Migrantes recorrem ao empreendedorismo contra falta de oportunidades

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Pessoas de diferentes nacionalidades investem em suas particularidades culturais em busca de inserção no mercado de trabalho no Brasil   

Por Pâmela Vespoli
Em São Paulo (SP)

No Brasil os imigrantes em situação de refúgio passam por diversas dificuldades para conseguir emprego formal. As dificuldades são diversas e incluem falta de fluência do idioma, barreiras culturais e trâmites burocráticos com documentações. Por isso, para muitos deles, criar seu próprio negócio é a alternativa mais viável.

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Como é o exemplo da imigrante guianense Renee Ross, 46, e seu esposo, cujo a identidade não pode ser revelada por questões políticas. Produtora e dona das bonecas Renabes Artes, Ross não imaginava lucrar com uma atividade de seu lazer. Quando chegou ao Brasil, em 2011, se inscreveu num curso de artesanato e aos poucos adaptou as técnicas a seu gosto. “Eu pensei, quero algo mais da minha cultura. Quero trabalhar com tecidos africanos, com bonecas negras, para me representar”. Percebeu que sua arte poderia ser comercializada e hoje suas vendas são a principal fonte de renda da casa.

Além de acompanhar a administração do negócio, seu marido também leciona aulas particulares de inglês. Saiu, há 9 anos do Congo por causa da guerra, onde deixou familiares, costumes e o resultado de anos de estudo. Falante de cinco idiomas, ele ainda possui o título de mestre e, mesmo com o diploma em mãos, não consegue emprego em sua área. “É difícil um estrangeiro trabalhar aqui como expert. Eu gostaria de fazer a minha profissão, mas como não tem, fico em casa lendo e lendo para manter”, menciona sobre as leituras técnicas de sua formação.

Renee Ross conta que aprendeu a manter sua identidade cultural através de seu trabalho e se sente realizada com o que faz.
Crédito: Divulgação

O marido de Ross faz parte dos 18,7% refugiados que possuem pelo menos o ensino superior completo, de acordo com a pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgada em setembro do ano passado. Enquanto 28,8% têm o Ensino Médio concluído e 19,3% finalizaram o fundamental. Sendo que, apenas 20,7% dos refugiados trabalhavam em seu país de origem no ramo do comércio e das artes, áreas que no Brasil são as alternativas para muitos deles.

É também o caso do jovem sírio Nour Koeder, 27, por quase cinco anos. Apesar de seu diploma de estilista e sua experiência com alta costura, para sobreviver trabalhou como atendente em bar, vendedor em lojas e até mesmo como camelô irregular no centro de São Paulo. Quando reencontrou uma amiga síria no Brasil, Hiam Kasem, e juntos abriram seu negócio de costura sob medida, Brocar Ateliê, retomando a carreira de Koedor.

No entanto, ainda enfrentam muitos desafios para se estabilizarem, um deles é o recurso financeiro para investimento. Atualmente alugam um espaço para a criação e produção das peças, mas segundo ele não é um ambiente propício para receber o público e a região é muito barulhenta. “É muito difícil essa situação, o Brás é muita bagunça. Nossa área precisa de um lugar mais quieto para a gente conseguir criar”, explica.

Após cinco anos no Brasil, o sírio Nour Koeder retoma sua carreira como estilista.
Crédito: Pâmela Vespoli / MigraMundo

Para Wagner Oliveira, economista da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV DAPP), o Brasil deveria tomar medidas que permitam a liberdade de escolha do refugiado, para que ele não se veja obrigado a fazer atividades fora de sua qualificação ou até mesmo na informalidade. Oliveira cita o exemplo da Alemanha, que possui entidades responsáveis por avaliar as habilidades do imigrante e permitir que ele exerça a profissão, independente da validação de seu diploma.

“Há diversos estudos mostrando que o impacto das migrações tende a ser positivo para o país de destino, mesmo para casos em que os países receberam ondas massivas de refugiados. No caso dos empreendedores especificamente, o impacto positivo ocorre não só por meio da geração de emprego e renda como também pela via da inovação”, afirma o economista. Ele menciona como referência de seu argumento as patentes de ideias e invenções dos países desenvolvidos, que em sua grande parte foram criadas por pessoas originárias de outras nações.

Deslocamento Criativo

Com a falta de medidas governamentais diante dessas problemáticas, algumas empresas e instituições criam iniciativas na expectativa de oferecer auxílio aos imigrantes empreendedores no novo país.

A plataforma Deslocamento Criativo é um desses casos. Promovido por diversas parcerias, tem por intuito dar visibilidade à produção criativa realizada por refugiados na cidade de São Paulo. O projeto, inaugurado em julho passado, cede espaço em seu site para os imigrantes divulgarem seus produtos e serviços, promovendo a ascensão visual de suas marcas.

Além disso, ele tem a intenção de mapear a produção criativa deste público e revelar seu perfil, expondo seus objetivos, obstáculos e realidade. Os resultados da pesquisa paliativa estão disponíveis no site para consulta, enquanto a pesquisa quantitativa permanece em apuração.

O termo economia criativa é comumente usado para referir-se a atividades econômicas relacionadas ao capital intelectual e cultural, como as áreas da música, gastronomia, artesanato, moda, entre outras. Para Maria Nilda, criadora e coordenadora do projeto Deslocamento Criativo, “a economia criativa é muito importante para amenizar o impacto emocional que a pessoa trás quando ela se muda para um país. Lidar com a própria cultura é muito importante para a estrutura psicológica, está ligado a alguma identidade própria”.

Migraflix

O Migraflix é uma organização que trabalha com empreendedorismo cultural. Eles oferecem cursos gratuitos na área da gastronomia – e em breve, de artesanato – visando disponibilizar ferramentas para que os imigrantes alcancem sua autonomia financeira no Brasil.

Além disso, oferecem a empresas e pessoas físicas palestras, workshops e outros serviços culturais, a fim de gerar renda aos imigrantes participantes do produto e compartilhar a cultura de suas nações.

Desde a inauguração do Migraflix, em setembro de 2015, cerca de 170 refugiados e imigrantes de 24 países já foram integrados pelo projeto. Entre eles está a terapeuta ocupacional venezuelana Yilmary de Perdomo, que se formou em novembro do ano passado no curso Raízes da Cozinha.

Chegou ao Brasil em 2016, devido a situação política e econômica de seu país. Como é solicitante de refúgio ainda não possui os documentos necessários para validar seu diploma, por isso passou um ano fazendo diferentes tarefas para pagar as contas. Casada e mãe de três crianças, começou a cozinhar para fora ao atender o pedido da filha, mais nova, que queria presentear a professora da escola. Meses depois conheceu o Migraflix, onde aprendeu a aperfeiçoar o seu serviço e resultou nas Tentaciones da Venezuela.

Tequeños de queijo são aperitivos servidos, por Perdomo, em festas e em momentos de socialização entre amigos. Crédito: Pâmela Vespoli/MigraMundo

O projeto ajudou a conectá-la a novos consumidores. “Eu, sozinha não teria mostrado meu trabalho para uma empresa como a Monsanto”, exemplifica Yilmary. Ela menciona que compartilhar seus pratos com os brasileiros é muito mais do que uma questão de obter renda ou valorização de seu trabalho. “É humanidade. Acho que o maior prazer de se relacionar com as pessoas é que somos iguais, sem distinção”.

Bab Sharki

A startup Bab Sharki, criada pela síria Joanna Ibrahim, 30, é uma plataforma marketplace, onde imigrantes podem oferecer seus produtos e serviços.

Desde abril deste ano a startup criou o projeto Open Taste, em que Ibrahim aluga semanalmente um restaurante na região de Pinheiros, onde uma das nove famílias colaboradoras do programa preparam os pratos de sua terra natal. “Queremos mostrar a cultura da pessoa. Não quero que comprem só porque é refugiado, mas porque é uma cultura legal, a comida é muito boa e gostosa”.

Segundo a cliente Maria Suguiyama, 65, assessora de artes e brasileira, a qualidade e o câmbio cultural não são os únicos motivos que a atraiu, “acho interessante a proposta e a forma como foi pensada a cozinha colaborativa”.

Ibrahim conta que antes do Bab Sharki, tentou implementar algumas iniciativas sem sucesso, entre elas um aplicativo que, ao realizar sua pesquisa de mercado, percebeu que não seria viável. Após entrevistar mais de 200 pessoas, notou que “o brasileiro não confia muito no serviço de um estrangeiro por aplicativo”, afirma ela. Além disso, o investimento seria muito alto para o retorno ser a longo prazo.

CDHIC

Diante de dificuldades como as enfrentadas por Ibrahim e outros imigrantes, o Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC) oferece o curso “Co-criando Inovação” para orientá-los diante das fases que estão lidando em seus empreendimentos, a ideia é dividir grupos entre pessoas que já têm seus negócios em andamento e outro que estão em projeto, para focar nas diferentes técnicas de cada etapa.

Segundo Itamar Olimpio, professor do curso e diretor de marketing da Co-viva, o segredo para o imigrante investir é conhecer a cultura do Brasil e aproveitar os problemas dele para criar novas oportunidades de negócio. Segundo ele, o estrangeiro pode trazer inovação e utilizar de seus conhecimentos culturais para agregar um diferencial no mercado, menciona como exemplo o oferecimento de serviços em seu próprio idioma para atender públicos distintos.

“A maioria das microempresas no Brasil tem um tempo de vida curto, porque tem vários fatores que acabam desanimando, levando a pessoa não acreditar mais no seu negócio”, comenta Bruno Lopes, coordenador de projetos do CDHIC. Pensando nesse desestímulo, a organização dedicou o último dia do curso para tratar sobre resiliência e autoestima, para que negócios promissores não deixem de existir ao longo do caminho.

As aulas ocorrerão nos dias 05, 10, 11 e 21 de novembro, e as inscrições devem ser feitas por meio de formulário até o dia 19 de outubro . Para mais informações, visite o site da organização.

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