Mobilidade humana e concentração de riqueza: migrantes em meio a um vaivém permanente

Nos tempos atuais, a grande maioria dos migrantes vê-se condenada a um vaivém permanente, na vã tentativa de encontrar uma oportunidade de trabalho e um solo pátrio onde seja possível fixar-se e reerguer um novo alicerce

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Venezuelanos embarcam em avião da Força Aérea Brasileira, em Boa Vista, com destino à Manaus e São Paulo. (Foto: Marcelo Camargo - 4.mai.2018/Agência Brasil)

Dois livros recentes, embora trilhando caminhos aparentemente paralelos, se entrelaçam nas encruzilhadas da mobilidade humana. O primeiro é da filósofa italiana Donatella Di Cesare: Stranieri residenti, una filosofia della migrazione, lançado em outubro de 2017, pela Editora Bollati Boringhieri. O segundo é do economista francês Thomas Piketty: Capital e Ideologia, lançado no Brasil em 2020, pela Editora Intrínseca. Percorrendo historicamente as cidades clássicas de Atenas, Roma e Jerusalém, como vasto pano de fundo, Donatella propõe uma espécie de política da hospitalidade que não seja tão rígida quanto às fronteiras. Política que, independentemente do lugar de nascimento e residência, oportunize a cada ser humano uma verdadeira cidadania. Nisso, a autora encontra-se em sintonia com o Papa Francisco, quando este último insiste na substituição da “globalização da indiferença” pela “cultura da acolhida, do encontro, do diálogo e da solidariedade”.

Thomas Piketty, por sua vez, numa abordagem histórica de largo percurso e de longo respiro, procura demonstrar como a concentração de capital e renda por um lado, de fortuna e herança por outro, coincide em determinadas com deslocamentos humanos de massa. De acordo com o economista, autor também de outras duas obras sobre o tema – A economia da desigualdade (2013) e O capital no século XXI (2017) – a desigualdade social e econômica representa, entre outros, um fator proeminente para a difícil decisão de deixar o país de origem e aventurar-se por novas terras em busca de um futuro de menor carência. Tomando a trajetória de vários países como referência, ele disseca, confronta e estuda, no decorrer dos séculos, o acesso à riqueza e renda, bem como às respectivas oportunidades, entre o décimo (10%) e do centésimo (1%) mais ricos, de um lado, e os 50% mais pobres, de outro. Analisa dados fartos e robustos relativos a impostos e taxas fiscais, chegando à conclusão que, na modernidade, a economia globalizada, se e quando desregulada e abandonada à “mão invisível” de Smith, concentra ao mesmo tempo riqueza e exclusão social. Daí a multidão dos “sem raiz e sem rumo”, à qual resta correr atrás dos ventos do capital e das migalhas que caem das mesas opulentas.

Em termos mais concretos, Thomas Piketty traça um paralelo entre as décadas que precederam a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a chamada “belle époque”, e as décadas que vão de 1980 a 2020, em plena crise da economia globalizada. Ambos os períodos, separados mais ou menos por um século, serão marcados por uma intensa e progressiva concentração de riqueza e renda no topo da pirâmide socioeconômica, em detrimento dos extratos populacionais que habitam os andares inferiores da mesma. A numerosos destes últimos, resta não raro a porta da migração. Na virada do século XIX para o século XX, até o início do conflito mundial, enormes fluxos de irlandeses, italianos, poloneses, portugueses, espanhóis, alemães, japoneses… deixam o velho continente e cruzam os oceanos em busca de novas terras nas Américas, na Austrália e na Nova Zelândia, sem falar dos que migram no interior do continente europeu. Fluxos que, de resto, em alguns casos já vinham tomando corpo desde as primeiras décadas do século XIX.

De forma mais intensa, diversificada e complexa, os deslocamentos humanos irão se repetir nos últimos 40 anos, passagem do século XX para o século XXI. Há uma diferença, porém, que não pode ser desconsiderada. As chamadas migrações históricas de cem anos atrás tinham, em geral, uma origem e um destino mais ou menos pré-estabelecidos. Ao desenraizamento num dos lados do oceano, seguia-se a criação de novas raízes num lugar determinado. Já nos tempos atuais, a grande maioria dos migrantes vê-se condenada a um vaivém permanente e desordenado, errando de fronteira em fronteira, na vã tentativa de encontrar uma oportunidade de trabalho e um solo pátrio onde seja possível fixar-se e reerguer um novo alicerce. Em outras palavras, a mobilidade humana que acompanhou a vida e a obra do bispo J. B. Scalabrini – denominado “o apóstolo dos migrantes” – em muitos casos vem acompanhada de uma mobilidade social ascendente. Hoje, ao contrário, é bem mais notória uma mobilidade social descendente.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, é vice-presidente do SPM (Serviço Pastoral dos Migrantes)

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