Onda internacional de supremacismo

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Mesquita Masjid Al Noor, em Christchurch (Nova Zelândia), que foi alvo de ataque terrorista cometido por supremacista branco. Crédito: AAP/Martin Hunter, CC BY-SA

Ser supremacista consiste em nutrir uma onda de ódio – aberto, consciente e declarado – a todo e qualquer pensamento dissonante e alternativo

Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

No dia 15 de março de 2019, na cidade de Christchurch, Nova Zelândia, um australiano – num dos piores massacres daquele país – abriu fogo com armas semiautomáticas sobre os fiéis de duas mesquitas. Os atentados deixaram um rastro trágico de 50 mortos e dezenas de feridos, tendo sido transmitidos ao vivo pelas redes sociais do Facebook, através de uma câmera anexada à cabeça do terrorista. As vítimas eram imigrantes refugiados do Paquistão, Índia, Malásia, Indonésia, Turquia, Afeganistão, Bangladesh e Síria. Ao que tudo indica, o autor inspirou-se no ataque do norueguês Anders B. Breivilk, que em 2011 assassinou 77 pessoas na ilha de Utoya, Noruega.

Quando se fala de supremacismo, não se trata apenas do rejeição discriminatória para com o “outro, estranho, diferente”. Também não é somente intolerância fundamentalista de caráter cultural ou religioso. Tampouco se trata de aversão xenofóbica e preconceituosa de natureza étnica. O tema não se restringe, ainda, a um simples rechaço à entrada do imigrante que vem de fora. Ser supremacista consiste em nutrir uma onda de ódio – aberto, consciente e declarado – a todo e qualquer pensamento
dissonante e alternativo; ou ainda, em manifestar forte rechaço às ideias e forças de esquerda, tidas genericamente como “ameaça comunista” ao status quo. Daí seu teor reacionário e extremista.

O conceito supremacismo combina tudo isso, mas vai muito além. Tem a ver com o sentimento da superioridade da raça branca frente a todas as demais raças que habitam a face da terra. Na guerra da secessão, Estados Unidos, encarnou-se nas falanges e no fogo da Ku Klux Klan, para o combate aos negros africanos e descendentes. No decorrer da 2ª Guerra Mundial, encarnou-se no movimento nazifascista, para o combate aos judeus, comunistas, eslavos, “inválidos”, etc., através das câmeras de
gás. Na Noruega e Nova Zelândia, como vimos acima, encarnou-se em dois franco atiradores, supremacistas convictos que, através de massacres em massa e de forma espetacular, procuravam combater todo tipo de estrangeiro que tivesse a ousadia de miscigenar-se ao povo autóctone.
Tentavam proteger-se contra a degradação, rebaixamento ou degeneração da raça superior.

Em todos os casos citados, trata-se, pura e simplesmente, de suprimir, eliminar, liquidar, aniquilar o outro. Uma limpeza generalizada, ao mesmo tempo racial, étnica, social, política, ideológica, cultural, religiosa… enfim, regenerativa. As raças inferiores, quem quer que sejam e venham de onde vierem, devem ter seus direitos anulados diante da necessidade do Lebensraum ou Wohnraum (“espaço vital”, em alemão) à sobrevivência da raça superior. A raça branca, pura, ariana, tem a supremacia sobre as
raças não-brancas, de outras origens. Disso resulta a ideologia de que ela, e somente ela, tem a capacidade natural de dominar os demais povos, tanto do ponto de vista social e econômico quanto do ponto de vista político-cultural.

No fundo, deparamo-nos aqui com a noção darwiniana da seleção natural, em sua teoria da origem das espécies, segundo a qual o “espaço vital” deve ser subtraído às espécies inferiores para garantir o futuro da raça pura.

Não estamos longe das ideias retrógradas do “ideólogo sem ideologia” Olavo Luiz Pimentel de Carvalho, representante do conservadorismo brasileiro e mundial. Vem sendo chamado por distintos órgãos da mídia como o “mago da Virgínia”, Estados Unidos, onde vive e leciona pelas redes sociais
da Internet. Seu nome emergiu juntamente com a campanha eleitoral e a vitória de Jair Messias Bolsonaro à presidência da República. Com efeito, bom número dos que compõem o atual governo se diz aluna e/ou seguidor de Olavo de Carvalho. Além do clã Bolsonaro, destacam-se entre eles a
Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Regina Alves, e o ex-Ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez.

Semelhantes ligações explicam a obsessão do atual governo no
sentido de “limpar” a administração, e particularmente alguns ministérios, de uma suposta cultura de esquerda, marcadamente comunista. Aqui, como disse alguém, “não só o futuro é incerto, mas também o passado”. Basta conferir a tentativa de reescrever a história, convertendo o golpe de 1964 e
a ditadura militar em “ação necessária para impedir o comunismo”; ou o horror do Holocausto como tendo sido perpetrado pelo movimento de esquerda.

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