Palestina, quando a terra natal se torna uma amada intocável

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Senhora refugiada segura a chave de sua antiga casa na Palestina. Foto está em um centro comunitário no campo de refugiados de Shatila, no Líbano (out/2017). Crédito: Bruna Kadletz

O aspecto mais cruel de deslocamentos forçados prolongados é cair em zonas de esquecimento coletivo, em locais onde a injustiça social e abandono político são normalizados

Por Bruna Kadletz
Em Beirute (Líbano)

No outono de 2017 eu conheci três anciãos palestinos no Campo de Refugiados Shatila, em Beirute, no Líbano. Os três eram sobreviventes do Al-Nakba, que significa ‘desastre’ ou catástrofe’. A expressão em árabe refere-se ao período do nascimento violento do Estado de Israel em 1948, quando centenas de milhares de palestinos foram expulsos de suas vilas e forçados a uma existência em exílio. Muitos dos sobreviventes e seus descendentes ainda vivem como refugiados no Líbano, sem o direito de retornarem a sua terra-natal.

Para os anciãos, memória, história oral e tradição são pilares essenciais que sustentam a identidade palestina. De outra forma, dada as dificuldades de uma existência em exílio em campos de refugiados, as gerações nascidas expatriadas correm o risco de esquecerem não somente quem são, mas também sobre a terra de seus ancestrais.

Para os milhões de refugiados ao redor do mundo, a terra-natal é uma amada intocável, imaginada na doçura e dor de memórias, e visitada somente nos imaginários da contação de histórias e fotografias. Muitos palestinos carregam consigo as chaves das suas antigas casas na Palestina, simbolizando o desejo inabalável de retornarem para o seu lar. O sonho da casa é o ar que respiram.

Anciãos palestinos sobreviventes do Al -Nakba que vivem no campo de refugiados de Shatila, no Líbano.
Crédito: Bruna Kadletz

Segurando um misbaha em uma de suas mãos, enquanto move as contas da oração pelos seus dedos, Abu Mahmoud e os outros anciãos contam sobre as feridas profundas da ocupação e o trauma transgeracional, assim como sobre comunidade e laços com a terra. Nas antigas vilas na Palestina, compartilhamento e senso de comunidade eram valores centrais integrados nos relacionamentos pessoais e no sistema econômico.

Para os moradores das vilas, a terra tinha um significado profundo – envolvendo devoção para o solo por onde as figueiras, oliveiras, trigo e outras plantações cresciam – e não era vista como algo destituído de valor e puramente com preço financeiro. Antes de venderem os frutos da colheita, a tradição ditava que parte da colheita deveria ser reservada para a comunidade da vila. Esta prática garantia que todos os moradores tivessem acesso a comida de qualidade e suficiente para todos.

Este campo, onde os anciãos residem, fica longe das doces memórias da infância. Shatila, junto com outros dez campos de refugiados em território libanês, foi erguido em 1949, em resposta ao êxodo palestino. Hoje, existem aproximadamente 450 mil palestinos registrados nos campos. Desde o início da guerra na Síria em 2011, com chegada dos refugiados sírios, os campos vivenciam um incremento expressivo na sua população.

Como brasileira, quando eu entrei pela primeira vez num campo de refugiados urbano no Líbano, pensei nas nossas favelas. A estrutura e condições de vida nas favelas e campos urbanos são muito semelhantes: superpovoamento, construções precárias, falta de saneamento básico e pobreza extrema permearam meus pensamentos. Favelas e campos urbanos são bolsões de abandono político e social, zonas de exclusão e punição, onde os direitos humanos mais fundamentais e condições dignas são, muito frequentemente, inatingíveis.

Na minha mais recente visita ao Líbano, em abril de 2019, minha prima Mariana estava comigo. Como era sua primeira viagem para a região, eu a aconselhei a não beber água da torneira, nem mesmo tocar a água do campo. Mas, num momento de esquecimento, ela lavou sua boca com água da torneira e sentiu na pele o sabor salgado e nauseante da água. Refugiados usam esta mesma água para tomar banho, escovar os dentes e lavar as mãos. Eu já queimei meus olhos com a água do campo.

Segundo um morador local, a água distribuída nos campos é altamente contaminada. Com a intenção de mascarar a poluição, estações de tratamento injetam grandes volumes de químicos que deixam a água salgada.

Alguns campos de refugiados têm outra característica singular: o sistema de distribuição de água não é subterrâneo. A água é distribuída por meio de tubulações que se trançam com fios elétricos, formando um telhado mortal que cobre grandes porções dos campos. Quando ocorre vazamentos, os morados ficam expostos a choques elétricos, que em muitas ocasiões são mortais.

Emaranhado de canos de água e fios elétricos no campo de refugidos Bourj el-Barajneh, no Líbano (out/2017).
Crédito: Bruna Kadletz

Como os palestinos que vivem no Líbano não possuem o direito de adquirirem imóveis e são negados o exercício de mais de 70 profissões, sua existência como refugiados é obscura. Eles também não podem construir novas casas além dos muros dos campos. A única opção que lhes resta é a expansão vertical e aproveitar cada metro quadrado do território do campo. Esta restrição resulta em construções muito próximas e ventilação deficiente. Nas ruelas estreitas que formam as vias de passagem, o sol nunca brilha.

Ao caminhar por essas ruelas, sempre me lembro da expressão popular o sol nasce para todos. Essa otimista visão de vida é sustentada pelo entendimento que todos desfrutam de oportunidades semelhantes. Contudo, ao testemunhar a exclusão de refugiados palestinos no Líbano e as privações que são submetidos no seu dia-a-dia, me parece que, o sol não nasce para aqueles que vivem nos guetos e ruelas, no sentido literal e figurativo da expressão. Tristemente, um número crescente de deslocados ao redor do mundo também habitam locais escuros de destituição e injustiça.

Para agravar a situação, em agosto de 2018, a administração do presidente americano Donald Trump anunciou cortes financeiros para a UNRWA, Agência das Nações Unidas que presta assistência aos cinco milhões de refugiados palestinos. Por muitos anos, o Estados Unidos contribuiu com cerca de um quarto do orçamento da agência. Esta decisão faz parte de uma estratégia para submeter o povo palestino em posições de mais vulnerabilidade política e econômica. É uma tentativa de silenciá-los e deletá-los do território global. Os cortes no orçamento já impactam os projetos de proteção e integração, principalmente os relacionados à educação e assistência médica.

Ainda assim, apesar de toda as adversidades, palestinos permanecem resilientes. Quando eu penso neste povo, eu vejo as oliveiras que eles tanto amam. Oliveiras são árvores resistentes a seca prolongada e crescem em solos precários. Esta imagem reflete a força do povo palestino. Oliveiras e palestinos nos ensinam a oferecer frutos mesmo em condições áridas.

Plantações de oliveiras em uma vila perto de Ramallah, na Palestina, em outubro de 2017. Crédito: Bruna Kadletz

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