O estranho novo porta-voz de Donald Trump

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Donald Trump, presidente dos EUA, em discurso na Assembleia Geral da ONU (set/2017). Crédito: Cia Park/UN Photo

A apologia das armas de um lado, combinada com o discurso do ódio intolerante e supremacista de outro, resulta em gestos extremos de eliminação – nos EUA e em outros lugares

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves

Patrick Wood Crusius, um jovem branco de 21 anos natural de Dallas, perpetrou um dos famigerados ataques, sobre os quais já nos acostumamos a ter notícia nos Estados Unidos. O atentado ocorreu numa loja da rede Walmart, na cidade de El Paso, estado do Texas, na manhã de sábado, dia 3 de agosto de 2019. De repente, o jovem pôs-se a atirar indiscriminadamente sobre as pessoas. O resultado do massacre é estarrecedor: 22 mortos e mais de duas dezenas de feridos.

Convém deixar claro que, nessa cidade fronteiriça com o México, 8 em cada 10 habitantes provêm de países de língua hispânica, o que explica que 19 das vítimas fatais tenham origem latino-americana, sendo 8 mexicanos. Segundo a polícia que prendeu o atirador criminoso, e de acordo com uma espécie de “manifesto”, escrito horas antes por ele mesmo, seu ódio tinha como alvo os imigrantes latinos.

Mesmo que de maneira involuntária, o jovem Patrick Crusius tornou-se duplamente porta-voz do presidente dos Estados Unidos: seja em sua postura sobre as armas de fogo, quanto no discurso marcadamente antimigratório. Durante toda a campanha eleitoral, Trump sempre se manifestou favorável à compra, porte e uso de armas de fogo. Mas tal atitude bélica, longe de terminar com a corrida à Casa Branca, só fez aumentar após a tomada de posse como presidente. De fato, o debate sobre o “direito de autodefesa”, extensivo a todo cidadão estadunidense, jamais arrefeceu em suas intervenções como supremo mandatário do país. Desde que assumiu a presidência, já foram vários os massacres desse tipo, mas sua posição segue a mesma.

Mais grave ainda têm sido suas palavras, decretos e ações contra os imigrantes, em especial os que se originam de países latino-americanos ou de antecedentes árabes. Também neste caso, o refrão antimigratório, com direito a uso e abuso, foi uma das bandeiras principais de sua campanha eleitoral. Basta sublinhar, como emblemática, a repetida promessa da construção de um muro na fronteira entre Estados Unidos e México. Mas as coisas não ficaram por aí. De forma espetacular e ostensiva, logo no início do mandato, assinou um decreto contra a entrada de estrangeiros provenientes de determinados países de maioria muçulmana. Depois, através de entrevistas ou via internet, utilizou reiteradamente, e não sem boa dose de desprezo, o termo “invasão” para referir-se aos mexicanos, centro-americanos ou caribenhos que marcham desesperadamente em direção ao eldorado norte-americano.

Como se isso não bastasse, somente não endureceu ainda mais as leis de imigração porque o Poder Judiciário opôs certa resistência. O que não impediu, entretanto, que Donald Trump usasse todo seu poder para acelerar a repatriação dos “indocumentados”, chegando ao ponto extremo de separar filhos menores nascidos em solo estadunidense de seus pais estrangeiros. Um atrocidade que acabou por gerar imagens chocantes, que nem em tempos de guerra podem ser admitidas, como a de crianças aos prantos dentro de verdadeiras “gaiolas”. De resto, uma série de manifestações populares, no interior mesmo dos Estados Unidos, giraram o mundo em oposição a essa política racista, discriminatória e xenófoba.

Evidente que a apologia das armas, de uma parte, combinada com o discurso do ódio intolerante e supremacista, de outra, resulta em gestos extremos de eliminação dos “perigosos inimigos que ousam invadir” o nosso território! O outro, o diferente e o estrangeiro convertem-se facilmente em bodes expiatórios para toda e qualquer ameaça à ordem vigente. Mas semelhante postura resulta igualmente como eco de uma grande fatia da população branca, devidamente manipulada e instrumentalizada  em seu medo latente. 

Daí o reiterado apelo em favor das armas e contra os imigrantes na nova corrida eleitoral à Casa Branca que já está em curso. Aliás, sempre que lhe é possível, e sempre na contramão dos direitos humanos e do sentimento de horror deixado pelos massacres em série, Trump não deixa de trazer à tona seja o estímulo da venda de armas de fogo, seja a irritação e intransigência para com os imigrantes. Representa, simbolicamente, a causa e o efeito de uma extrema direita raivosamente exacerbada. Portavoz de um eleitorado obtuso e retrógado, não deixa por sua vez de criar seus próprios filhotes e porta-vozes.

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