Migração ambiental precisa entrar na agenda brasileira, diz pesquisadora

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Família colombiana vivendo em região suscetível a enchentes. Crédito: Scott Wallace/Banco Mundial

Livro recente publicado na UFRR busca dar visibilidade a uma vertente das migrações ainda pouco explorada dentro do Brasil

Por Rodrigo Borges Delfim
Em São Paulo (SP)
Atualizado às 09h56 de 31/01/18

Refugiados ambientais, refugiados do clima, migrações climáticas… Esses são alguns dos termos que surgiram nos últimos anos em decorrência dos deslocamentos humanos gerados por questões ambientais – climáticas ou não. E embora o tema esteja ganhando importância mundo afora, ele ainda carece de uma maior destaque tanto no meio acadêmico como na sociedade civil, inclusive no Brasil.

Um esforço recente para preencher essa lacuna pode ser verificado no livro “Refugiados Ambientais”, que acaba de ser lançado pela UFRR (Universidade Federal de Roraima). Ele está disponível gratuitamente em formato PDF no site da editora universitária.

Clique aqui para acessar e baixar o livro

“É justamente por ser pouco explorado no Brasil que esse projeto foi idealizado, para tirar da invisibilidade esse tema. Queremos mostrar que a migração é um fenômeno global, não só no Brasil”, aponta a pesquisadora Erika Pires Ramos, doutora em Direito Internacional pela USP e especialista em migrações ambientais. Ela é uma das organizadoras da obra, ao lado das professoras Liliana Lyra Jubilut, Carolina de Abreu Batista Claro e Fernanda de Sales Cavedon-Capdeville. O professor João Carlos Jarochinski Silva, da UFRR, ficou responsável pela edição da obra, que tem 28 artigos distribuídos em 932 páginas.

A publicação é fruto de quatro anos de trabalho e traz artigos de dezenas de pesquisadores e especialistas brasileiros e do exterior que discutem desde o uso do conceito de “refugiado climático” às múltiplas facetas que a questão vem despertando mundo afora – inclusive no cenário brasileiro. Um exemplo é o dos impactos gerados pelas barragens de usinas hidrelétricas na região norte do Brasil.

Família colombiana vivendo em região suscetível a enchentes. Crédito: Scott Wallace/Banco Mundial

Ao lado de Fernanda e Carolina, Erika é também integrante e fundadora da Resama (Rede Sul-Americana para as Migrações Ambientais), que atua em pesquisas e ações relacionadas aos deslocamentos causados por questões climáticas. Ela pondera que o Brasil ainda carece de dados que consigam documentar os deslocamentos internos no país gerados por questões climáticas e grandes intervenções na natureza.

“O único jeito de tirar esse tema da invisibilidade é investir em pesquisa empírica sobre o tema, informar os órgãos públicos. Temos a expectativa que essa publicação seja um primeiro esforço que dê origem a outras publicações no futuro e para colocar o assunto de vez na agenda brasileira”.

Erika frisa ainda que outro objetivo do livro é incentivar a pesquisa empírica para ir a campo e conhecer de perto a realidade vivida pelas pessoas obrigadas a se deslocar por motivos ambientais. “Elas precisam ser ouvidas e tiradas da invisibilidade, ter suas necessidades entendidas para que possamos melhor atendê-las”.

Um estudo divulgado em novembro de 2017 pela OIM (Organização Internacional para as Migrações) concluiu que em cinco comunidades estudadas de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Equador houve movimentos migratórios de tipo permanente e/ou transitório devido à intensificação de eventos extremos provocados pela mudança climática. O relatório aponta ainda a América do Sul como uma das regiões mais vulneráveis do planeta aos efeitos das transformações do clima.

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