O NÃO da Colômbia, por uma colombiana residente no Brasil

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A mensagem na imagem dispensa legendas. Crédito: Juan Andrés Bogado

O MigraMundo procurou colombianos que vivem no Brasil ou que estão na Colômbia para entender o resultado do referendo do último domingo (2), que negou o acordo de paz estabelecido entre o governo e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), principal grupo armado que atua no país, para tentar resolver o conflito que há décadas provoca mortes, dores e deslocamentos dentro e fora da Colômbia.

Foram dezenas de pessoas que retornaram e se dispuseram a falar sobre o resultado e o que sentiram a partir dele. Uma delas é Isabel Perez, que tem dupla nacionalidade (colombiana e brasileira) e atualmente vive em Porto Alegre, que enviou o relato abaixo, reproduzido na íntegra pelo MigraMundo.

Em breve o MigraMundo vai trazer opiniões e sentimentos de outros colombianos e de pessoas que têm conhecimento sobre o conflito no país, para tentar ajudar na tarefa de entender melhor esse tema tão complexo

O NÃO da Colômbia

*Por Isabel Perez

Com enorme abstenção e uma diferença estatística, ganhou o NÃO. Em tais condições, me atrevo a dizer que se tivesse ganhado o SIM com a mesma diferença, teríamos uns acordos tão impostos como a base para conflitos políticos prolongados. O NÃO nos permite a possibilidade de que essa polarização tente ser resolvida ainda no acordo.

Para alguns de nós, colombianos, num primeiro momento, esse NÃO dói, arranca lágrimas e tira o sono. Mas já levantamos pensando em como vamos construir o novo dia. Não gosto nada dos novos usos da palavra resiliência, mas se existe a definição desta em carne e osso, são as vítimas do conflito colombiano, que foram as principais atraiçoadas nesse plebiscito. Mas que continuam em pé, e pedindo para que o tempo de tranquilidade que têm começado a viver progressivamente durante os diálogos nos últimos 4 anos não volte atrás. E esse tem que ser o nosso compromisso.

Isabel: "Para alguns de nós, colombianos, num primeiro momento, esse NÃO dói, arranca lágrimas e tira o sono. Mas já levantamos pensando em como vamos construir o novo dia." Crédito: Isabel Perez/Arquivo pessoal
Isabel: “Para alguns de nós, colombianos, num primeiro momento, esse NÃO dói, arranca lágrimas e tira o sono. Mas já levantamos pensando em como vamos construir o novo dia.”
Crédito: Isabel Perez/Arquivo pessoal

É possível isso com o NÃO? Pois terá que ser, vamos dar um jeito. Se o problema é de egos políticos entre o ex-presidente comandante da campanha do NÃO e o presidente orgulhoso do SIM, ambos pegos de surpresa com o resultado, então vai ter que ser um piano tocado a quatro mãos. Mas os colombianos não vamos abrir mão da paz. Desta vez, mais uma, da mão de uma excelente equipe negociadora chegamos perto demais. E não vamos retornar. As FARC, por sua vez perceberam que o jogo político que lhe espera não é mole, e que depende muito da sua frieza e seriedade em manter as posturas para ganhar o desconfiado e imprevisível eleitorado colombiano.

No domingo (2), na jornada eleitoral, dada a minha dupla nacionalidade votei nas eleições em Porto Alegre enquanto queria estar dando meu SIM. Depois os lamentos cá e lá, porém a questão colombiana me toca muito mais e profundamente, pois esses acordos pretendiam sentar a base política para que, inclusive, possamos ter as decepções comuns das eleições brasileiras, com um maior espectro político, e sem mortos pelo caminho. Uma parte importante dos processos locais durante os diálogos em Havana foi o conhecimento mais amplo das consequências da guerra e isso tem nos mudado um pouco como sociedade.

Todos os colombianos sabíamos que se ganhasse o NÃO aos acordos de paz, mesmo que nem cogitássemos isso, a grande dificuldade seria explicar para o mundo. Explicar a Colômbia contemporânea para o mundo é o desafio que pode chegar a ser viciante. Esse foi o exercício dos que moramos fora durante este último mês, com saldos importantes de aprendizado próprio. Nós, não a explicamos, nós a vivemos sem entendê-la, sobrepondo um fato ao outro, continuamente.

A mensagem na imagem dispensa legendas. Crédito: Juan Andrés Bogado
A mensagem na imagem dispensa legendas.
Crédito: Juan Andrés Bogado

Sabemos, como fênix, gerar esperança dentro dos quadros mais desesperançadores. No fim desta segunda feira, duvido que muitos dos rostos que fecharam o dia de ontem desolados ainda se mantenham. A guerra deixa, a preços elevados demais e uma sociedade dividida em pobres e ricos, rural e urbana, também estas lições de recomeço e reconciliação constante. Num primeiro momento como estratégia de sobrevivência, depois como aprendizado social.

Já disse Borges, ser colombiano é um ato de fé. Vivemos esta pátria apaixonadamente, botamos todo o nosso coração, vísceras, nervos e epiderme em ser colombianos. E isto não é um simples determinismo, mas uma identidade simbiótica construída através dessa história violenta e frenética da qual a versão atual são a coexistência de guerrilha, paramilitares, exército, civis, processo de paz em Havana, e rotina política típica de 2016 neste continente.

Para o mundo, resta do plebiscito a pergunta que não quer calar em todas as democracias. Estamos sendo representados? Votar nos moldes que votamos na era das redes sociais é a nossa melhor forma de participação democrática? Creio que não, e o plebiscito colombiano se une a muitos mais exemplos do fracasso disto. As urnas não estão comportando nossos anseios de paz, e participação.

Por fim, tenho dificuldades com mapas eleitorais, por simplificarem muito as situações, deixando só duas cores. No fim as situações são muito mais diversas e a dicotomização leva à imediata intolerância do oposto. Proponho, da Colômbia, o seguinte mapa elaborado pela agência AFP que sobrepõe as regiões de FARC e os votos diferenciados por porcentagens. Houve vítimas que votaram pelo SIM contundentemente, Bojayá, cuja história merece ser conhecida, receberam o pedido de perdão das FARC na quinta feira prévia ao plebiscito, sua votação: 95% SIM. Mas também há vítimas que votaram não, em alguns povoados de Antioquia e as regiões de nascimento das FARC, por exemplo. Talvez o acordo não esteja suficientemente claro para eles, ou ao seu critério não garante a não repetição que promete e que a população almeja, de fato.

colombia_mapa_referendo

A Colômbia mantém a sua sina de ter uma história circular, onde periodicamente podemos resgatar falas e escritos de várias décadas atrás como se fosse hoje, mas apesar disso não está parada. Enquanto escrevo isto, surgem iniciativas nas cidades onde se votou NÃO para uma outra participação mais ativa que nas urnas. E desta vez, a paz será nossa e vamos ter que concordar mais e exigir mais dos atuais líderes para fazer ela acontecer.

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