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domingo, setembro 6, 2026

Invasão de migrantes ? Ceuta reflete contradições e consequências da política migratória europeia

Pesquisadores e análises públicas consultadas pelo MigraMundo apontam que o real problema expresso por Ceuta está no formato escolhido pela Europa para gerenciamento de fronteiras, que desumaniza as pessoas que se deslocam

Atualizado às 15h30 de 3.ago.2026

O já polarizado debate em torno das migrações na Europa ganhou novo impulso em razão da entrada em grande volume de migrantes na cidade de Ceuta, enclave espanhol no Marrocos, na última semana. Mas o que de fato esse episódio significa? Para entender a questão, o MigraMundo ouviu especialistas em migração e também consultou análises públicas sobre os acontecimentos dos últimos dias.

Na semana passada, cerca de 60 mil migrantes, sobretudo marroquinos, entraram em Ceuta depois de contornar a nado a barreira no mar que separa o território espanhol do marroquino, ou mesmo subindo a cerca erguida com a mesma finalidade. Na tentativa de travessia, 84 pessoas morreram afogadas ou pisoteadas, segundo informações atualizadas nesta segunda-feira (3). Desse total, segundo o governo espanhol, quase todos já deixaram a cidade.

Por fazer parte da Espanha, Ceuta também integra a União Europeia. Para muitos migrantes, entrar na cidade representa uma porta de acesso ao bloco europeu – ou seja, o objetivo maior é chegar ao continente em si, não permanecer no local. O mesmo se aplica a Melilla, outro território espanhol encravado no Marrocos.

As reações às imagens foram imediatas. A União Europeia – que recentemente aprovou novas e mais rígidas diretrizes de migração – convocou para terça-feira (4) uma reunião de emergência para discutir a questão. A Itália suspendeu a Espanha do Acordo de Schengen por um mês, o que impede a livre circulação entre os dois países. Durante esse período, pessoas vindas de avião ou barco do território espanhol terão que passar pela imigração.

Na mesma esteira, grupos e lideranças alinhados com uma política migratória mais restrita dispararam críticas ao governo espanhol, acusado de fazer pouco para proteger as fronteiras europeias. Recentemente, a Espanha foi na contramão de outros países europeus e lançou um programa de regularização de migrantes indocumentados, que alcançou 1 milhão de pessoas.

O premiê espanhol, Pedro Sánchez, culpou máfias especializadas em tráfico humano pela disseminação de boatos sobre o acesso ao país europeu e anunciou a instalação de boias para criar uma barreira de contenção. Na Espanha, há menções a uma sentença do Supremo Tribunal Espanhol, que determinou, três semanas atrás, que os migrantes interceptados no mar quando tentam chegar a Ceuta ou Melilla não podem ser devolvidos imediatamente ao Marrocos.

Contradições

Não é a primeira vez que as cidades de Ceuta e Melilla vivem um episódio dessa natureza. Em 2021 já houve uma grande entrada de migrantes em Ceuta, em um contexto de forte tensão diplomática entre Espanha e Marrocos, relacionado à questão do Saara Ocidental. Em 2022, em Melilla, uma tentativa de travessia terminou com dezenas de mortes.

Paulo Illes, presidente da Rede Sem Fronteiras e especialista em migração e políticas públicas, ressalta que esse episódio em Ceuta revela uma das principais contradições da política migratória europeia.

“A União Europeia optou por externalizar suas fronteiras, financiando e fortalecendo países terceiros para que controlem os fluxos migratórios antes que eles cheguem ao território europeu. O problema é que isso cria uma relação de dependência política. Quando surgem conflitos diplomáticos ou interesses estratégicos desses países, o controle migratório pode ser flexibilizado e os fluxos aumentam significativamente”.

Desde meados dos anos 2000, a União Europeia vem fazendo acordos com países dentro e fora do continente como parte do controle migratório, como se fossem grandes “porteiros” da Europa. Um dos mais conhecidos é o firmado com a Turquia em 2016, para cortar o fluxo de pessoas a partir do Oriente Médio. O mesmo ocorre junto a países africanos, como Marrocos, Tunísia, Líbia, Mauritânia e Senegal.

“Esses países passam a exercer um papel estratégico no controle das fronteiras europeias e, em momentos de tensão geopolítica, acabam utilizando essa posição como instrumento de negociação. É justamente isso que parece ocorrer mais uma vez na relação entre Espanha e Marrocos”, observa Illes.

A contradição na política migratória europeia também é o ponto central da análise feita por Ruth Ferrero-Turrión, professora de Ciência Política na Universidade Complutense de Madri, ao portal espanhol Agenda Pública, especializado em análises sobre políticas públicas e relações exteriores. Ela acrescenta ainda que, além da migração ser usada como fator de negociação, preocupa o fato de partidos tidos como progressistas sucumbirem ao entendimento de que a migração é uma ameaça existencial que demanda “respostas excepcionais”.

“O mais preocupante é que esse enquadramento discursivo deixou de ser um patrimônio exclusivo das forças de extrema direita. Gradualmente, ele foi incorporado por amplos setores da centro-direita europeia e começa a se normalizar até mesmo em debates institucionais nos quais, há apenas uma década, seria impensável”.

Crise migratória?

Os acontecimentos em Ceuta vêm sendo classificados de forma sistemática como “crise migratória”. Mas esse termo de fato faria sentido? Os pesquisadores consultados pelo MigraMundo apontam que o que existe de fato é uma crise humanitária e uma crise de governança das migrações.

“A mobilidade humana sempre existiu. O que vemos hoje é o aprofundamento das desigualdades econômicas, dos conflitos armados, das mudanças climáticas e também das consequências históricas da exploração do continente africano. Tudo isso impulsiona as pessoas a buscar melhores condições de vida. Portanto, eu não falaria em crise migratória. Falaria em uma crise da governança migratória e em um colapso da capacidade do sistema internacional de oferecer proteção, canais seguros e respostas humanitárias às pessoas em movimento”, destaca Illes.

A professora de Relações Internacionais do CEUB (Centro Universitário de Brasília) e líder do projeto de extensão Balcão do Refugiado, Raquel Boing, também expressa preocupação com o uso do termo crise migratória de forma ostensiva por meios de comunicação e lideranças políticas.

“Sua utilização, como se pode perceber em acontecimentos como os atuais, reforça e justifica as respostas de cunho securitário, revitimizando migrantes ao serem vistos como responsáveis por desordem e desrespeito às fronteiras. Precisamos defender o direito de migrar e entender as razões que levam ao deslocamento de pessoas”.

O sociólogo brasileiro Flávio Carvalho, que vive há duas décadas em Barcelona, aponta, em texto compartilhado com o MigraMundo, que os acontecimentos em Ceuta são resultado de uma “tempestade perfeita” que expõe toda uma crise humanitária que atende a determinadas narrativas e desconsidera o elemento humano das migrações.

“Longe de ser uma invasão, sempre foi uma questão humanitária, estrategicamente instrumentalizada por alianças orquestradas entre governos conservadores. A tempestade perfeita é construída não naturalmente, e sim pela ação de determinados governantes”.

No artigo para a Agenda Pública, a professora Turrión pontua ainda que o verdadeiro risco da crise em Ceuta é o da consolidação de um paradigma político que transforma a migração em um problema de segurança, em vez de tratá-la como um desafio de governança. “Porque, quando essa mudança de perspectiva acaba se impondo, não são apenas as políticas migratórias que mudam. Muda também a forma como as democracias europeias compreendem suas fronteiras, seus direitos e, em última instância, sua própria concepção de segurança”.

Na mesma linha, Boing complementa que será necessário ter atenção para o impacto que esse episódio terá no eleitorado espanhol, uma vez que movimentos e partidos de direita e extrema-direita em toda a Europa têm aproveitado a situação em Ceuta para alimentar alarmismos e discursos de ódio. “Espero que a situação possa justamente mostrar a necessidade de uma discussão mais ampla sobre fluxos econômicos e de pessoas. É essencial que se mostre a importância dos migrantes tanto na diversidade cultural histórica da Espanha quanto para a composição econômica e demográfica do país, assim como do resto da Europa”.


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