Primeiro dia do seminário no MI traz desafios sobre museologia e identidades

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Como imaginar museus, que em geral são identificados apenas com o passado, como sendo agentes de debate da temática migratória também do presente e do futuro? Essa função não só é necessária como já é desenvolvida mundo afora por diversas instituições em diferentes níveis. E parte dessas experiências e desafios estão presentes no Seminário Internacional: Museus, Migrações e Identidades, que começou nesta quinta-feira (26) no Museu da Imigração de São Paulo e vai até sábado (28).

O seminário se insere na nova linha museológica adotada pelo Museu, iniciada após um longo processo de restauro do espaço físico e do acervo do antigo Memorial do Imigrante (ainda em curso), que engloba novas abordagens sobre a migração e os deslocamentos humanos.

“Mais do que nunca vivemos esse fenômeno dos deslocamentos humanos. Ao falarmos de imigração falamos também de diversidade, de alteridade, da busca por uma sociedade mais justa. E os museus têm papel fundamental nisso”, destaca o secretário estadual de Cultura de São Paulo, Marcelo Mattos Araújo.

Mesa de abertura do seminário no Museu da Imigração. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Mesa de abertura do seminário no Museu da Imigração.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

O seminário é fruto de uma parceria do Museu da Imigração e da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo com o Consulado Geral dos Estados Unidos na capital paulista, com apoio dos Consulados Gerais da Argentina e Reino Unido. “Assim como os EUA, o Brasil também é feito por imigrantes. A imigração fala do coração das pessoas, das suas histórias. Este é o espírito deste projeto e dessas pessoas”, apontou Rakesh Surampudi, representante do Consulado Geral dos EUA no evento.

Desafios da museologia

Após a mesa inaugural, o período da manhã foi ocupado por uma visitação livre dos participantes do seminário às exposições do Museu da Imigração. Já durante a tarde ocorreram os dois primeiros debates do evento.

O primeiro deles tratou da transformação de antigas hospedarias em museus sobre imigração, a partir dos exemplos da Ilha das Flores (RJ), do Ellis Island Immigration Museum (Nova York) e do próprio Museu da Imigração de São Paulo.

Local por onde passaram cerca de 11 milhões de imigrantes que ingressaram nos Estados Unidos, Ellis Island é apontada como uma espécie de referência quanto a museu sobre migrações. E além de ajudar a guardar a vasta memória produzida por esse movimento, a entidade também procura dialogar com o presente, tentando fazer o visitante pensar-se como imigrante. “Migração é um processo em processo contínuo. Por isso, o museu encoraja e convida os visitantes a se verem eles próprios como imigrantes, pensar sobre suas histórias. E elas são fantásticas”, resume Diana Pardue, que representou o museu nova iorquino no seminário.

Musealização das antigas hospedarias foi tema da primeira mesa do seminário. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Musealização das antigas hospedarias foi tema da primeira mesa do seminário.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Coordenador do Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores (RJ), o professor Luís Reznik explica que essa antiga hospedaria não funciona exatamente como um museu e que ainda conhece-se pouco sobre a história desse local, mas ressalta a existência de um projeto de musealização já em curso. “Na Ilha das Flores o que existe é um museu a céu aberto. Há grande conhecimento sobre sua importância, mas há pouco de sua história, há pouca documentação. Então veio o projeto inicial de estudar a Ilha das Flores e fazer a extensão universitária sobre sensibilização da imigração dos deslocamentos migratórios e da formação social brasileira”.

Já Odair Paiva, professor da área de História da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), vê a musealização da antiga Hospedaria do Brás como um fenômeno bem mais complexo, em virtude das identidades já cristalizadas em São Paulo. “A musealização será sempre um processo em curso, um ponto de chegada e de partida, composto por intencionalidades e disputas, uma releitura do passado feita pelo presente. Todos nós queremos ver nossas representações do passado no presente. E aí é o campo da disputa, que está posto“, destaca.

O professor ainda criticou a transferência da documentação produzida pela antiga Hospedaria do Brás do então Memorial do Imigrante para o Arquivo do Estado de São Paulo, ocorrida em 2010. “Essa transição precisa ser melhor pensada pelo poder publico”.

Diferentes identidades e multiculturalidade

Já a segunda mesa tocou em um ponto bastante caro para a museologia: as diásporas e fluxos migratórios, considerando toda a série de conflitos que essa movimentação naturalmente provoca nas sociedades, em especial quanto às identidades e o contexto multicultural de hoje. A mesa foi composta por representantes do MAE (Museu de Arquitetura e Etnologia da USP), do Museu Afro-Brasil e também do futuro Museu Judaico de São Paulo, a ser aberto em meados de 2016.

No auditório, participantes do presente são "espiados" pelos antigos acolhidos pela Hospedaria do Brás. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
No auditório, participantes do presente são “espiados” pelos antigos acolhidos pela Hospedaria do Brás.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Para Maria Cristina de Oliveira Bueno, do MAE-USP, lembrou que os museus são reflexos dessas diferentes diásporas. “Nesses 25 anos foi importante entender as marcas que esse fluxos migratórios provenientes dos museus deixaram e de como poderiam entrelaçar em uma nova instituição, além dos conflitos e disputa de identidades”.

Já Ana Lúcia Lopes, representando o Museu Afro-Brasil, explica que a instituição pretende fazer uma releitura sob ponto de vista de um lado excluído da população. “O Museu Afro-Brasil vem na perspectiva de grafar uma nova identidade nacional a partir das diásporas afro-brasileiras.”

Por fim, Roberta Sundfeld, uma das seis curadoras e atual diretora-executiva do futuro Museu Judaico, ressalta a importância de haver um espaço destinado á memória dos judeus a esclarece qual será o espírito do museu. “A mensagem do Museu Judaico será de inserção na sociedade brasileira, tirar o preconceito sobre o judeu e trazer conhecimento”.

Encerrando os debates do primeiro dia, a diretora-executiva do Museu da Imigração, Marília Bonas, frisou que a multiculturalidade não pode anular as experiências culturais de cada grupo. “Mostrar essa multiculturalidade sob o princípio da equidade é o desafio de qualquer museu”.

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