No supermercado em Bonn com Sabina

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Além da participação no Global Media Forum, do prêmio no The Bobs e da relação com o idioma alemão, a curta passagem que tive pela Alemanha rendeu uma experiência inusitada, mas ao mesmo tempo marcante sobre como as pessoas podem se ajudar umas às outras. Por isso, vale a pena falar dela à parte.

Estava em um supermercado de bairro em Bonn com a minha amiga Karina Gomes, ajudando-a fazendo as compras dela da semana. Para tentar melhorar um pouco o meu ainda pobre alemão, tentava pronunciar os nomes dos produtos – o que até rendia certas risadas de ambos pela dificuldade de expressar certos fonemas.

Região central de Bonn, Alemanha. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Região central de Bonn, Alemanha.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Durante essas tentativas, eis que aparece uma jovem aparentando entre 18 a 20 anos, em torno de 1,50 m, falando comigo em espanhol. “Não se preocupe, é uma língua complicada mesmo, já passei por isso também”.

Seu nome era Sabina, filha de mãe equatoriana e pai português e que há oito anos mora na Alemanha. Estava acompanhada do namorado (deduzi ser alemão), branco, loiro e por volta de 1,75 m de altura, que ficou calado o tempo todo.

Sabina e eu começamos a conversar, exigindo que eu usasse um pouco do meu espanhol macarrônico – que se misturava às palavras em português, inglês e aos vocábulos alemães desconexos na minha mente. Foram menos de dez minutos de conversa, mas que renderam por horas ou até mesmo dias de aprendizado.

Ela tinha acabado de concluir o equivalente ao ensino médio na Alemanha e estava em busca de uma faculdade – quer estudar odontologia. Mas embora falasse alemão fluentemente, ela própria disse que também vinha encontrando dificuldades para ingressar na universidade por ainda não ter conhecimento pleno da língua alemã. O fato de também ter certo sotaque em relação aos alemães nativos, segundo Sabina, também era algo que despertava certa desconfiança.

Estava assim na Alemanha, me sentindo um pouco como imigrante (especialmente quanto ao idioma) e conversando com uma verdadeira imigrante, filha de um casal binacional e que relatava barreiras enfrentadas por migrantes em qualquer parte do mundo. Continuamos a falar sobre as peças que o idioma alemão nos pregava, o que achava do país, curiosidades sobre a vida de imigrante. E então veio o momento que mais me surpreendeu na conversa com Sabina:

– Quanto tempo você está na Alemanha?

– Uma semana apenas, e volto para o Brasil daqui a dois dias. Foi tudo bem rápido mesmo, respondi.

– Ah, que pena! Se tivesse mais tempo você podia ir lá em casa conversar um pouco. Conhecer meus pais, eles adorariam falar com você.

Fiquei quase sem reação. Como ela convida para ir à casa dela uma pessoa que acabou de esbarrar no supermercado – e ainda por cima ao lado do namorado? Sua resposta, quase em seguida da oferta, me fez entender bem o porquê.

– Quando cheguei aqui na Alemanha, minha família e eu recebemos muita ajuda de outros imigrantes aqui para nos adaptarmos. Por isso procuro fazer o mesmo sempre que encontro alguém que também é imigrante.

Fiquei bastante tocado com a naturalidade com a qual Sabina fez o convite e mais ainda com a justificativa. Quebrou toda e qualquer desconfiança que eu poderia ter sobre ela e também me deu um exemplo de como imigrantes podem se ajudar, minimizando até eventuais ausências de redes de apoio formais ou informais para isso – o ato de quem está há mais tempo no país estender a mão àquele que acaba de chegar e ainda não entende direito o que está ao seu redor.

Para quem recebe a ajuda, deve ser como uma luz acesa em um quarto escuro, mostrando o caminho a seguir ou a próxima porta a abrir; para quem estende a mão, penso que deve ser não apenas um exemplo de nobreza e humanidade, mas ainda uma mostra de respeito à própria história e o que aprendeu com ela, procurando retribuir a ajuda que conseguiu e tentando evitar ou amenizar as dificuldades que os recém-chegados enfrentam.

Pessoais ou coletivas, formais ou não, redes de apoio fazem grande diferença para os imigrantes e demais pessoas em situação de fragilidade social. Crédito: Elizabeth Ann Colette/Flickr/Wikimedia Commons
Pessoais ou coletivas, formais ou não, redes de apoio fazem grande diferença para os imigrantes e demais pessoas em situação de fragilidade social.
Crédito: Elizabeth Ann Colette/Flickr/Wikimedia Commons

Se eu tivesse um pouco mais de tempo para ficar na Alemanha eu aceitaria a oferta de Sabina, sem dúvida. Deixei com ela um cartão que preparei especialmente para a viagem, com meu e-mail, telefone e endereço do blog – pelo qual ela se mostrou interessada, aliás –e voltei a ajudar minha amiga Karina com as compras.

Voltei ao Brasil e desde então não tive mais contato com minha amiga do supermercado, mas isso é o que menos importa. Espero de verdade que ela consiga vencer as desconfianças e barreiras que ainda a impedem de chegar à faculdade, servindo como exemplo a tantos imigrantes como ela. E por que também não a mim no futuro, dependendo de onde estiver vivendo? Afinal, o nativo de hoje pode muito bem se tornar o imigrante de amanhã.

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