Livro conta “lado B” da migração italiana e a aproxima dos fluxos atuais

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Capa do livro "Em Alto-Mar", considerado o primeiro romance sobre a emigração italiana. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Tradutora e curadora do best seller italiano “Em Alto-Mar” lembra que há mais semelhanças do que se imagina entre as migrações de hoje e do passado

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Atualizado em 20/09/17, às 18h25

Os relatos sobre migrantes que se arriscam em travessias marítimas (muitas vezes em condições precárias) não são novidade na história. Muitos dos europeus que migraram para a América o fizeram em barcos e sob condições bastante difíceis.

Esse “lado B” da migração italiana pode ser conhecido no livro “Em Alto-Mar”, do jornalista e escritor Edmondo de Amicis (1846-1908), que chega ao Brasil em coedição da Editora Nova Alexandria e do Istituto Italiano di Cultura de São Paulo, com o apoio do Programa de Ação Cultural (Proac), da Secretaria da Cultura do Governo de São Paulo. A obra é baseada no relato da travessia que o autor fez do porto italiano de Gênova (Itália) ao de Montevidéu (Uruguai), em 1884.

Lançado na Itália em 1889 (com o nome original de Sull’Oceano) e considerado um best seller da época, é apontado como o primeiro romance sobre a emigração italiana. A versão em português vem graças a um projeto de Adriana Marcolini, tradutora e curadora da obra, que buscou os recursos junto ao Proac e conseguiu o apoio da Nova Alexandria e do instituto italiano para a publicação. “Percebi que precisava preencher essa lacuna e oferecer essa obra tão importante para os leitores brasileiros”, explica.

Em entrevista ao MigraMundo (leia mais abaixo), Adriana conta ainda um outro motivo forte pela escolha de “Em Alto-Mar” para tradução e publicação, que é de aproximar as migrações do passado e do presente. “‘Em Alto-Mar’ é uma obra fundamental para a história da emigração italiana. Sua leitura nos revela a semelhança entre os emigrantes de ontem e de hoje; mostra que eles queriam ser os protagonistas de sua própria história, tal como o fazem os da atualidade”.

Em São Paulo, a tradutora vai participar de uma roda de leitura no próximo dia 28 de setembro, às 20h, na livraria Blooks do Shopping Frei Caneca, na qual também falará sobre a obra.

Capa do livro “Em Alto-Mar”, considerado o primeiro romance sobre a emigração italiana.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

MigraMundo: O que te levou a escolher esse livro em especial para tradução?
Adriana Marcolini: Escolhi esse livro porque é um clássico. Edmondo De Amicis, o autor de Em Alto-Mar, escreveu o primeiro romance da emigração italiana. O original Sull’Oceano foi lançado na Itália em 1889 pelo célebre editor Emilio Treves e ainda estava inédito no Brasil até 2017! Percebi que precisava preencher essa lacuna e oferecer essa obra tão importante para os leitores brasileiros.

MigraMundo: A partir do que você tem percebido (pessoalmente, junto à editora, etc), como está a recepção quanto à obra?
Adriana: Em Alto-Mar está sendo bem recebido tanto pelos leitores quanto pela crítica. Nas palestras que fiz em São Paulo, Rio e Minas Gerais sempre houve bastante interesse. No dia 22 de setembro, às 19 horas, farei uma roda de leitura na livraria Blooks do Shopping Frei Caneca, em São Paulo. Os principais jornais paulistas publicaram resenhas sobre o livro. O jornalista Luiz Zanin Oricchio, do Estadão, questionou por que uma obra tão importante para a história da emigração italiana ainda estava inédita no Brasil até hoje. Justamente o que me perguntei quando decidi fazer a tradução.

MigraMundo: Na sua opinião, qual a passagem mais marcante do livro? E por qual motivo?
Adriana: É difícil escolher a passagem mais marcante… indico algumas. A primeira é no início do livro (p.36), quando, a partir dos passaportes que estão guardados no escritório do comissário de bordo, De Amicis faz uma descrição sobre os emigrantes, trazendo à tona detalhes sobre suas origens e profissões, revelando a face humana da emigração. Na página 251, o trecho sobre os sacos do correio que transportavam as cartas entre os que partiram e os que ficaram – “porque continham o fragmento do diálogo de dois mundos” – é comovente. Para completar, destaco ainda a passagem do final (p. 271) em que uma jovem camponesa se põe a chorar quando vê a América pela primeira vez, depois de três semanas de viagem: só então ela se deu conta de que havia deixado definitivamente seu país. Vale lembrar que naquela época não havia internet e muito menos Skype. Apenas cartas. Por fim, sublinho que alguns trechos são emblemáticos, como a passagem do Equador, que marca a fronteira entre os hemisférios e simboliza o ingresso no Novo Mundo.

MigraMundo: A migração que ocorreu no século 19 e na primeira metade do século 20 costuma ser apresentada de uma forma um tanto romanceada. Ao mostrar um retrato bem mais cru dessa migração histórica, você acha que esse livro ajuda a quebrar um pouco dessa imagem?
Adriana: Espero – e acredito – que sim. De fato, nossa sociedade construiu uma narrativa romanceada em torno das migrações daquela época, quando, na verdade, os migrantes de então passaram por situações extremamente difíceis e viveram em condições muito adversas. No caso da imigração italiana, existe uma tendência clara nesse sentido. Boa parte dos italianos que vieram para o Brasil naquele período eram realmente miseráveis; muitos eram analfabetos e – por mais estranho que pareça – só foram se alfabetizar (primeiramente na língua italiana) em terras brasileiras. Não tinham noções de geografia e confundiam o Brasil com a Argentina; pensavam que a terra fosse plana e tinham pavor da travessia transoceânica.

MigraMundo: O livro, embora seja do final do século 19, tem traços que o tornam muito atual, especialmente quanto às condições de viagem dos migrantes no mar (precárias ontem e hoje). Você tinha esse fator em mente quando optou por traduzi-lo?
Adriana: Sim. A primeira leitura do original chamou minha atenção para as condições precárias da travessia. A emigração foi uma importante fonte de lucro para os armadores de Gênova, o porto de onde partiu a maioria dos que se destinavam à América do Sul. Até 1901 – quando as autoridades italianas estabeleceram regras sanitárias e de segurança para os navios dos emigrantes – os armadores se aproveitaram da carência de normas para abarrotar os navios. Houve muitos casos de naufrágios e epidemias a bordo. Um caso famoso foi o do navio Remo, em 1893. Trazia 1.500 emigrantes italianos para o Brasil e foi acometido por uma epidemia de cólera. Os passageiros sobreviventes foram impedidos de desembarcar no porto do Rio de Janeiro por uma questão de segurança sanitária. O navio foi obrigado a retornar para a Itália com boa parte dos passageiros doentes, o que resultou em mais vítimas. No total, 96 passageiros morreram.

Primeira visão de migrantes ao chegarem a Santos (SP).
Crédito: Museu da Imigração/Acervo Digital

MigraMundo: Que legado você acredita que uma obra como essa deixa para os estudos e para o debate sobre migrações?
Adriana: “Em Alto-Mar” é uma obra fundamental para a história da emigração italiana. Sua leitura nos revela a semelhança entre os emigrantes de ontem e de hoje; mostra que eles queriam ser os protagonistas de sua própria história, tal como o fazem os da atualidade. Analisando-o sob a ótica da Itália, percebemos o quanto a emigração marcou aquele país, embora durante muito tempo, praticamente até meados dos anos 1990, a sociedade italiana (incluindo a escola e os livros escolares) tenham adotado uma postura de negação desse passado sombrio.

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