Literatura brasileira fora do país, ganhando o mundo

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Festa do Livro em Barcelona, com a participação do Coletivo Brasil Catalunha.

Por Flávio Carvalho. @1flaviocarvalho. @quixotemacunaima.

O dia de Sant Jordi (São Jorge) em Barcelona (23 de abril) é a grande festa da literatura. O dia do livro, dedicado a Cervantes. Neste dia, há nove anos, a associação Coletivo Brasil Catalunha (CBC) realiza apresentação de livros, saraus poéticos musicais e vende livros, novos e doados, sobre o Brasil ou em língua portuguesa no Passeio de Gracia, a mais luxuosa avenida da cidade.

Pelo Sant Jordi do CBC passaram, somente para ter-se uma ideia dos últimos anos, Giselle Macedo, apresentando seu livro Dom Quixote: poesia, crítica e tradução; Taíza Brito apresentando seus livros A confissão do Padre Hosana e sobre o Cantinho Brasileiro, o barzinho pernambucano catalão mais antigo de Barcelona; e Eliana Macedo, escritora do livro Ajudeu-me! (Ajudem-me!, em catalão), sobre o seu processo de migrar e aprender a conviver com ajuda da língua local. Em outros anos, apenas para ficar em poucos exemplos, apresentou-se Desenrolando a língua, o livro infantil de Anna Ly, cantora, compositora e educadora, criado em conjunto com as crianças da APBC, a Associação de Pais de Brasileirinhos na Catalunha. E Andreia Moroni, ex Presidenta da mesma APBC, falou sobre a publicação do seu livro e do assunto pelo qual se tornou uma das principais especialistas em todo o mundo: o Português como Língua de Herança.

Festa do Livro em Barcelona, com a participação do Coletivo Brasil Catalunha.

Não podemos deixar de prestar atenção que a imensa maioria de escritoras, mulheres, representa um fato evidente: elas são maioria quantitativa e, ao mesmo tempo, demonstram a qualidade do associativismo, empreendedorismo e da promoção das culturas e língua do Brasil no exterior. No 8 de março do Coletivo Brasil Catalunha, cada ano, premia-se brasileiras com o Prêmio Nélida Piñon.

Mas não somente. Compartilharam mesa importantes catalães como Enric Larreula, autor de Terres Verges (Terras Virgens, em catalão), sobre uma experiência anarquista de utópica vida em sociedade alternativa por parte de exilados e migrantes catalães no Brasil. Também Pep Valenzuela, autor do livro ¿Lula, donde vás? (Lula, aonde vais?), juntamente com o professor Pere Petit, da Universidade Federal de Belém do Pará. E está sendo programada apresentação do livro Samba per a un difunt (Samba para um defunto), do premiado escritor catalão Salvador Casas, sobre uma trama de mistérios e assassinato envolvendo a vida de um catalão em cidades como São Paulo e Brasília. Pra não ficar no gueto (somente entre brasileiros ou sobre o Brasil), basta dizer que também participaram David Monteagudo, o escritor galego catalão que entrou na lista dos mais vendidos em toda a Espanha (Fin é o nome do seu Bestseller, que até virou filme de cinema) e Josep Pimentel apresentou-nos Barricada, uma história da Barcelona revolucionária.

Tudo isso, principalmente, no Maloca, espaço cultural e gastronômico de duas brasileiras empreendedoras e criativas.

Ano passado, o escritor e professor da Sorbonne Leonardo Tonus veio à Barcelona juntamente com escritores como Rodrigo Ciriaco, Marta Barcellos, Simone Paulino, Susanna Busato e Marcelo Maluf, entre outros, para realizar o festival Printemps Literari, na Livraria Altaïr, a maior livraria de viagens da Europa – eleita por publicações especializadas. Este ano o Sarau Literário, com o músico Walmir Palma, promoveu o Dia da Língua Portuguesa e o Sarau Viva Jorge em bares e restaurantes como Panela de Barro, Rio DOC, Beijo de Moça e Cantinho Brasileiro. Todos excelentes representantes dos empreendimentos gastronômicos da comunidade brasileira em Barcelona, em plena efervescência cultural e aproveitando que a poesia voltou a estar de moda em diversas cidades da Europa.

E não é um fenômeno restrito a esse lugar.

Gustavo Behr, músico, advogado, assessor político e escritor gaúcho, ex Presidente da Casa do Brasil de Lisboa, é um dos muitos brasileiros que se dedicam, há anos, a expressar sua marca literária em blogs próprios. Por sua excelente qualidade autoral, publicou Cidade Alta, Cidade Baixa, estabelecendo paralelismos entre Porto Alegre e Lisboa, num exercício leve e empolgante de narrar suas experiências e fantasias. Outras como Mara Parrela (autora de Hierr en Daar; Aqui e Lá) e Danielli Cavalcanti nos convidam a entrar em suas vidas migrantes, pelo prazer de lê-las. São escritoras que já estão no segundo livro. Daniele, por exemplo, depois do êxito de Flor de Linz, a deliciosa narrativa de vivências da cafeteria que montou na Áustria, agora nos surpreende (muito positivamente) com o livro de poesias Quando eu outono, tu primaveras.

Não poderíamos concluir a viagem literária desse texto sem mencionar que Gustavo, Danielli e tantos outros apresentaram suas obras no que hoje é considerado o templo sagrado da literatura brasileira ou em língua portuguesa na Europa. A Livraria, do pernambucano Edney Melo, em pleno coração de Berlim, é o espaço cultural mais ativo e antigo, aberto aos novos e não tão jovens talentos. O Livreiro de Berlim, como Edney tem ficado conhecido em diversos meios de comunicação, já trouxe para sua Livraria nomes como Mia Couto, João Ubaldo Ribeiro, Arnaldo Antunes, Ruy Castro, Cristóvão Tezza, Paulo Lins, Heloísa Seixas, Daniel Galera, e uma longa lista que não caberia no final desse escrito.

Viva as letras brasileiras, Aqui e lá. Não é, Mara?

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