Imigrantes ou expatriados? Cinquenta tons de significados

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Expatriado é um dos termos usados na temática migratória. Seu uso, em determinados casos, traz um significado excludente. Crédito: Pixabay

Novos movimentos migratórios criam hierarquias de imigrantes que são usadas como tema político

Por Manuela Marques Tchoe
Em Munique (Alemanha)

Com tanto movimento migratório ao redor do mundo, definições sobre imigração e suas diversas classificações tomam forma. Uma dessas definições – notoriamente ambígua – é “expat” (ou expatriado).

O que é um expatriado? E quem pode ser chamado de expat? De acordo com a Wikipedia, “um expatriado é uma pessoa que reside temporária ou permanentemente em um país diferente da sua origem”.

Definido dessa forma, espera-se que qualquer pessoa que vá morar fora de seu país por um período de tempo seria um expatriado, independentemente de sua cor de pele, profissão ou país. Mas esse não é o caso na realidade; expat é um termo comumente utilizado para um seleto grupo de pessoas que vão trabalhar no exterior – geralmente do mundo ocidental, brancas e com bom poder aquisitivo.

Enquanto isso, o termo imigrante está numa posição bem menos privilegiada. Por exemplo, uma empregada filipina nos Emirados Árabes Unidos ou um colombiano na construção civil na Espanha são imigrantes, enquanto profissionais britânicos da área financeira são certamente expats. Engenheiros alemães? Expats. Marqueteiros americanos? Ultra expats.

Expatriado é um dos termos usados na temática migratória. Seu uso, em determinados casos, traz um significado excludente.
Crédito: Pixabay

Mas o que caracterizaria um indiano na área de TI nos Estados Unidos ou um engenheiro chinês? E os brasileiros ao redor do mundo? Seriam eles imigrantes ou expats?

O Wall Street Journal, a principal revista de informação financeira do mundo, tem um blog dedicado à vida dos expatriados que publicou história “In Hong Kong, Just Who Is an Expat Anyway?” (Em Hong Kong, Quem Afinal É um Expat?). O autor traça algumas conclusões: “Algumas pessoas são descritas como expatriadas; outros como imigrantes; e alguns simplesmente como migrantes. Depende da classe social, país de origem e status econômico. É estranho ouvir algumas pessoas em Hong Kong descritas como expatriadas, mas não outras. Qualquer pessoa com raízes em um país ocidental é considerado um expat… Ajudantes domésticos filipinos são apenas convidados, mesmo se eles estão aqui há décadas. Chineses chineses que falam mandarim raramente são considerados expatriados … É um duplo padrão entremeado na política oficial. ”

Por que essas definições importam? Porque tais classificações com significados ambíguos podem, em alguns casos, serem usadas para desumanizar certos grupos migratórios, fazendo deles alvos fáceis para propagandas políticas.  Porque podem denegrir pessoas, numa espécie de hierarquia de imigrantes – alguns valem mais, outros menos. Os imigrantes são alvos mais fáceis para objetivos eleitoreiros, como no caso de Donald Trump (que é seguido por milhões que acreditam ser um muro entre os EUA e o México a solução de todos os problemas) e o Brexit (que usou a imigração como principal tema para sair da União Europeia). Na Alemanha, imigração e principalmente a questão dos refugiados foi o ponto principal de discussões nas eleições para chanceler em 2017. Recentemente alianças políticas estão caindo justamente nesse ponto, como se a Alemanha não tivesse outros problemas.

Os refugiados então – os últimos na hierarquia de migração – são o alvo mais fácil (e mais frágil) no circo político. É claro, é predominantemente uma questão de quantidade de gente que atravessa a fronteira, mas é também uma preocupação de que países como a Alemanha serão “invadidos” por refugiados e imigrantes – mas não por expats, cuja presença não incomoda ninguém (apesar de serem essas pessoas que tomam cargos mais qualificados).

Por isso, tantos tons em significados são importantes de notar – e questionar. Existe uma hierarquia ambígua que distorce a discussão migratória e que é muitas vezes utilizada para fins políticos. Nos diversos tons de cinza que constituem a questão de imigração, paradoxalmente não são os expats com seus empregos mais qualificados que constituem uma ameaça, mas os imigrantes e refugiados que fogem de guerras e fome. Assim caminham as contradições da humanidade.

Manuela Marques Tchoe é uma escritora baiana que atualmente reside em Munique, Alemanha. Seu primeiro livro, Ventos Nômades, é uma coleção de contos que cruzam continentes e exploram o desejo de viajar e do exótico, os desafios e maravilhas de relacionamentos multi culturais e imigração. Manuela também escreve para o seu blog pessoal Baiana da Baviera e está presente no Facebook, Instagram e Twitter com reflexões sobre a vida de imigrante, viagens e literatura.     

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