Nem aqui, nem lá: os efeitos da transnacionalidade sobre os migrantes

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Visitante no Museu de Migraciones, Buenos Aires (Argentina) Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Só quem foi ou é migrante sabe das dificuldades desse processo simultâneo que afeta a tantas pessoas ao mesmo tempo, em diferentes países

Por Debora Draghi
Em Curitiba (PR)

Ao mudar-se para um novo país, um imigrante enfrenta as dificuldades da distância de amigos e familiares e, a curto prazo, sofre adversidades no processo de integração. Por mais que uma rede de contatos se forme aos poucos, com a distância os obstáculos são enfrentados sozinhos, e enquanto o migrante estiver fora de seu país de origem, vai passar por uma situação comumente conhecida como “nem aqui, nem lá.”

Nem aqui, pois dificilmente o imigrante ficará 100% integrado, sempre levando consigo a cultura e costumes do país de origem. E nem lá, pois enquanto estiver afastado, estará distante de seu país de residência habitual, perdendo acontecimentos importantes e querendo estar próximo dos entes queridos. Assim é a vida de todos os que escolhem ou precisam continuar suas vidas longe de seus países de origem.

Quer seja um imigrante ou refugiado, os momentos difíceis são os mesmos no que diz respeito a cultura, entes queridos e momentos para se dividir. Estar com alguém do mesmo país ameniza as dificuldades, e com a tecnologia fica relativamente possível estar mais próximo, mas ainda assim, estar em outro país, longe dos costumes e da vida habitual, mexe com todos aqueles que emigram.

Como nação, as pessoas geralmente dividem um sentimento de identidade e pertencimento, envolvendo uma consciência nacional. O Brasil, tendo sempre sido um país que acolheu e acolhe diversas nacionalidades, fez da heterogeneidade algo natural.

No entanto, para que essa identidade coletiva seja formada, geralmente há um conjunto de dialetos, línguas, religião nacional, cidadania, serviço militar, sistema educacional, hinos e bandeiras que precisam ser usados como ferramentas para criar algo mais homogêneo. É preciso olhar para a sociedade que está recebendo e perceber suas características, mas como os imigrantes podem perceber as mudanças que estão ocorrendo no processo migratório? É uma dinâmica que muitas vezes leva ao “nem aqui, nem lá”. Através da assimilação, os imigrantes aos poucos deixariam de lado sua cultura do país de origem e se tornariam parte do país que os recebeu. Com a integração, no entanto, ambas as culturas se acomodam: os recém-chegados se adaptam gradualmente, mas há também transformações no país que decide hospedar.

Desse modo, o “nem aqui, nem lá”, um efeito da transnacionalidade, é um processo simultâneo que mexe com os imigrantes nos países de destino e seu envolvimento com a sociedade local. O que pode minimizar esse choque são comunidades que promovam a incorporação desses imigrantes, para que haja esforços mútuos das nacionalidades envolvidas e essas saiam ganhando com um ambiente mais diverso e plural.

Visitante no Museu de Migraciones, Buenos Aires (Argentina)
Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Ao mesmo tempo, a transnacionalidade permite que esses indivíduos mantenham identidades múltiplas, contatos e afiliações. Esse fenômeno tem ambos efeitos positivos e negativos para aqueles que se mudam para outro país, mas também para os que ficam. Como impactos negativos, pode ser mencionado que geralmente pessoas transnacionais tem que lidar com um sentimento de não pertencimento, quando inicialmente é difícil de se estabelecer, um lugar onde eles tentam fazer parecer como um lar. Além disso, alguns expatriados podem viver numa “bolha nacional” fora da seu país de origem, não dispostos a integrar, nem de aprender a língua ou fazer alguns esforços para se adaptar a nova cultura. Como pontos positivos, os transnacionais tem a possibilidade de enviar remessas e de dividir conhecimentos e experiências culturais com os que ficaram para trás. Hoje em dia, a transnacionalidade é mais fácil de ser colocada em prática, e um dos fatores é a tecnologia, que tem mudado a dinâmica da comunicação.

Assim, a mobilidade internacional, quer seja causada por casamento, emprego, estudos, necessidade ou simplesmente a busca por uma melhor qualidade de vida, impacta a vida dos imigrantes de uma forma mais benéfica ou mais difícil.

Mesmo assim, depois de passarem anos em um novo território, aqueles que migraram podem mudar seus hábitos e identidade para se adaptarem, para se sentirem mais integrados, para ter um maior sentimento de ligação e talvez para se sentirem mais conectados ao país e seus nativos. Por outro lado, em algum ponto isso pode levar a uma perda de identidade, quem eles eram e quem se tornaram.

Migrantes transnacionais tem que lidar com desafios diferentes quando se movem. Embora pudesse ser dito que seja mais fácil migrar agora por conta da tecnologia e lugares mais heterogêneos, ainda é difícil passar por um processo de integração, algo que depende dos esforços dos imigrantes, mas ao mesmo tempo dos nativos, pois a integração é uma via de mão dupla, que pode ser amenizada quando a população local é mais aberta ao diverso e ao acolhimento.

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