Indicado ao Oscar, documentário em animação ‘Fuga’ conta história real de refugiado afegão homossexual

Pela primeira vez, uma produção concorre simultaneamente nas categorias de melhor filme internacional, melhor documentário e melhor animação

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Amin e Rasmussen: Aos 20 anos, o diretor perguntou a Amin se ele poderia fazer um documentário sobre sua história, mas ele disse que não estava pronto. Em 2014, ele estava. (Foto: Reprodução)

Por Natália de Oliveira Ramos

Em fevereiro passado, o Oscar anunciou a lista de filmes indicados na premiação da edição 2022. Entre eles `Fuga’, documentário de animação narrado em primeira pessoa por um refugiado homossexual. A jornada do personagem até a meca do cinema mundial começa na década de 1980, quando por decorrência da guerra ele, ainda criança, é obrigado a fugir para a União Soviética junto de sua mãe e irmãos – todos indocumentados – e tentar obter asilo na Escandinávia.

Naquele momento, a ideia de que essa experiência viria a se tornar um documentário premiado em festivais no mundo todo soaria como um devaneio. Quatro décadas depois, a história de Amin concorre simultaneamente nas categorias de melhor filme internacional, melhor documentário e melhor animação – um feito para os anais da premiação estadunidense.

Fuga tem um cenário que se assemelha a uma sessão de terapia em versão desenho animado. (Foto: Reprodução)

“Casa – o que isso significa para você?” Essa é a pergunta que paira sobre `Fuga’, dirigido por Jonas Poher Rasmussen sobre um amigo do ensino médio que migrou do Afeganistão para a Dinamarca aos 15 anos. Por motivos que ficam claros no decorrer do filme, o amigo – agora um adulto com um relacionamento estável e uma prestigiada carreira acadêmica – recebe o pseudônimo de Amin Nawabi. A animação adiciona mais uma camada de proteção ao personagem, mas a voz que conta a história pertence a ele, e a própria história é selecionada por memórias carregadas de ausências e de silêncios guardados por muito tempo.

O filme

No início do filme, Amin aparece como um homem de 40 e poucos anos, deitado de costas com os olhos fechados enquanto Rasmussen se prepara para filmar – um cenário que se assemelha a uma sessão de terapia em versão desenho animado.

A primeira casa que Amin recorda é em Cabul como o caçula de cinco filhos – seu pai era um oficial militar. Ele assistiu como o governo apoiado pelos soviéticos no Afeganistão deu lugar aos Mujahjedin (grupo extremista financiado pelos Estados Unidos). A política, no entanto, é menos importante do que o trauma que Amin experiencia quando criança desde que o pai é preso.

A narrativa se desdobra pelas memórias de Amin, algumas quase sensoriais para o público, como pessoas trancadas em um contêiner ou quando tenta cruzar o mar Báltico a bordo de um barco caindo aos pedaços. As recordações de um tempo mais simples também são narradas, como na infância com o entendimento da sexualidade que acontece através de um enamoramento pelo ator belga Jean-Claude Van Damme, a quem ele imagina piscando para ele de um pôster na parede de seu quarto em Cabul.

Para um público habituado a ter contato com o Afeganistão apenas em períodos de conflitos com o Ocidente, o documentário tem a proeza de transmitir a dor alheia sem reafirmar os clichês que cercam as vítimas de guerra. Por mais que a animação seja a história de fuga e eventual assentamento de um refugiado, também é uma história complexa sobre diferentes formas de marginalidade e senso de pertencimento – dificilmente desenvolvido fora do país de origem, em outro idioma, dentro de culturas e valores tão dispares – como o próprio Oriente Médio e os países nórdicos; ou ser imigrante na Dinamarca e um homem gay no Afeganistão.

Amin e seu marido Kasper no documentário Fuga. (Foto: Reprodução)

Opção pela animação

Ao The Guardian, Rasmussen, diretor do documentário, contou que optou pelo método de animação porque lhe pareceu “mais honesto” para transmitir os sentimentos de Amin do que tentar reproduzir os fatos. Quando Amin brinca ainda criança em Cabul com os vestidos de sua irmã, por exemplo, ou dança alegremente ao som de Take on Me, da banda A-ha, o clima é brilhante e animado. Já nos momentos que revive os traumas na lembrança, a animação se torna um pesadelo: rostos aparecem sem feições, os arredores tornam-se sombrios e abstratos.

A fala de Amin fica também mais lenta e incoerente quando recorda o trato da polícia russa com pessoas indocumentadas; o perigo de morte ao que fora submetido pelo tráfico humano ao tentar chegar a Escandinávia; o voyerismo de turistas a bordo de um transatlântico que tiravam fotos dos afegãos à deriva, mas não prestaram socorro. “Eu sabia que precisávamos ver isso refletido na animação. Não é mais sobre a realidade, é sobre a emoção interior, a raiva e o medo”, disse Rasmussen.

Isso cria, na avaliação do crítico cinematográfico A.O. Scott, não apenas suspense, pois nos perguntamos o que acontecerá com Amin e sua família, mas também um poderoso sentimento de identificação. Mesmo que, como o próprio refugiado diz, a maioria das pessoas não consegue nem imaginar como fugir assim te afeta, como interfere nos seus relacionamentos com outras pessoas, o quanto te destrói”.

Mesmo antes das indicações ao Oscar – que por si só é um feito, já que a academia tem sido criticada pela falta de diversidade em suas premiações – o filme recebeu críticas positivas entre os principais festivais de cinema, como o Sundance.  O filme dinamarquês foi tão bem recebido em seu país natal – que adotou uma linha dura em relação aos refugiados nos últimos anos – que há esperança de que ele possa mudar o debate sobre migração.


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