Mulheres migrantes tomam parte e buscam espaços no Fazendo Gênero

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Faixa da Frente de Mulheres Imigrantes e Refugiadas na Marcha Internacional do Mundo de Mulheres. Crédito: Lya Amanda Rossa/MigraMundo

11ª edição do evento reuniu pesquisadoras de migrações e contou com a participação da Frente de Mulheres Imigrantes e Refugiadas em Florianópolis

Por Lya Amanda Rossa
Em Florianópolis (SC)

Discussões sobre gênero, raça e classe, teoria pós-colonial e teorias feministas, identidades, refúgio e mobilidade humana foram alguns dos temas abordados no 11º Fazendo Gênero, evento acadêmico organizado pela Universidade Federal de Santa Catarina, que reuniu mais de 8 mil pessoas em Florianópolis entre os dias 31 de julho e 04 de agosto. O seminário, já tradicional no Brasil, teve como tema “Transformações, Conexões, Deslocamentos” e ocorreu junto ao 13º Mundos de Mulheres,  sediado pela primeira vez na América do Sul.

A programação, que contou com debates acadêmicos, mostras culturais, simpósios e atividades gestionadas por movimentos sociais, reuniu pesquisadoras do Brasil e do mundo em torno de muitas temáticas, dentre elas, a das migrações e refúgio.

A peruana Rocio Shuña, da Frente de Mulheres Migrantes e Refugiadas, contou ao MigraMundo que foi a primeira vez que a Frente participou do evento, que mobilizou na última quarta-feira (02/08) a Marcha Internacional do Mundo de Mulheres por direitos.  Dentre as diversas pautas reivindicadas na marcha, constam no manifesto a luta contra as diversas violências a que são submetidas mulheres de todo o mundo, tanto pelo machismo e violências de gênero quanto racismo, homofobia e transfobia, colonialismo, extermínio de populações indígenas; e a invisibilização da luta de muitas mulheres, dentre elas, migrantes e refugiadas que não puderam estar presentes.

Faixa da Frente de Mulheres Imigrantes e Refugiadas na Marcha Internacional do Mundo de Mulheres.
Crédito: Lya Amanda Rossa/MigraMundo

MigraMundo: Qual a importância das mulheres migrantes estarem presentes junto dos movimentos sociais e das marchas?

Rocio Shuña: É importante que exista a diversidade. Em um evento como o Fazendo Gênero, é importante ter a diversidade presente falando em primeira pessoa, pois são as pesquisadoras que falam por nós. É importante ocuparmos esses espaços como militantes, falarmos com a nossa própria voz das nossas necessidades, e que as pessoas saibam a importância das categorias de imigrante e de condição migratória, não somente de mulher. A categoria de condição migratória tem sido considerada como um determinante social nas políticas sociais, mas infelizmente só na cidade de São Paulo, depois da luta de muitos coletivos. Nossa presença aqui é para assinalar que a condição migratória seja considerada como um elemento para pensar em políticas sociais, em todos os estados e em todos os países.

MigraMundo: Você acha que a falta de representatividade de mulheres migrantes e refugiadas nos eventos acadêmicos se relaciona com a dificuldade de acesso ao ensino superior para migrantes e refugiados no Brasil?

Rocio Shuña: Os fatores são diversos, mas mesmo para as pessoas que têm estudos de ensino superior em seus países, a falta de reconhecimento desses diplomas é um problema. Não diria que nós mulheres migrantes e refugiadas sejamos diretamente invisibilizadas pelos pesquisadores, pois esse não é o seu objetivo, invisibilizar nossa fala. Mas eles, ao pensar que nos estão dando voz, é um problema, pois eles não estão nos dando voz. Nós temos nossa voz, nós fazemos a luta, fazemos a resistência. Eu acho que a dificuldade da academia é a falta de articulação, eles [os pesquisadores] não articulam de fato o que nós realmente queremos. A academia deve ser uma ponte com a comunidade, e não serem eles quem tem a verdade de tudo. Se a academia funcionasse como ponte para atender as demandas sociais, então eu acho que a gente não teria que fazer todo esse trabalho de estar lutando por esses espaços onde supostamente se fala pelo direito das mulheres e da diversidade. Acho que essa é a dificuldade. O esquecimento de que a academia deve ter uma responsabilidade social, eles não são os que vão falar por nós.

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A interseccionalidade, termo que designa a articulação entre gênero, raça e classe social na produção de desigualdades e violências, foi palavra de ordem em todo evento, que mediou diversos tipos de discussões acadêmicas e de movimentos sociais. A mesa de abertura contou com a fala de duas mulheres africanas, Maria Odete Semedo, de Guiné-Bissau, e Graça Samu, que veio de Moçambique com a comitiva especial do país que irá sediar o 14º Mundos de Mulheres, em 2020.

Graça chamou atenção, no primeiro dia do evento, sobre a ausência de falas no meio acadêmico brasileiro sobre os impactos das guerras para as mulheres em África e sobre a influência da indústria brasileira na produção agropecuária do país, através da exportação de tecnologias que trazem um desenvolvimento questionável, à medida que o subjugam ao uso de sementes geneticamente modificadas: “Estamos a alimentar nossos filhos com veneno, e o Brasil não fala nada sobre isso”.

Roda de conversa “Feminismos em Moçambique”: construindo o Mundos de Mulheres em 2020″, com a comitiva moçambicana.
Crédito: Lya Amanda Rossa/MigraMundo

A questão da agricultura, relacionada com a política externa brasileira em África, também foi lembrada em uma das falas por uma mulher camponesa que referiu ter perdido suas terras em decorrência do ProSavana, projeto em que o Brasil esteve envolvido como financiador em parceria com Moçambique e Japão. O ProSavana recebeu críticas por promover um tipo de extensão do agronegócio nacional, transformando modos de produção de agricultura familiar em latifúndio, o que destrói ecossistemas e emprega o uso de transgênicos, além de deslocamentos forçados de populações rurais. Para o evento de 2020, estão previstas diversas outras discussões da agenda do feminismo moçambicano, como o combate aos casamentos forçados de crianças, que inclusive pode figurar como uma causa de solicitação de refúgio em outros países.

Em conversa com uma das feministas moçambicanas, também foi relembrado o caso de três manifestantes feministas, duas brasileiras e uma espanhola, as quais foram detidas e tiveram suas deportações decretadas em 2016, após participarem de protestos políticos contra obrigatoriedade a estudantes secundaristas usarem “maxi saias” na cidade de Maputo. Todas essas questões, de alguma forma, atravessam o tema das migrações e deslocamentos em escala internacional, conjugados ao controle de fronteiras, globalização, feminismo e sistema de refúgio.

Outros assuntos pautados no Seminário foram a demarcação de terras indígenas e novas visões epistemológicas que contemplem conhecimentos produzidos no sul global. Mas o que esses temas têm a ver com migrações? Bem, tudo!  Basta lembrarmos do veto ao artigo 2º da Nova Lei de Migração (13.445/17), que garantia a mobilidade humana de populações indígenas transfronteiriças, o que possui inclusive consequências sobre o recente trânsito de venezuelanos na fronteira de Roraima. Além disso, o tema das Cooperações Sul-Sul entre Brasil e África remete a uma gama de pesquisas realizadas sobre mobilidade humana de migrantes africanos no Brasil, por uma perspectiva macroestrutural. Assim como o título do evento, há tantos mundos de mulheres quanto as diferentes realidades vivenciadas pelo planeta, cada vez mais conectadas e que se transformam pelos deslocamentos de pessoas.

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