Informação é poder: campanha conscientiza contra a violência no parto

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Uma forma de violência que pode ser verbal, física, psicológica ou reunir todos esses elementos ao mesmo tempo; que desconhece classe social ou nacionalidade, e que muitas vezes não é percebida como tal, dificultando seu conhecimento e combate. Assim é a violência obstétrica, que vitima mulheres antes, durante e depois da gravidez.

Mas como identificar e evitar esse tipo de violência contra a mulher, justamente em um momento tão especial quanto frágil, permitindo bem-estar tanto à mãe quanto à criança? Dar informação e orientar migrantes e nativas para essa tarefa é o objetivo da campanha lançada neste domingo (14) na praça Kantuta, ponto tradicional da comunidade boliviana e latina de São Paulo. A iniciativa é organizada pela equipe de base Warmis.

“Informação é poder. Toda mulher tem direito a um pré-natal, a um parto e a um pós-parto digno, independente da nacionalidade”, explica a militante chilena Andrea Carabantes Soto, há cinco anos no Brasil e mãe do pequeno Ulisses, que a acompanhou no evento.

Praça Kantuta, em São Paulo, foi palco de mais um evento de mobilização e conscientização de direitos - para brasileiras e migrantes. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Praça Kantuta, em São Paulo, foi palco de mais um evento de mobilização e conscientização de direitos – para brasileiras e migrantes.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

“A violência obstétrica é algo que ocorre diariamente e muitas mulheres não sabem. Nossa participação aqui é justamente mostrar o que é a violência obstétrica, o que tem sido feito contra essa prática e como denunciar”, explica a brasileira Erica Sato, ativista do parto humanizado e voluntária na ONG Artemis, que colaborou com a campanha. Mãe de três filhos, ela partilhou com os demais presentes ao evento um pouco da experiência que teve na segunda gestação, quando também sofreu violência obstétrica.

A campanha conta com apoio da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, que disponibilizou folhetos explicativos sobre a violência obstétrica – como se caracteriza, tipos mais comuns e como denunciá-la. “Além de prestar assistência jurídica à população necessitada, a Defensoria também faz a educação em direitos. Muita gente não sabe o que é violência obstétrica, que foi vítima dela e que também pode vir a ser vítima”, comenta Camila Paronetti Silva, coordenadora da Escola da Defensoria Pública na região do Grande ABCD e colaboradora do núcleo de direitos humanos da Defensoria.

Militantes e voluntárias atendem ao público e dão orientações sobre a campanha. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Militantes e voluntárias atendem ao público e dão orientações sobre a campanha.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Também integrante da equipe Warmis, a boliviana Jobana Moya é mãe de dois filhos e sofreu maus tratos no serviço privado de saúde durante a primeira gravidez. Para ela, a grande mensagem que a campanha passa é a de mostrar a existência do problema e a mobilização contra ele. “A mensagem que fica é: alô, estamos aqui! Temos interesse pelo tema, temos capacidade de nos organizar e nos mobilizarmos contra esse problema que nos afeta. Este evento também vai servir para que as mulheres migrantes saibam que elas podem denunciar.”

Denúncias de violência obstétrica podem ser feitas pelos telefones 180 (Violência Contra a Mulher) ou 136 (Disque Saúde) e também por meio da Defensoria. Para a denúncia é importante exigir (seja serviço público ou privado de saúde) uma cópia do prontuário do paciente.

Na Argentina e na Venezuela, a violência obstétrica já é reconhecida como um crime contra a mulher.

O plano de parto

Embora seja pouco usado pelas mulheres, ter um plano de parto é um instrumento muito útil para ajudar a evitar a violência obstétrica. Ele serve como registro da vontade da gestante e como pedido para que sua autonomia seja preservada, evitando que ela seja submetida sem necessidade a procedimentos invasivos e que possam atrapalhar tanto a futura mãe quanto o bebê que está para nascer.

Nesse documento, a mulher indica quais situações e intervenções cirúrgicas quer evitar, antecipa direitos que deseja usufruir no momento de dar à luz e logo após o nascimento de seu bebê. Embora não seja infalível, o recurso é fortemente recomendado para toda e qualquer gestante, independente da origem, classe ou situação social.

Plano de parto é um recurso bastante útil para  ajudar a prevenir a violência obstétrica. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Plano de parto é um recurso bastante útil para ajudar a prevenir a violência obstétrica.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Cópias de modelos de plano de parto – elaborados em conjunto pela Artemis e Defensoria – foram disponibilizadas durante o evento de lançamento da campanha, que deve ter novos encontros e debates em breve.

Vídeo-aulas e voluntariado

Além da campanha em si, a Warmis também elaborou uma série de quatro vídeos-aula sobre como evitar a violência obstétrica. Para ter acesso e acompanhá-las, basta acessar o link abaixo e inserir nome e e-mail:

http://envios.warmis.org/w/1e4eqcmextK2WVAke09360727

A Warmis também procura voluntários (nativos ou migrantes, mulheres ou homens) para ajudar em outras atividades promovidas pelas equipe. Caso tenha interesse, basta entrar em contato com a equipe por meio deste link.

Embora a campanha tenha um foco maior sobre as mulheres migrantes latinas, muito mais habituadas culturalmente ao parto normal, ela também se estende às brasileiras que se opõem à prática indiscriminada de procedimentos obstétricos invasivos – especialmente em um momento no qual começa a ganhar espaço o debate sobre o parto humanizado no sistema de saúde brasileiro.

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