Mobilidade Global não acabou, nem acabará. Mas está diferente

Global Mobility não se resume a processos migratórios e outros trâmites burocráticos, mas versa primeiramente sobre pessoas que movimentam-se pelo mundo

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Crédito: Pixabay

Por Danyel Andre Margarido

“(…) o que acontece quando as barreiras frente à essa movimentação são grandes demais? Ou ainda, quando existe tanta incerteza quanto ao futuro?”

Conversando com uma amiga, que também trabalha em Global Mobility (“GM”), tocamos no assunto de como a nossa área se encontra em meio à pandemia.

Houve um verdadeiro susto quanto ao que seria da área de Mobilidade Global dentro das empresas. Muitos colegas foram desligados, e outros não sabem o que esperar dos próximos meses.

Entretanto, se falarmos de Mobilidade Global como área dentro de uma empresa, ou mesmo um mercado, deixamos de ver sobre o que realmente se trata GM. Global Mobility não se resume a processos migratórios, de folha de pagamento internacional, de aluguéis, mas, em primeiro lugar, versa sobre pessoas que movimentam-se pelo mundo; E, trabalhar nessa área é fomentar a movimentação das pessoas.

Mas o que acontece quando as barreiras frente à essa movimentação são grandes demais? Ou ainda, quando existe tanta incerteza quanto ao futuro?

Pouco se sabe o que vai acontecer daqui para a frente, é verdade.

Entretanto, é possível notar situações, ações, e experiências que podem vir a nortear o que acontecerá durante e após a ameaça do COVID19:

1) Migrar é um Direito Humano

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu Artigo XIII, discorre:

1. Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.

2. Toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.

A movimentação de pessoas pelo mundo não parará. É um direito do ser humano, e será usufruído sempre que possível, por todos os que desejam. Sejam pessoas mudando em busca de seus interesses pessoais, sejam empresas enviando e recebendo expatriados através do departamento de Global Mobility.

Por outro lado, devido a todos os acontecimentos atuais, essa movimentação sofrerá alterações. O primeiro impacto, após certa adequação ao novo cenário atual, será a quantidade de pessoas em movimentação global, que talvez diminua nos primeiros anos, durante e após a pandemia.

Com a diminuição da quantidade, as movimentações, iniciadas por grandes empresas ou por pessoas que desejam mudar de país, passam a ser banhadas em estratégia. O planejamento envolvido nessa mudança deixará de ser somente sobre mudar por mudar, e passará a ser carregado de propósito, no sentido mais amplo da palavra.

O motivo da mudança não será só visto, mas será revisto. E isso começa com passos simples.

2) O Indivíduo vs. O Mundo

Quando começamos a falar de Mobilidade Global a primeira coisa que pensamos é sobre o país onde gostaríamos de trabalhar – e a necessidade ou não de um visto para que essa movimentação aconteça.

Alguns países podem ter facilidades ou dificuldades, e muitas dessas nuances partem do seu poder de mobilidade, e do quão preparado você está para enfrentar situações migratórias, as quais sempre acompanham dores de cabeça, traduções juramentadas e apostilamentos.

E, por cima destas situações, as fronteiras podem ser fechadas rapidamente para proteger a população residente naquele país de ameaças externas – como recentemente aconteceu quando o COVID-19 dominou o mundo.

Como dito no primeiro ponto (“Migrar é um Direito Humano.”), o desejo por mudar de país de muitas pessoas não se alterou, as pessoas continuaram a mudar-se e procurar oportunidades diferentes (às vezes, melhores), além das fronteiras de seus próprios home countries. A decisão, no entanto terá mais um fator a ser considerado.

Além da qualidade de vida, salários melhores e infraestrutura local, outra questão que passará (e já passa) a fazer parte da decisão de considerar morar fora está no manejo de cada país em questões de saúde. Como o país lidou com o COVID19? Como o país está preparado para uma emergência de saúde? A cadeia de hospitais do país escolhido faz sentido para seu momento de vida?

Um ponto de atenção está no manejo de questões migratórias em relação às exposições feitas pela pandemia. No final de Agosto, deste ano, a OIM publicou um estudo sobre o impacto do COVID-19 nos processos migratórios de 180 C/T/As (ou seja, 180 Countries, Territories or Areas).

Muitos países tomaram ações que mostram o cuidado com sua população local, pensando também nos estrangeiros que estão em seu solo, como, por exemplo a remoção de multas por estadia além do prazo no país.

A Restrição de Mobilidade urbana e global convergiram em pontos como a não-emissão de novos vistos por consulados e imposição de restrições de mobilidade (e, esse estudo entende que Restrição de Mobilidade compreende ações como toques de recolher, bloqueios, postos de controle e patrulhas.).

As questões de saúdem passam para um dos principais pontos de atenção, quando olhamos para o que faz sentido para cada indivíduo, durante o preparo para a mudança ou na oferta por uma posição em outro país. Rankings de hospitais e saúde em meio à crise podem fazer parte das análises iniciais.

Além disso, os cálculos de Custo de Vida passarão a incluir dados como “Consulta de 15 minutos com médico particular” (em uma comparação simples, entre São Paulo e Berlim, com dados de 2020, mostra já grande diferença: Em Berlim, o custo médio deste item é €83 (ou R$ 536), em quanto em São Paulo é R$ 230), e demais informações médicas.

Além disso, as empresas que enviam expatriados pensarão mais vezes sobre o tipo de cobertura/seguro saúde dado ao expatriado e sua família, justamente por Saúde ser um tema em evidência.

O equilíbrio que fazemos entre as situações que nos rodeiam e o que nós buscamos, além de nosso lugar no mundo (mesmo que em países diferentes), passará a ter maior peso. É importante saber que muitas vezes, teremos de enfrentar situações adversas, para conquistar o que queremos.

3) Resiliência, dentro e fora do RH

Justamente por novos itens estarem em maior evidência e por existir uma maior incerteza em todas as questões que competem à Mobilidade Global, uma competência que será de grande importância será (e já é) a Resiliência.

Além da habitual definição sobre o que é resiliência, quando falamos da mudança de país ela toma ainda mais forma, dando capacidade às pessoas de resistirem a situações adversas sem perder o seu equilíbrio inicial.

As situações adversas, em mobilidade global, são várias, e, agora, adiciona-se a elas a questão da saúde. Países diferentes têm ações diferentes, e resultados diferentes, quando se fala de sáude. Ações diferentes, ainda, podem signifiar maior ou menor exposição – e adaptar-se à questões mais rígidas ou mais leves, causa certa comoção, e saber navegar por diferentes cenários, reequilibrando-se constantemente.

A sensação de novidade (e a Curiosidade que a acompanha e ajuda no desbravamento de sua nova morada) vai acompanhar cada pessoa em movimentação global, seja a primeira ou somente a próxima movimentação – justamente por muitos processos serem revistos.

4) “E tudo se fez novo…”

Justamente pelas recentes mudanças e adequações, tanto pessoais como globais, que são requeridas nesse novo cenário, muitos processos foram revistos.

O tripé que sustenta a Mobilidade Global, formado por Imigração, Relocation e Tax, está sendo revisto, justamente para adequar-se às novas demandas – seja realizando vistorias online (como em Relocation), ou assinando documentos via internet (como em Imigração), há um movimento para a diminuição do risco de contato dos indíviduos com o vírus – o que muitos falam que trata-se da tão aguardada “disrupção” que fez com que todos descobrissem que é possível trabalhar à distância de seus empregos.

Todas essas novidades fazem com que muitas coisas mudem de uma hora para outra, como por exemplo, documentos à serem apresentados perante órgãos publicos. Isso faz com que todos estejamos imersos em novos processos, novas formas de ver mobilidade global o que pode fazer com que idéias e oportunidades novas aconteçam.

As mudanças em Mobilidade Global ainda não acabaram, mas elas não farão com que a movimentação de pessoas pelo mundo cesse. Tudo agora terá algo novo, algo a ser descoberto e algo novo a ser aplicado.

Sobre o autor

Danyel Andre Margarido possui mais de dez anos de experiência em Mobilidade Global e Expatriados, atuando como consultor de Global Mobility na EMDOC, e fundador da Altiore Experience; já realizou a movimentação de mais de 2000 famílias pelo mundo. É formado em Relações Internacionais pela UniFMU, com especialização em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito, MBA em Recursos Humanos, pela Anhembi Morumbi, e um mestrado profissional em Recursos Humanos Internacionais, pela Rome Business School.


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