Por Mariana Kuhlmann
Em março deste ano, uma humorista brasileira chamada Fernanda Arantes publicou um vídeo em suas redes sociais para relatar um episódio de xenofobia que sofreu no aeroporto de Berlim, no balcão de uma companhia aérea alemã. Em seu relato, a humorista afirma que, ao buscar atendimento para pagar uma taxa extra referente a sua bagagem, enfrentou dificuldades para se comunicar em alemão, apesar dos seus esforços. Diante da situação, ela propôs que o atendimento seguisse em inglês, o que lhe foi negado pela funcionária que afirmou: “Não, já está falando em alemão até agora, agora vai falar alemão”. A gravidade dos atos xenofóbicos escalou de tal forma, que o atendimento foi interrompido, segundo a vítima, quando a funcionária verificou no seu passaporte que ela era brasileira. Segundo a humorista, ela foi solicitada a retornar para o seu lugar na fila.
Já em junho, um balneário localizado em Halle, no estado de Sachsen-Anhalt, começou a impedir a entrada de banhistas que não falavam alemão. Sim, o tamanho do estranhamento causado por essa notícia é compatível com o absurdo de tal medida: o domínio comunicativo em alemão foi usado como critério para autorizar o acesso a um espaço público. A repercussão na imprensa alemã foi negativa, o que fez com que a administração do balneário reagisse, alegando que não se tratava de xenofobia, mas sim de uma medida de segurança implementada após uma criança ter quase se afogado, pois seus responsáveis, supostamente, não teriam compreendido as normas de segurança do local. A situação por si só já é preocupante, mas ao contextualizarmos em termos políticos, torna-se ainda mais: esse balneário se localiza no estado alemão em que a AfD, partido de extrema direita reconhecido pelo seu discurso antimigração, se elegeu.
Ambos os casos, apesar de suas particularidades, podem ser reunidos em uma dolorosa constatação: ambos demonstram a manifestação de uma modalidade de violência que não deve ser relegada a segundo plano na agenda migratória – a violência linguística.
Embora haja valiosos estudos sobre discriminação e preconceitos linguísticos, é importante reconhecer que muitas vezes eles acabam sendo indevidamente acantonados nas políticas migratórias. Situações como as relatadas são exemplos de uma violência que atinge a pessoa migrante e reverbera tanto na sua posição enquanto sujeito social quanto na sua subjetividade. Quando uma funcionária age de forma truculenta e não colaborativa ou quando uma placa alertando a interdição de não falantes de alemão é exposta, sabemos que não estamos falando apenas de bagagens e piscinas. Estamos falando sobre a avaliação (duvidosa) das competências linguísticas de um sujeito, que opera para cercear e interditar espaços.
É equivocado, nesses termos, compreender a violência linguística apenas como resultado de um insulto ou xingamento oriundo de uma fala preconceituosa. A partir dela são constituídos sentidos violentos que extrapolam os limites da ofensa e avançam de tal modo que o sujeito migrante passa a ser reduzido a uma presença subalterna.
Episódios como os descritos não acontecem em um vazio social. Eles se inserem em um cenário alemão marcado simultaneamente pela persistência de atitudes xenofóbicas e pela crescente necessidade de trabalhadores internacionais.
Alguns dados estatísticos dimensionam essa afirmação. Segundo um estudo da Statista (2024), 21,8% dos alemães entrevistados foram considerados abertamente xenofóbicos por concordarem com afirmações como “A República Federal está sendo perigosamente invadida por estrangeiros”. Ainda segundo esse estudo, foram registrados em 2024 cerca de 1.420 atos de violência com motivações xenofóbicas. Em outro estudo, com 9.509 pessoas de origem migrante, feito também pela Statista entre 2024-2025, foi constatado que 41% dos entrevistados alegaram sofrer algum tipo de discriminação pelo menos uma vez ao mês.
Já a gravidade do contrassenso desses dados se manifesta a partir de outra estatística: a Fundação Bertelsmann alerta que a Alemanha precisa de 288 mil trabalhadores migrantes por ano para preencher postos de trabalho vagos pelo envelhecimento da população e, assim, evitar até 2040 a recessão econômica resultante do encolhimento da força de trabalho.
O que as estatísticas auxiliam a dimensionar e o que os casos descritos contribuem para ilustrar são os riscos que se materializam e operam por meio de práticas discriminatórias violentas, sejam elas linguísticas, sejam elas de outra ordem. A recomendação que surge a partir desse contexto de discussão é a necessidade de acompanhar, mapear denúncias e propor práticas resolutivas que visem à conscientização dos atores sociais envolvidos sobre as reverberações das violências praticadas em contexto migratório, sobretudo as de cunho linguístico, uma vez que elas manifestam discursos políticos racistas. Seja na sala de aula de ensino de línguas, seja nos processos de recrutamento de trabalhadores, é importante fomentar mecanismos de vigilância para evitar e combater o silenciamento do sujeito migrante. Isso porque, quando a língua deixa de ser um meio de comunicação e passa a funcionar como um instrumento para impedir o exercício da cidadania, reconhecemos que a discussão já não é mais sobre falar a língua do país em que se vive. Mas, sim, sobre ser considerado menos legítimo por não falar essa língua em conformidade com métricas que servem ao propósito da exclusão.
Sobre a autora
Mariana Kuhlmann é pesquisadora na área de Linguística Aplicada especializada em migrações, professora de alemão e diretora pedagógica no Instituto Berliner
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