Migrantes nordestinos continuam a transformar cidades e a protagonizar sonhos e desilusões

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Monumento ao Migrante Nordestino, no Largo da Concórdia, em São Paulo - uma homenagem à contribuição nordestina para a capital paulista. Crédito: Artenalata/Wikimedia Commons

Brasileiros também deslocam-se internamente, impulsionados pelas condições socioeconômicas e atrás de sonhos e melhores condições de vida

Por Amanda Louise
Em São Paulo (SP)

Fazia sol naquele 27 de julho de 1971. O calor castigava quem se atrevia a caminhar na estrada de terra, obrigando os transeuntes a procurar abrigo nas sombras de algumas árvores que surgiam na encosta; na tentativa de amenizar a quentura do corpo. Com apenas uma sacola na mão, onde levava apenas roupas leves e a certidão de nascimento, Maria Francisca de Jesus, então com 23 anos, decidiu percorrer a pé, com alguns parentes, os 536 quentes quilômetros que ligavam Ibitiara, município no interior da Bahia, até a rodoviária da capital, Salvador. Saíram antes do sol nascer, e chegaram perto do fim do dia.

No trajeto, a tristeza por quem deixou para trás e a esperança da nova vida no sudeste do país. A passagem na mão de Maria Francisca indicava um dos principais destinos para o qual milhões de nordestinos se deslocariam, desde antes daquela década, até os dias de hoje: São Paulo.

Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo, ponto de chegada e de partida de viajantes – sejam eles turistas ou migrantes.
Crédito: Wikimedia Commons

Dona Maria, hoje no auge dos seus 70 anos, lembra com orgulho sua trajetória ao longo dos 47 anos morando na capital paulista. Dos cinco dias dentro de um ônibus velho, rumo a São Paulo, à compra da casa própria, no Parque Peruche, zona norte da cidade.

Durante os anos, desde a sua chegada, Maria Francisca trabalhou em “casas de família”. Em uma delas, a que considera ser integrante do grupo familiar – não só por se sentir acolhida, como pelo tempo dedicado à função -, a baiana pôde vivenciar toda a dinâmica cultural que é viver na terra da garoa, ao trabalhar em uma residência de imigrantes da Itália, que se estabeleceram no Brasil para fugir da Segunda Guerra Mundial. Ela cuidava da limpeza e da alimentação dos italianos, aprendendo a fazer as tradicionais massas do país europeu, e ensinando o arroz com feijão e outras comidas típicas da Bahia.

Os nordestinos que migravam – e ainda migram – para São Paulo o fizeram
– e o fazem – pela busca por melhores condições de vida, “conhecer a cidade grande”, tentar ajudar financeiramente a família que permaneceu no estado de origem, ou mesmo para ir de encontro a companheiros e parentes que foram se estabelecendo na metrópole.

Elas acontecem desde antes do século XX e, assim como outras “modalidades migratórias”, “está diretamente relacionada com os ciclos econômicos e com as redes relacionais fundadas na origem e no destino ou até mesmo na circularidade dos “territórios migratórios”, as motivações e causas serão derivadas dessas condições econômicas e sociais”, explica a Doutora em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Lidiane Maria Maciel.

Embora seja muito associado à migração internacional, o Museu da Imigração de São Paulo foi usado principalmente pelos migrantes nordestinos ao longo de seus 91 anos de funcionamento (1887-1978). Eles foram a maioria dos 2,5 milhões de pessoas que passaram pela antiga Hospedaria, especialmente baianos, alagoanos, pernambucanos e cearenses. Segundo informações do próprio Museu, os trabalhos de acolhimento e encaminhamento de nordestinos realizados a partir dos anos 1930, correspondendo a 90% da Hospedagem, evidenciam essa contribuição nordestina para a capital paulista.

No auditório do Museu da Imigração de São Paulo, participantes do presente são “espiados” pelos antigos acolhidos pela Hospedaria do Brás – a maior parte deles, migrantes internos. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo – mar.2015

Esse momento, já na segunda metade do século XX, seria retratado pela ótica de grandes nomes da literatura brasileira, na música, cinema e arte em geral, abordando as condições dos migrantes vindos nos paus-de-arara e morando em locais precários nos centros e periferias do Rio de Janeiro e São Paulo.

No início da urbanização, em São Paulo, essa população migrante se firmava em empregos domésticos, “em postos na construção civil e indústria”, estendendo-se “nos dias de hoje ao comércio e setor de serviços”, define Lidiane Maciel.

Francisco Alberto de Jesus Silva, hoje com 53 anos, estava sem emprego quando decidiu pegar um ônibus em Teresina, capital do Piauí, com destino a São Paulo em meados dos anos 90. A mãe e alguns irmãos já estavam pela cidade, esperando o filho mais velho da família chegar sozinho da viagem. Sua primeira ocupação – não registrada – foi na “Distribuidora Logística”, na Água Branca, zona oeste de São Paulo, descarregando sacos de arroz dos trens para um armazém. “Emprego sempre foi fácil para quem tem coragem de enfrentar qualquer trabalho”, declara. Nos anos seguintes, atuou na área de vendas em algumas lojas de móveis. Sem pensar em voltar para o Piauí, só espera que os quatros filhos sejam independentes e realizados profissionalmente.

Francisco Alberto, cinco anos após chegar em São Paulo, com os dois filhos mais velhos.
Crédito: arquivo pessoal

Como Francisco Alberto, eram os homens que se aventuravam sozinhos nas viagens; as mulheres só migravam desacompanhadas quando já possuíam alguma atividade pré-definida no local de destino ou se houvesse alguém que as aguardassem, o que não mudou com o passar dos anos.

Em 2004, Danielle Gadelha Baima do Lago, arrumou as malas para deixar o Ceará, quando tinha 24 anos, para encontrar o atual marido, que cursava a faculdade de direito em São Paulo. Ela conta que, antes da viagem para o sudeste, morou no Maranhão por alguns anos com a mãe. Já na capital paulista, de início, residiu na casa dos sogros e, hoje, possui um apartamento que pôs à venda. Depois de 14 anos morando em São Paulo, há cinco pensa em deixar a cidade e voltar para o estado natal. “Tenho ranço daqui. Uma cidade que te rouba, rouba teu tempo, tua saúde, teu dinheiro, tua paz. Não adianta ter emprego e gastar tudo. O custo de vida é para um rico”, desabafa.

As migrações internas sempre estiveram na pauta do crescimento populacional das cidades brasileiras, como explica Lidiane Maciel. No estado de São Paulo “em 2015, foram cerca de 5,6 milhões, ou seja, 12,66% da população do estado, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE” e, apesar desses “processos migratórios” serem difíceis de ser mensuradas, Lidiane Maciel afirma que nunca se deslocou tanto no Brasil, “por diversas evidências, até mesmo aquelas vinculada ao aumento de nossa rede rodoviária”. E que, ao longo dos anos, houve a entrada “dos nordestinos no Estado de São Paulo, mas, também, a saída, as migrações de retorno estiveram presentes”.

Esses deslocamentos internos geram impactos tanto para os locais de origem, onde há o “reordenamento do modo de vida, considerando que a população está fora”, quanto para o destino, onde os impactos são inúmeros: “A estrutura econômica local se beneficia da mão de obra, certamente necessária (…), o tecido social também ganha novos elementos culturais e passamos a conviver com maior diversidade de hábitos e costumes, o que nem sempre é fácil no cotidiano, há situações em que verificamos alto grau de violência simbólica e violência física”, clarifica Lidiane Maciel.

Lidiane conta que os migrantes são acusados de todos os problemas sociais nas cidades, como, por exemplo, da superlotação dos postos de saúde e escolas. “Quando na verdade não há estruturação suficiente para lidar com o fenômeno social. A cidadania – no que se refere ao acesso a direitos – é sempre contestada pela população local quando se trata dos migrantes”.  

É pensando no atendimento público de saúde que Ednalva Francisca dos Santos decidiu permanecer em São Paulo, além das filhas – que praticamente cresceram em São Paulo – e da condição financeira. Depois que saiu de Ibiquera, no interior da Bahia, Ednalva Francisca já retornou ao estado natal duas vezes desde 1987. Ela conta que se decepcionou com o que o estado paulista tinha a oferecer: “queria melhorar de vida, ia estudar, ia fazer um monte de coisa que, na verdade, não foi aquilo. Para mim, não passou de uma ilusão (…), foi quase um passo para trás”.

Ednalva com a filha mais velha, já em São Paulo, em meados de 1989.
Crédito: arquivo pessoal

Em 1993, já com duas filhas, achou por bem voltar para que a avó ajudasse a cuidar das netas. Após passar outros anos em São Paulo, de 1996 a 2001, precisou voltar à Bahia para cuidar da mãe adoentada. Agora, faz 11 anos que mora na zona norte da capital. Seu último retorno, em 2007, se deu pensando nas filhas, para que elas tivessem acesso às escolas públicas e bolsas na faculdade: “Aquilo que eu não consegui, eu queria que elas conseguissem”. Ela lembra de toda luta dos anos que se passaram; sozinha, mas sem medo de enfrentar “os perrengues”. Trabalhou como doméstica, balconista de loja farmacêutica, vendedora e ajudante de cozinha, sendo o último emprego numa gráfica. 

Com a saúde debilitada, Ednalva Francisca diz que não teria como voltar: “Se chegasse a me aposentar e melhorasse a saúde, voltaria para lá. Ou mesmo, passar meses entre Bahia e São Paulo”. Até mesmo pelas especialidades médicas em que é atendida no estado de São Paulo que não existem no interior baiano.

Na dificuldade de mapear origem e destino da circulação de migrantes, que tem se intensificado contemporaneamente, Lidiane Maciel expõe que, o que fazem nos estudos migratórios até pouco tempo, é “descrever trajetórias migratórias, traçados possíveis, perfis sociais e questões emergentes do processo”.

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