Migração vira tema do Enem e gera controvérsia

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O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano pegou estudantes e professores de surpresa ao colocar Movimento Imigratório para o Brasil no Século XXI como tema da redação. A prova trazia como texto de apoio aos candidatos um excerto tirado do site do Museu de Imigração, explicando o contexto dos movimentos imigratórios para o país, e dois textos sobre a imigração de bolivianos e de haitianos em direção ao Brasil.  Havia também um mapa com o trajeto percorrido por haitianos para entrada no Brasil a partir do Acre.

“Temos uma comissão competente que considerou, entre tantas sugestões de tema, este o mais adequado. Ele pressupõe a capacidade de articular informações e refletir sobre o momento que o Brasil está vivendo. O Brasil é um país que teve uma diáspora, mas com a estabilidade, a democracia, hoje atrai povos. Acho que é um tema bastante contemporâneo, desafiador e não previsto”, disse à Agência Brasil o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, ao defender o tema da redação.

A escolha, no entanto, desagradou tanto candidatos quanto estudiosos do tema. Entre os críticos, o principal argumento é que, mesmo se tratando de um tema atual, não há produção didática e paradidática suficiente pra o aluno desenvolver boas redações. “O professor do ensino médio ainda mal dá conta de trabalhar as grandes migrações do século XX quanto mais de formar o aluno para um tema tão recente”, diz Maria Luiza Tucci Carneiro, professora de história da USP e pesquisadora da área, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

Sim, de fato não há material didático ou paradidático suficiente sobre o tema e as deficiências do ensino brasileiro aumentam a dificuldade do sistema em lidar com atualidades. Mas só o fato de estar presente no noticiário impresso, televisivo e online, aliado aos textos de apoio da prova, já permite ao candidato ter ao menos uma noção do assunto que o permita refletir sobre a proposta.

Na verdade, tal controvérsia sobre o tema no Enem pode ser considerada até didática para mostrar o patamar do Brasil perante a ele. Apesar do material já disponível, o debate dentro da sociedade ainda está cru e a legislação vigente é arcaica, mas os efeitos desse movimento migratório são cada vez mais presentes – quem mora nas regiões fronteiriças do país que recebem os haitianos ou já cruzou com bolivianos e outros indivíduos de países latinos ou africanos em São Paulo têm diante de si provas cabais desse fato.

Enfim, felizmente, o debate sobre migração no Brasil chegou para ficar. E resistir à tentação de copiar políticas adotadas na Europa e nos EUA e criar uma diretriz própria e adequada para lidar com as migrações será um desafio tanto para o governo como para a própria sociedade.

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