Minha terra tem palmeiras – e também burocracia

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Por Leonardo Magalhães Firmino*

Gosto de imaginar cenários hipotéticos onde personagens do passado vivem problemas contemporâneos. Já pensaram se Gonçalves Dias tivesse enfrentado um processo de revalidação de diplomas no Brasil, depois de um período no estrangeiro? Talvez ele teria, com amargura, começado assim a Canção do Exílio:

Minha terra tem palmeiras / e também burocracia”.

Se o poema original expressa o sentimento de nostalgia da diáspora brasileira, estes dois versos hipotéticos representam a pura realidade para os migrantes que estão se estabelecendo novamente ou pela primeira vez no Brasil.

A tarefa de revalidar os estudos realizados no estrangeiro e exercer a própria profissão no Brasil, se tornou quase um dos doze trabalhos de Hércules.

Ao invés de facilitar a absorção do profissional qualificado, que deveria nos ajudar a repensar o Brasil, a lei de revalidação de diplomas impede de fato que milhares de pessoas possam sequer exercer o que sabem. Parece que o Brasil não está disposto a receber de braços abertos, para poder se rediscutir internamente, pessoas que fizeram sacrifícios para aprender novas línguas e assimilar outras culturas e práticas sociais. Você chega no Brasil cheio de idealismo e vontade de melhorar o seu país mas se depara com uma hidra, que em vez de serpentes, tem como cabeças 7 burocratas, prontos para te envenenar com a mordida da imobilidade institucional.

Leonardo Magalhães Firmino, que escreve sobre os problemas que vive para revalidar seus diplomas obtidos no exterior. Crédito: arquivo pessoal
Leonardo Magalhães Firmino: tarefa de revalidar estudos no exterior e exercer a própria profissão no Brasil se tornou um dos 12 trabalhos de Hércules.
Crédito: arquivo pessoal

Poderíamos imaginar também que no começo da Divina Comédia, Dante e Virgílio, em vez de entrar no Inferno, vêm ao Brasil, onde pode se ler o mesmo aviso em cada guichê público do país:

“Deixai toda esperança, vós que entrais!”

No que se refere à minha experiência direta como migrante retornado, sou carioca de nascença e voltei ao Rio após 16 anos morando no estrangeiro. Conforme passavam os meses, a irracionalidade da burocracia brasileira se fazia sempre mais absurda ante os meus olhos. Depois de ter sido excluído de vários processos de seleção por não ter estes benditos diplomas revalidados, quando me encontrava já em sérios problemas financeiros, resolvi participar de uma entrevista de trabalho em uma conhecida empresa de call center do Rio de Janeiro, mesmo sabendo que teria ganho somente um salário mínimo. Por minha surpresa, também fui excluído do processo já na fase final por não ter o –  tan dan dan daaann ♬ – diploma de ensino médio devidamente revalidado pelo MEC. Embora eu fale quatro línguas, tenha duas pós graduações em comunicação e tenha atuado profissionalmente em 6 países diferentes, a resposta da funcionaria foi: “sinto muito, esta é a política da empresa. Você precisa ter o diploma reconhecido pelo MEC para ser contratado”. Ou seja, para uma empresa que nem pede experiência prévia, que tem como únicos três requisitos ter um diploma de ensino médio, ter boa audição e aguentar calado a exploração laboral, a minha trajetória não contava nada. Para eles o importante é o diploma de ensino médio revalidado. A minha trajetória pessoal é menos importante que um papel.

Será que a revalidação é uma espécie de fórmula mágica que elimina a cegueira institucional sobre minhas capacidades acadêmico-profissionais, que até então é como se não existissem para o Estado? Ou é o elixir filosofal que me outorgará a sapiência divina?

Em um ano desde que regressei ao Brasil, as únicas instituições que demonstraram valorizar a minha experiência internacional foram a ONU e o Comitê Olímpico Rio 2016, onde trabalhei por pouco tempo.

Empresas e instituições que considerem a revalidação de um diploma mais importante que o conhecimento e a vivência que uma pessoa possui, têm um sério problema: o de não aproveitar os recursos valiosos disponíveis de fato no mercado de trabalho e poder se reinventar, buscar novos mercados e novos métodos para vencer a recessão.

Neste sentido, voltando a imaginar a hipotética versão do poema, do terceiro verso em diante se continuaria assim: “

(…) Os burocratas, que aqui gorjeiam,
não gorjeiam como lá.

Nosso doc tem mais selos,
nossos selos têm mais flores,
nossos processos têm mais guichês,
nossos guichês mais mal humores.

Em cismar, sem carteirada, na honestidade,
Mais “tá faltando” escuto eu lá; (…)

Pode parecer uma contradição, mas o Brasileiro retornado começa a sentir saudades do país para onde emigrou anos antes e minimiza problemas que o afetaram no estrangeiro, como por exemplo a discriminação racial.

Aqueles que se foram cheios de sonhos e voltaram ao Brasil 10, 15 ou 20 anos depois, com muitas esperanças graças à propaganda do “Brasil potência”, uma vez aqui e enfrentando a burocracia local, relembraram com aquela carinha de desgosto o porquê tinham ido embora anos antes; relembranças dadas por perdidas nos meandros do subconsciente que vêm à tona e nos fazem revalorizar aquela Europa racista que tanto nos fez sentir como se morássemos de favor.

Eu, que estava tão feliz de ter voltado para o Brasil após 12 anos de PT, convicto de que o país tinha melhorado graças às políticas sociais, me deparo com um aperto no coração e sinto conflitos interiores e saudades daquela Europa que nos ensinou que “sempre há alguém mais branco que você”; que sempre que possível, deixa transparecer a sua visão parcial e desinformada pela qual você e outros provêm de uns territórios genéricos, exóticos e descaracterizados onde reina o subdesenvolvimento, mulatas com a bunda de fora, índios e filas dançantes de conga passando ao lado de crianças de rua; e que no fundo, você nunca será igual a eles, seres superiores por natureza.

Porém, esta mesma Europa que nos faz sentir “non grati” durante toda a nossa permanência, ao mesmo tempo, por sua natureza institucional, nos ofereceu uma série de ótimas oportunidades em termos de desenvolvimento pessoal, mobilidade humana e acesso aos serviços básicos que nunca teríamos tido no Brasil sem uma renda de pelo menos 7 mil reais por mês.

Não quero voltar para a Europa, mas gostaria que o meu país me recebesse de braços abertos com tudo o que eu tenho a oferecer. Ou será que o Brasil vai deixar que comece uma nova emigração por fuga de cérebros a destinos que nos valorizem?

*Leonardo Magalhães Firmino é carioca e trabalha como consultor internacional em comunicação e marketing no Rio de Janeiro. É formado em Ciências da Comunicação e da Informação na Itália e mestre em Comunicação Política e Social na Espanha. Viveu e trabalhou em 7 países na Europa, América Latina e África.

1 COMENTÁRIO

  1. Isso porque você morou em países que não são ‘Europa’… Enfim, eu acho o Brasil mais inóspito que o resto do mundo… Racismo é ficha contra os preconceitos que se sofre no Brasil se você não for o mais branco.

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