Migração e movimento profético

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A Bíblia cristã tem ensinamentos sobre o tratamento a ser dado a imigrantes e refugiados que cabem em qualquer crença. Crédito: Márcia Passoni

As referências ao contexto da mobilidade humana, a exemplo da própria experiência do êxodo e do deserto, do exílio e da diáspora, se cruzam e se entrelaçam nos rostos, nomes, histórias, horizontes e sonhos dos migrantes

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

De acordo com o comentário da edição Bíblia de Jerusalém, e especialmente a partir da “doutrina do movimento profético”, são três as linhas fundamentais que distinguem a religião do Antigo Testamento: o monoteísmo, o moralismo e a esperança da salvação . Poderia ser um percurso fecundo confrontar semelhante comentário com as três advertências básicas que, em maior ou menor grau, implícita ou explicitamente, recorrem praticamente em todos os escritos proféticos: lembra-te, denúncia e anúncio. Depois, cruzar as observações obtidas com o contexto das migrações no mundo atual, um mundo em franco e crescente movimento. As referências ao contexto da mobilidade humana, a exemplo da própria experiência do êxodo e do deserto, do exílio e da diáspora, se cruzam e se entrelaçam nos rostos, nomes, histórias, horizontes e sonhos dos migrantes, prófugos e refugiados. Mas vamos por partes.

1. Monoteísmo e lembra-te

Monoteísmo tem a ver com a adoração de um único Deus, criador e Senhor dos céus e da terra e de todas as pessoas e coisas, associada à negação de qualquer outro Deus. Javé, de fato, reclamava com vigoroso ciúme o culto exclusivo. Podiam conviver vários deuses, mas era Javé o mais potente e valoroso entre todos. Emerge aqui uma aparente, e até estridente, contradição: como falar nos tempos atuais de “culto exclusivo” frente a uma realidade onde se verifica uma crescente exigência de abertura ao migrante, o qual, por seu turno, carrega sobre os ombros distintas experiências culturais e religiosas? Numa palavra, como conciliar o monoteísmo restrito e moralista do antigo Israel com o pluralismo religioso que costuma caracterizar a população migrante? Concretamente, como resolver tal desencontro?

Frente a isso, faz-se necessária de imediato uma distinção onde, de alguma forma, se desfaz a aparente contradição. A verdade é que o monoteísmo do Antigo Testamento se contrapõe à existência e ao domínio de outros deuses, particularmente ligados à trajetória dos povos e impérios vizinhos. Mas não impede nem invalida outras experiências e expressões religiosas que convergem para a adoração e o senhorio do mesmo Deus. Observação tanto mais oportuna quando está em jogo, por exemplo, a trilogia das chamadas religiões do livro: ebraísmo, cristianismo e islamismo. Nos três casos, se trata do mesmo Deus que “viu a miséria do seu povo escravo no Egito, ouviu o seu clamor, conhece o seu sofrimento e desceu para libertá-lo” (Ex 3,7-10) – uma vez que os três caminhos se originam na mesma “experiência religiosa fundante”.

Detenhamo-nos por alguns instantes sobre este aspecto: são três riachos de uma única fonte e que, por outro lado, correm para o mesmo oceano da misericórdia divina. Como conhecido e notório, Abraão, juntamente com outros patriarcas e os povos nômades do deserto, tornou-se uma espécie de referência comum. Retornando ao tema da misericórdia, tanto a partir do trecho já citado do Livro do Êxodo (Ex 3,7-10) quanto a partir do chamado “credo histórico” do Povo de Israel, no Livro do Deuteronômio (Dt 26,5-10), esse sentimento da misericórdia se revela de uma forma não apenas terna e compassiva, mas extremamente bela e plasticamente poética.

Convém ter presente, e jamais deixar de sublinhar, que tais verbos colocados na boca do Senhor, todos na primeira pessoa do singular e voltados à condições do povo oprimido, manifestam um Deus marcadamente atento, sensível e solidário à condição do povo escravo e oprimido sob o peso da tirania, seja ela socioeconômica, político-cultural, ideológica ou religiosa – no caso uma teocracia, à imitação do que ocorria nos impérios vizinhos. Todos os que têm a vida e a dignidade humana ameaçadas podem ver nessas expressões – vi, ouvi, conheço e desci – o coração mesmo da misericórdia do Pai. Pai que, nao obstante amar a todos os filhos e filhas, mantém uma atenção especial pelos pobres e excluídos, débeis e indefesos, os mais abandonados e últimos, como diria o Papa Francisco. Vale lembrar, ainda, que os termos “clemente e misericordioso” constituem a chave de abertura de cada uma das suras do Alcorão.

Com efeito, é em nome de Javé que os profetas se levantam para recordar os “prodígios e portentos” de Javé aos antepassados, por um lado, e para prevenir contra novos tipos de humilhação e opressão, por outro. Lembra-te que foste escravo na terra do Egito, e por isso mesmo não deves repetir essa nefasta experiência que atenta contra os desígnios do Senhor e contra a dignidade humana. Não deves reteti-la, em primeiro lugar, com os teus conterrâneos, submetidos a diversas formas de exploração, com destaque para o período da monarquia. E é justamente em tal contexto que nasce igualmente a preocupação com os estrangeiros que vivem em meio ao povo de Israel. Ou seja, tampouco deves repetir os danos e consequências dessa experiência de escravidão com o forasteiro que habita junto a teu povo. “Não explore o imigrante nem o oprima, porque vocês foram imigrantes no Egito” (Ex 22,21).

Semelhante memória profética voltada a um passado de tirania e opressão e, ao mesmo tempo, a um presente e futuro mais promissor, de convivência pacífica e de construção conjunta, ocorre hoje em dia com os milhares e milhões de migrantes, prófugos e refugiados, tanto em relação às origens quanto em relação às promessas do amanhã? Disso resulta a necessidade de um salto qualitativo, no sentido de empenhar-se pela passagem do multiculturalismo ao interculturalismo, mas também deste último ao transculturalismo. Em outras palavras, não se trata apenas de boa coexistência entre distintas culturas; tampouco de trata somente de escuta e mútua compreensão. Tudo isso permanece relevante e necessário.

Mas é preciso avançar, dar um passo adiante: além da convivência e da troca recíproca de saberes, como chegar a uma constelação de valores que sirvam para todos os povos, nações e culturas, justamente porque as ultrapassam a todos e todas? Entendemos valores transculturais, não no sentido de que se encontram fora, acima ou para além da história, e sim no sentido de que se revelam válidas independentemente desta ou daquela expressão cultural precisa e determinada. No contexto cada vez mais imenso de migrações de massa, o pluralismo cultural e religioso em que vivemos e nos movemos convida a romper barreiras, efetuar experiências de aproximação, criar espaços de encontro, confronto e diálogo. Construir “pontes em lugar de muros”, repete com insistência o Pontífice.

Ato na Praça da Sé para o lançamento da Lançamento da campanha mundial “Compartilhe a Viagem”.
Crédito: Miguel Ahumada – set.2017

Valeria aqui uma pausa para refletir mais detidamente sobre a proliferação de Casas e Centros de Acolhida e Orientação aos imigrantes, de paróquias multiculturais ou pluriétnicas, de pontos de convívio com o “outro, estrangeiro e diferente”… Refletir também sobre as centenas e milhares de iniciativas para ampliar os espaços de encontro, confronto e diálogo profundo de culturas e saberes distintos… E refletir, ainda, sobre a matemática do próprio encontro: neste, de fato, mais do que a soma das experiências vividas, o resultado é o acúmulo fértil e fecundo, uma espécie de progressão geométrica do próprio saber da humanidade como um todo. Experiências e saberes distintos abrem horizontes novos, desafiadores e inéditos. Não melhores nem piores – apenas diferentes! Trata-se, ao mesmo tempo, de um risco e de um desafio. Vale a penas correr o risco, enfrentar o desafio, para contemplar a “Jerusalém recriada” (Is 65,17-25).

2. Moralismo e denúncia

Moralismo e denúncia caminham de mãos dadas. De fato, é em nome de uma série de princípios morais e éticos que costumam erguer-se as denúncias contra determinadas situações, realidades ou formulações de ordem social, econômica, política, cultural ou religiosa. Não é diferente o caso do movimento profético do Antigo Testamento, como também não é diferente a situação de penúria precariedade e desolação da realidade migratória. Desde Isaías até Malaquias, passando por Jeremias, Ezequiel, Oséias, Amós, Sofonias, e outros, os exemplos poderam multiplicar-se à exaustão. Limitar-nos-emos a dois exemplos, os quais, se não representam os mais significativos de toda a constelação bíblica, ao menos têm a vantagem de contribuir para o desenvolvimento do tema em questão. A partir deles, trataremos de fazer algumas observações referentes à temática da mobilidade humana no contexto atual.

Comecemos pelo profeta Miquéias. E vamos diretamente ao capítulo terceiro. Diz literalmente o texto: “Escutem bem, chefes de Jacó, governantes da casa de Israel! Por acaso, não é obrigação de vocês conhecer o direito? Inimigos do bem e amantes do mal, vocês esfolam o povo e descarnam os seus ossos; vocês são gente que devora a carne do meu povo e o esfola; quebra seus ossos e o faz em pedaços, como carne na panela, como um cozido no caldeirão. Depois vocês gritam a Javé, mas Ele não responderá. Nesses tempo, Ele escondera a sua face, por causa da maldade que vocês praticam” (Mq 3, 1-4). Como se vê, o dedo em riste do profeta tem em mira os poderosos que governam nao em nome do povo, mas explorando de forma fraudulenta suas forças e potencialidades, irrigando seus caminhos de suor, lágrimas e sangue. Não necessitamos de muito jogo de imaginação nem de muitas pesquisas para tomar emprestadas as expressões “vocês esfolam o povo e descarnam seus ossos”, “como carne de panela” – e aplicá-las à realidade concreta de tantos migrantes, refugiados, prófugos, trabalhadores temporários, marinheiros, itinerantes, população nômades, e assim por diante.

Igualmente profética e veemente é a expressão do camponês Amós, em linha com o texto acima: “Escutem aqui, exploradores do necessitado, opressores dos pobres do país. Vocês ficam maquinando: ‘quando vai passar a festa da lua nova, para podermos pôr à venda o nosso tripo? Quando vai passar o sábado, para abrirmos o armazém, para diminuir as medidas, aumentar o peso e viciar a balança, para comprar os fracos por dinheiro, o necessitado por um par de sandálias, e vender o refugo do trigo’?” (Am 8,4-6). Homens críticos, tenazes, destemidos – homens de Deus e defensores dos pobres. A denúncia, como se pode constatar, põe em evidência o contraste estridente entre o projeto de Deus, de um lado, e o status quo do desequilíbrio socioeconômico, mantido a todo custo pelos poderosos e tiranos do momento.

Disso resulta que as classes que detêm o poder, a renda e a riqueza deixam-se guiar por suas próprias paixões, desejos, instintos e interesses. Longe deles as exigências imperativas ligadas à Palavra de Deus. Além disso, usam de sua posição privilegiada para exercer influência, controlar os grupos rivais e aniquilar os pobres e indefesos até o desespero. Não é o que fazem o governantes dos países de origem de tantos imigrantes, abandonando-os à própria sorte, mantendo-nos acorrentados à pobreza, à miséria e à fome – forçando-os cedo ou tarde a deixar a terra natal, numa aventura incerta pelo deserto, pela fronteira, pelo mar ou pelo ar? Isso quando não são obrigados a escapar da intolerância e da guerra, da perseguição e da violência, sem qualquer possibilidade de retorno, consistindo este último uma verdadeira condenação à morte!

Não é o que fazem também os traficantes de seres humanos (“mercadores de carne humana”, para usar as célebres palavras de Scalabrini), vinculados ao crime organizado em nível internacional, os quais consomem até o último centavo os pertences desses infelizes, para depois abandoná-los e muitas vezes atirá-los à solidão e ao desespero, quando não ao desaparecimento puro e simples? E não é o que fazem, ainda, as autoridades dos países de destino, fomentando o preconceito e a discriminação, a xenofobia e o rechaço, tantas vezes jogando a imprensa e a opinião pública contra os imigrantes? Que resta? Um imenso exército de desterrados, deserdados, errantes, mutilados no corpo, na mente e na alma! Do ponto de vista da sociedade em geral e das organizações civis, para voltar às palavras proféticas e inspiradas do Papa Francisco, prevalece a “cultura da indiferença, em lugar da cultura da solidariedade”.

A ética como critério do bem comum deu lugar a uma ordem mundial centrada nos interesses privados, especialmente controlados pelos conglomerados do capital financeiro, das grandes industrias, das gigantescas redes de comércio, do poder das telecomunicações e até da concorrência desleal e frenética pela produção de roupas, carne, outros alimentos e bens em geral. Os próprios serviços públicos de saúde, educação, transporte, segurança, etc. acabam sendo geridos pela mesma lógica férrea do capital. Daí a obrigação moral da denúncia, seja esta no cotexto da monarquia do Antigo Israel, seja na economia globalizada de nossos dias. Em ambos os casos, os pobres ser os mais penalizados, e entre estes os que desconhecem outra alternativa além de desenraizar-se do solo que os viu nascer, e onde enterraram seus ancestrais, para fazer do mundo a sua pátria.

Ilustração na Casa do Migrante, em São Paulo, que ilustra bem o ato de migrar.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

3. Esperança da salvação e anúncio

O Povo de Israel caminha entre a queda e a promessa da Terra Prometida e de uma descendência numerosa. Estimula-o a aliança feita entre o Senhor Javé e os patriarcas Segue pelas estradas do êxodo, do deserto, do exílio e da diáspora em uma perspectiva escatológica de salvação. A exemplo dos povos vizinhos, debate-se continuamente pela conquista e posse da terra. Diferentemente deles, porém, a arca da aliança serve de orientação para seus passos tortuosos e duvidosos. Avança no escuro na noite e nos embates do cotidiano, mas, como se verá no caso dos reis magos, guiado pela luz da fé representada pela estrela.

Pesa-lhe sobre os ombros todas as implicações de um povo a caminho, um povo migrante. Em semelhante contexto de idas e vindas, de fracassos e vitórias, levanta-se a voz dos profetas. Como já tivemos ocasião de ver, são mensageiros do Deus único e verdadeiro, defensores dos pobres e oprimidos. Representam também a memória da aliança, apontado com inusitado vigor o contraste entre as vissicitudes e desvios do povo, de uma parte, e os desígnios de Deus, de outra. Alarga-se aqui o leque de profecias veterotestamentárias, mas não podemos deter-nos sobre um estudo aprofundado do tema. Falta-nos espaço e competência para um percurso dessa grandeza.

Na contigência de fazer uma escolha, tomamos em mãos o capítulo 37 do profeta Ezequiel, versículos de 1 a 14. Trata-se do episódio do “vale de ossos”. O profeta, com efeito, é conduzido pelo “espírito de Javé a um vale de osssos” (v. 1). E Javé faz questão de precisar: “esses ossos são toda a casa de Israel. Os israelitas andavam dizendo: ‘nossos ossos estão secos e nossa esperança se foi. Para nós tudo acabou’” (v. 11). Basta um voo de pássaro sobre os países destruídos e devastados pela guerra e a violência, a pobreza, a fome e a falta de oportunidade. Que vemos? Cinzas, ruínas, escombros – para nao falar de cadáveres e ossos, ocultos ou expostos. Em consequência disso, a multidão simultaneamente em fuga e em busca. Multidão de números e estatísticas, sem dúvida, mas sobretudo de nomes, rostos, famílias, com grande quantidade de mulheres e crianças. Ao final de 2015, por exemplo, a ACNUR estimava em mais de 65 milhões a quantidade de refugiados espalhado por todo o mundo. Quanto ao número dos que residem fora do país em que nasceram, deve andar por volta de 250 milhões de seres humanos, uma vez mais, com crescente aumento de mulheres e crianças desacompanhadas.

Mas o episódio do “vale de ossos” narrado pelo profeta Ezequiel, apesar de apresentar uma imagem um tanto quanto macabra, transpira uma tonalidade de forte esperança. Aponta para o horizonte da promessa e sublinha a força oculta para além dessa visão de morte, e mesmo a possibilidade de uma nova vida. “Então Javé me disse: ‘criatura humana, será que esses ossos poderão reviver?’” (v. 3). Mas tal oxigênio de esperança está subordinado a uma dupla condição: ao poder da palavra e à ação do profeta. Diz-lhe o Senhor em continuidade: “Profetize, dizendo: ossos secos ouçam a palavra de Javé! Assim diz o Senhor Javé a esses ossos: vou infundir um espírito e vocês viverão” (v. 4 e 5).

Qual mensageiro fiel e atento, Ezequiel assim o fez: “Profetizei conforme ele havia mandado. E espírito penetrou neles e reviveram, colocando-se de pé. Era um exército imenso” (v. 10). No confronto com o contexto atual dos deslocamentos humanos de massa – “exército de reserva”, na expressão de Marx – o volume dos deserdados da terra cresce a cada dia. Cresce paralelamente o número de seus cadáveres, às vezes em plena flor da infância ou adolescência, não poucos para sempre desaparecidos nas águas bravias do oceano ou nas areias do deserto. Também este exército é tão imenso quanto aquele do episódio bíblico. E também ele, apesar dos olhos apagados, dos ossos quebrantados e da alma ressequida, poderá reviver sob dupla condição: a fé na palavra e na presença de Deus, de uma parte, e a solidariedade traduzida em gestos concretos para com as vítimas da história, por outra.

Semelhantes gestos concretos espalham-se hoje simultaneamente em múltiplas nações e em múltiplas ações. De fato, não obstante a atitude de intolerância e rechaço por parte de muitos grupos intransigentes, são incontáveis as iniciativas de acolhida, de suporte à documentação, de assistência social, jurídica e psicológica. Proliferam igualmente os esforços de sensibilização cada vez mais fortes e convincentes, os quais envolvem diversas Igrejas, setores do podere público, partidos, associações, entidades e movimentos, bem como uma série de organizações não governamentais. Daí a multiplicação de reuniões, encontros, seminários, cursos, fóruns – na tentativa de manter a tema das migrações na ordem do dia e na agenda das instâncias decisórias. Daí ainda, a disponibilidade de espaços físicos e virtuais onde os migrantes possam encontrar-se por etnia e cultura, intercambiar experiências, efetuando dessa maneira uma inserção menos traumática nas sociedades de destino.

Nessa perspectiva, não será exagero afirmar que a parte do capítulo do Livro de Ezequiel que estamos seguindo vislumbra no horizonte o anúncio e a esperança da salvação. Diz textualmente o final do trecho escolhido: “Assim diz o Senhor Javé: ‘vou abrir seus túmulos, povo meu, e vou levá -los para a terra de Israel. Povo meu, vocês ficarão sabendo que eu sou Javé, quando eu abrir seus túmulos, e de seus túmulos eu tirar vocês. Colocarei em vocês o meu espírito, e vocês reviverão. Eu os colocarei em sua própria terra, e vocês ficarão sabendo que eu, Javé, digo e faço – oráculo do Senhor’” (v. 12-14).

Exatamente a partir do “vale de ossos” e dos “túmulos” – imagens de desespero e morte – vem anunciada a realização da promessa: “terra onde corre leite e mel”, vida nova, expectativa de salvação. O mesmo enfoque positivo irá acompanhar, por exemplo, a visão de J. B. Scalabrini – pai e apóstolo dos migrantes – quanto ao tema da mobilidade humana. O bispo de Piacenza via nas migrações a mão invisível de Deus, o qual, da mesma forma que as aves e o vento transportam os germes de vida nova, através de tais movimentos migratórios fecunda povos e culturas de valores sempre novos. Apesar de tantos dramas e infortúnios, os deslocamentos humanos fazem nascer novas civilizações. “A migração amplia o conceito de pátria, dando ao homem o mundo como casa”, dizia o prelado. E mais: “para o migrante, a pátria é a terra que lhe dá o pão”.

A Bíblia cristã tem ensinamentos sobre o tratamento a ser dado a imigrantes e refugiados que cabem em qualquer crença.
Crédito: Márcia Passoni

Conclusão

O mesmo se pode dizer do Documento Final da V Conferência Episcopal da América Latina e Caribe – chamado Documento de Aparecida, bem como das mensagens do Papa para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado e, ainda, de uma série de documentos publicados pela Igreja ao longo dos séculos. Sem deixar de mergulhar os pés no chão úmido e escuro de suor, lágrimas e sangue, versados por milhões de migrantes, a Doutrina Social da Igreja alerta para as sementes e potencialidades escondidas nesses movimentos, onde a crise da mudança costuma ser ao mesmo tempo dolorosa e fecunda. Neste campo, o migrante jamais aparece somente como vítima de uma ordem mundial injustiça, desigual e perversa. Ele é também sujeito e protagonista da sua história, da história de seu povo e da história da própria humanidade. O ato de pôr-se a caminho, por si só, e de fazê-lo em massa, faz marchar os rumos da trajetória humana sobre a face do planeta. E não é só isso! Além de protagonista, o migrante pode ser profeta de novos tempos e da nova evangelização. Ao mesmo tempo que denuncia as condições precárias do país ou região em que nasceu, incapaz de o manter e à sua família como cidadãos dignos de respeito, anuncia a necessidades de mudanças profundas, seja nos relacionamentos internacionais, seja na política econômica globalizada, simultaneamente concentracionista e excludente.

Migrar não deixa de ser uma forma de protestar. Pode-se efetivamente resistir no solo pátrio, apesar de todas as adversidades. Mas pode-se igualmente ir ao encontro de alternativas. Em uma série de casos, a fuga se converte em uma nova busca. Se, na hora sa saída, a pobreza e/ou a violência, pressionam pela fuga, na hora da chegada ao novo destino, potencialidades novas tendem a desencadear um processo de busca, pleno de iniciativa e criatividade. No percurso da humanidade sobre o solo terrestre, não poucas vezes a contribuição dos imigrantes tornou-se decisiva para a construção de uma nova nação ou povo.

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