Migrantes na Catalunha: um sim com esperança, bem brasileira…

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Na Catalunha, manifestação em apoio aos refugiados e migrantes mobilizou pessoas de todas as idades. Crédito: Andrea Dama

Por Flávio Carvalho
Em Barcelona

“É decidindo que se aprende a decidir”.
“O rival mais difícil está na sua cabeça”.
“Se por um lado eu não posso estimular os sonhos possíveis também não posso negar, por outro lado, a quem sonha o direito de sonhar”.
Paulo Freire

Se de uma coisa não tenho dúvidas, porque as estudei bem, é quando comparo todas as políticas públicas para os migrantes na Catalunha (que poderiam – e poderão – ser bem melhores) em comparação com as piores políticas espanholas para os migrantes, aprovadas pela direita do Partido Popular, de Mariano Rajoy: restrição no acesso à saúde pública para imigrantes, prisões disfarçadas de Centros de Internamento, financiamento recortado de políticas sociais e redirecionado para o maior esquema europeu de corrupção de um partido (o PP)… E nem vou falar na miserável quantidade de menos de 10% de acolhida de refugiados que o PP prometeu à União Europeia, depois de forçado pelas guerras que manchavam de sangue as primeiras páginas dos grandes jornais.

Mas, como não se trata de uma brincadeira de bonzinhos contra os maus, de forma maniqueísta, estou disposto a aprofundar, com quem quiser, meus argumentos.

“Mas Flávio, o que acontecerá conosco, com os brasileiros que vivemos aqui na Catalunha, depois do Referendo, se vier a ser proclamada a independência, como já estão dizendo por aí que será vencedor o voto do sim?”

Sinceramente, ninguém sabe ao certo como se construirá esse novo país, essa nova república. É um jogo aberto e eu estou do lado de muita gente que diz que está disposta a jogar para mudar tudo, desde a base, para ganhar. Até mesmo porque nenhum político deve atrever-se a dizer o “como deverá ser”. Aqui não há espaços para salvadores da pátria. O impacto político sobre as vidas de todos os catalães, sobre todos os espanhóis, e me atrevo a dizer sobre todos os europeus, será tão forte que – não se trata de ser irresponsável ou de fugir dessa pergunta – não haverá uma receita pronta, acabada… E o melhor é que isso me agrada muito.

Porque eu sou freireano (de Paulo Freire, o maior pedagogo brasileiro e um dos dez melhores do mundo no Século XX, segundo a UNESCO) e acredito e tenho esperança na humanidade, na capacidade de melhorarmos e de não dar tudo por perdido. Ao contrário, eu tenho uma esperança imensa em tudo isso. Eu sou brasileiro, me compreendes?

Quando aqui cheguei, quando ainda não tinha nacionalidade espanhola, escutei de muita gente conservadora, de direitas, xenófoba, mandar-me calar. Que eu não sabia nada sobre esse país. Que eu só sabia o que era o Brasil. Por outro lado, encontrei acolhida em muita gente que me perguntava opiniões, que dizia querer me escutar, que me chamou para colaborar com uma coisa chamada Pacto Nacional pela Imigração, que me deixou atuar no que aqui se chama de políticas de acolhida, ainda quando eu comecei a atuar como voluntário em defesa dos direitos dos migrantes, brasileiros ou não. O Secretário de Imigração do Governo tem meu telefone, eu tenho o dele (não sou militante do seu partido, mas o respeito muito), já demonstrou estar do lado de muitos brasileiros nas situações mais difíceis a que lhe recorri, ele e todos os servidores públicos que para ele trabalham. Quando ocupamos a Praça Catalunha, naquele 15 de Março de 2011 (para mim, a gênese do Podemos), quando a assembleia geral debatia a abstenção geral como um boicote nas eleições municipais daquele momento, lembro que estava o Senador brasileiro Cristovam Buarque ao meu lado, eu gritei (não havia microfone naquela assembleia): eu quero poder votar, que por enquanto eu não posso, por não ter nacionalidade espanhola. Eu queria o meu direito de votar, até pra estar em condições de igualdade com aqueles manifestantes catalães que estavam propondo exercer o direito de se abster. Antes de tudo eu queria o meu direito de votar, até mesmo para decidir não votar (para me abster, tal como a assembleia acabou aprovando). Notei algumas caras de espanto e naquele dia me aproximei de uns jovens que diziam estar começando um novo movimento. Eu perguntei qual era e eles disseram: ainda não sabemos. E eu gostei.

Seria eu agora a não exercer meu direito depois de tudo que eu passei para consegui-lo?

Dos piores dias de minha vida política aqui na Catalunha foi quando eu trabalhava varrendo a rua, na prefeitura do meu pequeno pueblo, contratado como “serviços gerais” (gari, coveiro, desentupidor de esgotos…), recebendo um salário menor do que a média normal espanhola. Fui encarregado de montar e limpar toda a seção eleitoral. Montei urnas, organizei cédulas, servi todo o café, recebi 18 Euros de hora-extra (por trabalhar num domingo) e fiquei todo o dia trabalhando para que todos votassem… Tudo isso enquanto eu não podia votar. Agora quem vai me dizer para abrir mão do meu direito, depois daquele dia de sofrimento?

Lutarei como já estou fazendo, pacificamente, todo o possível para defender o direito ao voto. O meu, ameaçado. E, principalmente, o daqueles que ainda não podem votar (mas que eu conheço todas as propostas políticas – todas! – que abrem essa possibilidade, entre outros direitos). Votarei, neste 1º de Outubro, para exercer meu direito. Votarei que sim à independência da Catalunha, para abrir as possibilidades que eu defendo e para que as coisas não continuem como estão e não me agradam. Não me satisfazem. E eu não aceito me calar para me conformar com o pouco que eu tenho, por mais que haja pessoas em situação pior que eu. Eu não nivelarei os direitos por baixo.

Não sei até que ponto as coisas mudarão. Só tenho duas certezas. Que algo mudará e que nunca mais seremos os mesmos. E sei o que não quero: continuar como agora está. A partir daí, minha decisão parece fácil (se bem que não foi nada fácil). Quem estiver satisfeito que aposte pelo continuísmo. Há 1% de gente contente, os mais ricos principalmente. Eu, e a maioria dos brasileiros que aqui vivemos, não fazemos parte desse reduzidíssimo contingente.

E não descansarei depois disso, pois o 1 de Outubro é pra mim um bom começo. Importantíssimo passo de uma longa caminhada que vem de muito antes de eu saber que a Catalunha existia. Mas que agora eu me sinto plenamente fazendo parte dela. E isso é bom. Pra quem gosta de trabalhar por isso, temos todo um país para (re)construir.

Ingênuo, eu?! Seremos a maior fraude da história, milhões de pessoas nas ruas enganadas por um par de políticos corruptos que utilizam o processo independentista pra tapar suas vergonhas? Já me fiz mil vezes essa pergunta. E se a resposta fosse que sim eu já haveria abandonado essa causa desde quando dela eu tive notícia pela primeira vez. Eu somente digo que não tenho medo do futuro e que a única coisa que eu não quero é que tudo continue do jeito que está: se não votarmos (a não ser que nos impeçam pela força, o que muda completamente a história) ou se ganha o Não à Independência, então sim, eu tenho certeza que os partidos hoje mais racistas, mais xenófobos, os nazi-fascistas da Espanha, estes triunfarão. Da mesma forma que estão avançando por toda a velha Europa. Aí sim eu não quero escutar arrependimentos. Então eu quero ver a cara de vocês que me disseram que não estão nem aí para o que pode acontecer.

Como eu não quero que isso aconteça, estou aqui escrevendo, principalmente pra ajudar-te a superar os teus medos. Porque eu também já os tive. E quero que desfrutes comigo dessa maravilha que é já não mais tê-los.

Viva o republicanismo. Viva o povo brasileiro, onde quer que ele esteja.

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