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quarta-feira, abril 17, 2024

Migração vira preocupação principal de eleitores nos EUA e motiva rechaços de Biden e Trump

Enquanto Biden é questionado por sua política sobre a migração nos EUA, considerada parecida com a de Trump, o republicano defende medidas ainda mais duras

Por Thales Figueiredo
Com colaboração de Rodrigo Borges Delfim

A questão migratória é alvo de debates constantes nos Estados Unidos, que ficam ainda mais amplos e acirrados a cada processo eleitoral. Uma tendência que se aprofundou nos últimos pleitos, aliás, e que deve ser ainda maior neste ano.

Essa polarização ficou bem evidente e ganhou números atualizados a partir de pesquisas recentes no país. Segundo uma delas, realizada pelo Instituto Gallup em fevereiro, a migração foi citada por 28% dos entrevistados como a principal preocupação da população dos Estados Unidos, superando o governo (20%) e a economia (12%). Em janeiro, a migração foi citada por 20% dos entrevistados e aparecia como a segunda maior preocupação.

Biden tem sido criticado pela condução da questão migratória ao longo de seu governo, iniciado em 2021. Na campanha eleitoral, prometeu uma abordagem mais humana da questão, em contraposição ao antecessor, Donald Trump. Na prática, tal discurso não se cumpriu e a política migratória acabou criticada tanto por democratas quanto por republicanos. Enquanto partidários de Biden o acusam de dar continuidade às medidas adotadas por Trump, os correligionários do ex-presidente exigem medidas ainda mais duras do que as atualmente em vigor.

Além disso, a quantidade de pessoas atravessando a fronteira com o México disparou: segundo dados oficiais, foram mais de 2 milhões de cruzamentos por ano desde 2021.

Outro levantamento, feito pela rede NBC em janeiro, apontou que 57% dos entrevistados acreditam que o ex-presidente Donald Trump, favorito dentro do Partido Republicano para disputar a Casa Branca, é mais capaz de lidar com a questão migratória do que o democrata Joe Biden, atualmente no poder e que tentará a reeleição.

Visitas à fronteira sul

De olho nesses dados, os dois principais candidatos à presidência dos Estados Unidos visitaram a fronteira sul do país no final do mês passado. Biden visitou Brownsville, uma cidade de cerca de 180 mil habitantes no Golfo do México, no extremo leste da fronteira, e se reuniu com agentes que fazem a segurança da região.

Como forma de lidar com a migração indocumentada, o democrata cobrou do Congresso dos Estados Unidos a aprovação de um pacote legislativo que daria a ele o poder de fechar temporariamente a fronteira. A medida, no entanto, tem sido bloqueada sobretudo pelos republicanos, de olho na corrida eleitoral e em Trump.

Já o republicano esteve em Eagle Pass. Ele chamou a atual situação na fronteira de “invasão de Biden”, e disse que os imigrantes que chegam à fronteira são homens “em idade de combate” e que a situação “é como uma guerra”.

Em dezembro do ano passado, o ex-presidente havia dito que imigrantes “envenenam o sangue da nação”. Em janeiro, chamou-os de terroristas, voltou a dizer que fecharia a fronteira e afirmou que “temos que ter um nível de deportação que a gente não vê há um bom tempo nesse país”.

Dias antes, Trump já tinha dito que imigrantes estão “matando pessoas e matando o nosso país”, e prometeu o maior número de deportações da história.

Nova York e Texas como exemplos da polarização

Além das visitas de Biden e Trump à fronteira sul, outros episódios recentes são didáticos para exemplificar o peso que a questão migratória – e a defesa de mais restrições por ambos os lados na disputa – vem ganhando no atual processo eleitoral.

No último dia 13 de fevereiro, os eleitores do estado de Nova York foram às urnas para a eleição especial. Os eleitores escolheram um novo representante para cumprir o mandato até 2025 no lugar do republicano George Santos, que foi cassado em dezembro. O candidato democrata, Tom Suozzi, derrotou a republicana Mazi Pilip, na corrida pelo 3º distrito de Nova Iorque e retomou a cadeira que havia perdido para Santos em 2022.

A disputa era importante para fortalecer a situação governista na Câmara, que atualmente conta com maioria republicana, e também para apoiar a campanha de reeleição de Joe Biden, retomando uma cadeira em um estado tradicionalmente democrata. Entretanto, o impacto na opinião pública dos crescentes desafios enfrentados na cidade, especialmente com a questão migratória, deixou a situação mais complicada.

O tema ganhou importância junto à população do estado. O aumento do fluxo de imigrantes na cidade de Nova York que levou o prefeito, o democrata Eric Adams, a declarar estado de emergência por conta da saturação dos abrigos da cidade. Além disso, o prefeito afirmou que a migração pode levar à destruição da cidade.

O governante solicitou ajuda aos governos estadual e federal. Apesar do recente compromisso do governo estadual de mais de US$ 2 bilhões, o chefe do executivo local julga a quantia insuficiente e lamenta a falta de apoio de Washington.

A disputa também alimenta a rivalidade partidária. Nesse sentido, o Texas, estado na fronteira com o México e governado pelo Partido Republicano, tem custeado ônibus para os migrantes que atravessam a fronteira irem para Nova York. Entre agosto de 2022 e janeiro deste ano, mais de 37 mil migrantes foram enviados, conforme dados do Estado do Texas. Em sua conta no X (antigo Twitter), o governador Greg Abbott prometeu continuar com a política “até que Biden mude de rumo em suas políticas de fronteira aberta”.

Embora o Texas não seja o único estado a enviar imigrantes para Nova York, e que mesmo esses sejam apenas por uma pequena parte dos imigrantes que chegam à cidade, o tema foi central nesta campanha.

Os candidatos chegaram a disputar os holofotes em frente a abrigo para receber imigrantes na região. A republicana Pilip buscou associar o seu oponente democrata a uma política de fronteiras abertas. Já o democrata Suozzi tentou se distanciar da posição democrata sobre esse tema, chegando a pedir o fechamento das fronteiras e a deportação de imigrantes que cometeram crimes em Times Square.

Longe de ser uma política de fronteiras abertas, a fronteira entre os Estados Unidos e o México é considerada pela OIM como a passagem migratória terrestre mais perigosa do mundo. A situação socioeconômica da América Latina, em especial, da Venezuela, origem de muitos que chegam a Nova York, continua contribuindo enormemente com o fluxo.

Contudo, ao ser apropriado pelo debate político, esses grupos tornam-se ainda mais vulneráveis à manipulação para fins de propaganda política.

Embora demonizada por políticos, a migração é reconhecida como um importante motor econômico e social. Um levantamento da Comissão de Orçamento do Congresso dos Estados Unidos indica que imigrantes indocumentaos vão gerar 1,7 milhão de empregos apenas neste ano no país e garantir mais 7 trilhões de dólares no PIB em dez anos.

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