas é fundamental para superar estereótipos, jogar fora a venda que encobre os olhos e enxergá-las como elas realmente são: seres humanos, merecedores de respeito e dignidade.

Publicada originalmente no jornal Brasil de Fato – 25/06/15

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