Parceria entre Brasil e Suíça levará migração à Bienal de Arquitetura de SP

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Preparação de intervenção urbana promovida pelo We Are Here Zürich em Halle (Alemanha). Crédito: Divulgação

Performance no evento quer fazer com que as pessoas “sintam” e “experimentem” os aspectos positivos que os migrantes trazem, por meio de atividades conjuntas no centro da capital paulista

Por Rodrigo Borges Delfim
Com colaboração de Márcia Passoni
Em São Paulo (SP)

Fazer com que as pessoas “sintam” e “experimentem” os aspectos positivos que os migrantes trazem. Este é o objetivo da atividade “Todos os Nômades”, que vai acontecer entre os dias 15 e 19 de novembro na região central de São Paulo.

A intervenção, que acontece em meio à 11ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, é um projeto conjunto do coletivo “We Are Here Zürich”, da Suíça, e do suíço-brasileiro Arquipélagos Urbanos, com apoio da Companhia Munguzà de Teatro. Ela consiste em debates, atividades coletivas e performances com o objetivo de construir um ambiente de intercâmbio e aproximação entre brasileiros e migrantes e refugiados, independente da origem.

Entre os dias 15 e 18, as atividades acontecerão ao ar livre na rua dos Gusmões, 47, próximo ao metrô Luz. Para participar, basta solicitar inscrição pelo e-mail travessiaurbana@gmail.com; para o dia 19, no mesmo local, está previsto um brunch festivo, aberto ao público, a partir das 12h.

“Um dos aspectos mais surpreendentes das nossas experiências prévias com a problemática das migrações foi a descoberta da quantidade de energia positiva que pessoas que tiveram que deixar tudo para trás estavam dispostas a empregar para buscar meios aceitáveis de viverem em sociedade. Experimentar essa resiliência e generosidade em contextos tão difíceis foi uma lição que nos transformou, um acontecimento precioso a partir do qual aprendemos muito e absolutamente diferente de tudo o que já apareceu na mídia relacionado à migrações”, explica Manon Fantini, integrante do We Are Here Zürich, que estará em São Paulo para participar das atividades.

Preparação de intervenção urbana promovida pelo We Are Here Zürich em Halle (Alemanha).
Crédito: Divulgação

Em entrevista exclusiva ao MigraMundo, Manon fala um pouco mais sobre como surgiu a parceria no Brasil, no que consiste o projeto e quais os próximos passos (dentro e fora da Suíça). “Decidimos estabelecer essas iniciativas para fazer com que as pessoas “sintam” e “experimentem” todos os aspectos positivos que os migrantes trazem através de suas histórias pessoais, contexto cultural, conhecimentos, habilidades, comidas, etc… ao invés de deixar que imagens e interpretações limitadas se estabeleçam”.

MigraMundo: Como surgiu o “We are Here Zürich”? Vocês buscaram inspiração em alguma outra iniciativa?
Manon Fantini: “We are here Zürich” surgiu a partir de uma iniciativa espontânea de um grupo de amigos vindos de diferentes áreas (arquitetura e curadoria), que se conectaram através de um desejo em comum: participar ativamente da problemática da migração. Após ter experimentado a temática em situações diferentes através de projetos anteriores, da costa de Lesbos (Grécia) até a “Selva” de Calais (nome depreciativo pelo qual era chamado o campo de refugiados que existia ao norte da França), pensamos que seria interessante nos beneficiarmos da nossa experiência profissional para organizar workshops em Zurique, com atividades abertas a todos, que poderiam ser oportunidades para refugiados se interligarem com cidadãos locais e para moradores de Zurique conhecerem os refugiados, dos quais tanto se ouve falar, mas geralmente a impressão que dá é que estão muito distantes.

MigraMundo: Como surgiu a oportunidade de participar da 11º Bienal de Arquitetura em São Paulo?
Manon Fantini :Através de amigos, ouvimos sobre a intenção de “Arquipélagos Urbanos” de fazer uma proposta para essa Bienal, possivelmente com outros parceiros. Descobrimos o seu projeto de reexplorar (caminhando) a geografia de uma cidade. Achamos que isso seria uma abordagem complementar para a nossa estratégia usual, que é de sempre tomar ações visíveis em um local fixo. Imaginando o projeto em um local onde não temos nenhum conhecimento prévio da situação, entendemos que uma grande experiência seria descobrir onde os refugiados se localizam na cidade, ou em que lugar podem de alguma forma ser encontrados. Contatamos a “Arquipélagos Urbanos” e rapidamente veio a ideia de fazer uma proposta conjunta, que incluiria caminhadas para explorar onde estão os pontos de chegada de migrantes na cidade e um convite aos envolvidos para participar de um processo construtivo que aconteceria em um local específico.

MigraMundo: Por que vocês escolheram uma caminhada pelo centro de São Paulo para falar de migrações e cidades?
Manon Fantini: Escolhemos o centro da cidade como um ponto fixo para instaurar o processo de construção, por causa da grande diversidade de pessoas que isso permitiria alcançar, estejam elas relacionadas ou não com a questão migratória. Estávamos procurando um local onde pudéssemos construir “ao ar livre” e facilmente convidar pessoas de qualquer origem para participar do workshop de construção. Felizmente, encontramos o “Teatro de Contêiner Mugunzà” que aceitou nos receber durante o projeto. Ainda não sabemos onde os refugiados e novos migrantes podem ser encontrados na cidade, e descobrir onde os centros de acolhida e organizações de auxílio estão é parte do nosso objetivo. O centro da cidade é o ponto de partida de onde iniciaremos nossas explorações e de onde partirão as excursões para diversos lugares.

MigraMundo: A migração é um assunto sério na Europa, com partidos de extrema-direita espalhando medo e ódio através do debate sobre o tema. Como esse contexto influenciou “We Are Here Zurich”?
Manon Fantini: Essa questão está no núcleo das atividades da “We Are Here Zurich”. Um dos aspectos mais surpreendentes das nossas experiências prévias com a problemática das migrações foi a descoberta da quantidade de energia positiva que pessoas que tiveram que deixar tudo para trás estavam dispostas a empregar para buscar meios aceitáveis de viverem em sociedade. Conhecemos pessoas que haviam sobrevivido a experiências extremamente traumáticas e ainda assim mantinham a sua curiosidade, criatividade e uma motivação inacreditável para se engajar em projetos construtivos. Além disso, cada pessoa que conhecemos tinha muito a nos oferecer em termos de valores humanos e participação. Experimentar essa resiliência e generosidade em contextos tão difíceis foi uma lição que nos transformou, um acontecimento precioso a partir do qual aprendemos muito e absolutamente diferente de tudo o que já apareceu na mídia relacionado à migrações. Na Suíça, há grandes exemplos de imagens estereotipadas usadas por repetidas vezes pela extrema direita para espalhar medo e ódio. Decidimos estabelecer essas iniciativas para fazer com que as pessoas “sintam” e “experimentem” todos os aspectos positivos que os migrantes trazem através de suas histórias pessoais, contexto cultural, conhecimentos, habilidades, comidas, etc… ao invés de deixar que imagens e interpretações limitadas se estabeleçam.

MigraMundo: Em que outros lugares a “We Are Here Zurich” já apresentou suas atividades?
Manon Fantini: Em Zurique, nossos projetos acontecem sempre no mesmo lugar, em uma recepção temporária no centro da cidade na qual conhecemos os residentes locais e desenvolvemos projetos cooperativos. Pela primeira vez, nesse verão, fomos convidados a fazer um projeto para uma galeria de arquitetura na cidade alemã de Halle (Saale). Podemos dizer que desde que a “crise” de refugiados tem começado a impactar fortemente em toda a Europa, provavelmente poderíamos encontrar nessa cidade refugiados e migrantes que se interessariam em participar de um processo construtivo. Também assumimos que deveria haver mais organizações com propostas similares para facilitar a integração ao que pode ser visto em Zurique, e que elas também poderiam se interessar em participar do projeto. Através do projeto de construção, em uma semana, pudemos confirmar essa hipótese e ele criou uma situação que permitiu que outros moradores da cidade encontrassem essas “novas participações”. Essa experiência nos encorajou a instigar ações similares em diferentes locais. O trabalho no Brasil nesse sentido é parte desse projeto.

Intervenção na cidade de Halle (Alemanha), promovida pelo We Are Here Zürich.
Crédito: Divulgação

MigraMundo: O que vocês sabem sobre o atual debate das migrações no Brasil?
Manon Fantini: Não muito. A ideia do projeto, em termos gerais, é descobrir exatamente isso! É interessante notar que quando mencionamos o projeto por aqui (na Suíça), muitas pessoas tendem a perguntar: Ah… mas no Brasil tem mesmo refugiados e migrantes?” Através da preparação do projeto, descobrimos que isso é de fato um tema importante, mas estamos muito curiosos para descobrir a importância e a resposta à problemática, tanto do ponto de vista dos migrantes quanto dos cidadãos brasileiros.

MigraMundo: Que tipo de efeitos vocês acham que as atividades da “We Are Here Zurich” podem causar na Bienal de Arquitetura?
Manon Fantini: Em arquitetura, como em muitas outras áreas, a “participação” é muito usada como uma estratégia para desenvolver soluções para problemas específicos. Nesse sentido, a migração tem inspirado muitas abordagens participativas ao redor do mundo, assim como os fluxos migratórios tem intensificado e transformado nosso meio social e arquitetônico, trazendo incontáveis questões espaciais e sociais. Não há motivos para pensar que esse fenômeno não vai se intensificar nos próximos anos. No contexto de uma exibição que visa abrir o debate das artes e arquiteturas nos Estados, não temos respostas em termos de “o que” realmente deveria ser feito em relação a essas questões. Mas de fato acreditamos que é essencial explorar o “como” trabalhar juntos pode ser testado e experimentado. Que processo permite que todas as habilidades e ideias criativas sejam reconhecidas quando participantes vem de contextos sociais e culturais extremamente diversificados? Como toda essa múltipla força criativa que está engajada nessa problemática específica pode ser integrada ao projeto? Como podemos criar uma equipe versátil e que faz acontecer? Esperamos compartilhar nossas crenças e criar situações nas quais trabalhar juntos já seja um projeto, que provoque questões que podem refletir no trabalho não apenas de outros arquitetos, mas também de outros cidadãos engajados.

MigraMundo: Vocês têm novos planos depois dessa atividade em São Paulo? Caso sim, poderiam falar a respeito?
Manon Fantini: Temos sim! Em Zurich, vamos prosseguir com nosso projeto em uma base regular que se formou ao redor da comunidade. Também estamos planejando iniciativas similares em outros lugares da Suíça e também outros países. Como você mencionou acima, há países onde ainda é muito difícil despertar o debate sobre a problemática da migração, apesar de ela claramente existir. Nesses lugares, também há voluntários iniciando projetos que facilitam a integração e o engajamento na solução de questões que a população normalmente se recusa a enfrentar. Estamos trabalhando para estabelecer iniciativas nesses contextos, esperamos encorajar o diálogo e entrar em contato com agentes individuais que estão encontrando meios de se engajar, apesar da pressão que pesa sobre seus ombros. Se a problemática é global, temos muito a aprender com a experiência uns dos outros e, é claro, a solidariedade é que nos dá essa força. Estamos aguardando para conhecer melhor as abordagens inovadoras que são desenvolvidas no Brasil e que podemos levar para a Suíça, e também para futuros parceiros em potencial.

Todos os Nômades
Data e hora: de 15 a 18 de novembro, a partir das 10h; em 19 de novembro, a partir das 12h
Local: Rua dos Gusmões, 47 – Luz, São Paulo (SP) – próximo às estações Luz da CPTM e do metrô
Entrada: gratuita – inscrições pelo e-mail travessiaurbana@gmail.com
Informações: evento no Facebookhttp://todososnomades.net/

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