No Dia do Imigrante, uma reflexão sobre cidadania e direito a voto

Rocio Paik, integrante do MigraMundo e imigrante, conta sua experiência nas eleições de 2020

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Exemplo de urna eletrônica usada nas eleições no Brasil. Participação ainda é restrita a brasileiros natos, naturalizados ou a portugueses com igualdade de direito
Exemplo de urna eletrônica usada nas eleições no Brasil. Participação ainda é restrita a brasileiros natos, naturalizados ou a portugueses com igualdade de direitos. (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Nunca votei.

Eu, a atual Rocio Paik, de 22 anos, nunca votei na vida.

Desde que me tornei adulta no Brasil, passei duas eleições sem ir nas urnas. A presidencial, em 2018, e as municipais, em 2020. 

Neste ano, especialmente, tive uma experiência mais nítida em relação a quem sou eu no país. Trabalhar diretamente com as eleições me fez pensar profundamente sobre o silenciamento e apagamento dos imigrantes na sociedade. 

Há um mês nossa equipe do MigraMundo produziu uma reportagem que abordava quais eram as propostas dos candidatos a prefeito, especificamente em São Paulo, em relação à população em situação de refúgio e migração. No entanto, percebemos que grande parte nem sequer citava o termo “imigrante” em seus textos.

A omissão na sociedade, a ausência do direito de fazer parte de pautas políticas são fatores que fazem de nós, imigrantes, segregados. 

Ainda por cima, o fato de não ter o direito de votar me fez refletir como a política brasileira é estratégica. A elite e, consequentemente, os detentores do poder, são máquinas sociais que produzem aquilo que somente lhes é do interesse, descartando e desconsiderando qualquer vantagem das realidades que ameacem se aproximar ao seu status. Saber que não há oportunidades para que os imigrantes votem é, portanto, mais um grito social que deve ser escutado por aqueles que fazem parte da democracia. É necessário juntar as forças. 

Aquilo que se denomina como uma “festa da democracia” nunca foi assim tão democrático. Nomear as eleições como um evento de democracia só reforça a sensação do imigrante de não pertencer à sociedade. 

2018 foi o primeiro ano em que não pude votar por não ter o título de eleitor. Embora muitos me chamassem de “sortuda”, na época, por não ter a necessidade de ir às urnas nem justificar, pessoalmente sempre achei muito importante a votação. Sempre levei à sério, sempre considerei um dever fundamental do cidadão para escolher e realizar o bem público. Era uma eleição presidencial. Disputaram os candidatos Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (então PSL) na reta final, e não teria como não ficar com os dedos coçando para apertar o botão nas urnas. 

Diferenciais, no entanto, foram as eleições de 2020. Como jornalista, trabalhei nos dois domingos (15 e 29 de novembro), os dois turnos da disputa eleitoral, produzindo conteúdo da “festa da democracia” para os jornais da casa, ao vivo. Senti que estava cobrindo uma eleição que não me pertencia. De vez em quando, uma sensação de inutilidade da minha parte.

Um outro detalhe muito relevante foi também considerar o momento sombrio em que vivemos. Um tempo em que nossas vidas são constantemente ameaçadas pelo governo federal. Obviamente as eleições municipais se direcionam às cidades de cada estado, mas prefeitos têm papéis fundamentais na conexão política com as autoridades nacionais. Assim eles podem articular planos para conceder, então, uma vida mais digna à população local. É por isso que me bateu um desespero o fato de não poder fazer nada.

Se é uma “festa da democracia”, então que seja democrática. O cidadão tem direito, e o voto é um direito. O imigrante faz parte da sociedade, e é imprescindível, portanto, sua participação para que, assim como os outros, também tenha uma vida. 


Rocio Paik é jornalista e integra o time do MigraMundo desde maio de 2020. Nascida no Paraguai e filha de sul-coreanos, tem nacionalidade sul-corenana e paraguaia



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