Projeto Refugi tem oficinas de música para refugiados e orquestra com instrumentistas de todo o mundo

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Orquestra Mundana Refugi durante apresentação aberta na Praça da Liberdade, em São Paulo: Crédito: Lya Amanda Rossa/MigraMundo

Além de músicos brasileiros, a orquestra tem participantes de Cuba, França, Guiné, Congo, Haiti, Palestina, Irã, Tunísia e Síria

Por Lya Amanda Rossa
Em São Paulo (SP)

A música como uma linguagem que transcende fronteiras e pode ser uma ferramenta de acolhimento: esse é o objetivo do Projeto Refugi, promovido pelo SESC São Paulo, através de oficinas de música, ensaios abertos e uma orquestra com a participação de migrantes e refugiados.

Clara Ribeiro Camargo, integrante do Projeto Refugi, contou ao MigraMundo que, além do objetivo de musicalização, o projeto visa a integração social de migrantes e refugiados, pois a cultura é um direito de todos, ainda que nem sempre acessível. “O projeto acaba funcionando como uma rede”, conta, falando sobre as experiências dos participantes, que através dos contatos realizados na oficina conseguiram trocar vivências na cidade, compartilhar conhecimento e até receber indicações de trabalho.

Orquestra Mundana Refugi durante apresentação aberta na Praça da Liberdade, em São Paulo:
Crédito: Lya Amanda Rossa/MigraMundo

As oficinas foram oferecidas para um público acima de 13 anos, mas a maioria dos participantes era adulto. Desse trabalho surgiu há 15 anos a Orquestra Mundana (formada apenas por músicos brasileiros). Desse grupo surgiu em junho deste ano a Orquestra Mundana Refugi, que inclui artistas de diferentes nacionalidades (Síria, Palestina, Tunísia, Cuba, Haiti, França, Guiné, Congo, Brasil, Turquia e Irã. Após alguns meses de trabalho, foram realizados dois concertos públicos, ambos na capital paulista: um na região do Largo São Bento e outro na Praça da Liberdade, no último dia 28 de julho – este acompanhado pelo MigraMundo.

A apresentação na Liberdade contou com um grande público, entre pessoas que circulavam pelo bairro e amigos dos músicos, tornando quase impossível ver o palco montado na praça. Junto ao concerto, alguns participantes da oficina dançaram e contagiaram, tirando muitas pessoas para dançar e se comunicar numa linguagem que transcende fronteiras. A realização dos shows como uma forma de ocupação do espaço público, como lembrou o maestro, Carlinhos Antunes, também homenageou o bairro da Liberdade – conhecido pelas expressões de comunidades migrantes que passaram e/ou ainda estão presentes em seu cotidiano. Entre as canções apresentadas estavam temas de diversos países e músicas interpretadas em português, árabe, persa, lingala e francês pelos componentes da orquestra de diferentes origens.

Uma das participantes é Mariama Camara, da Guiné, que vive há 10 anos no Brasil. Questionada se já cantava antes de vir para o país, respondeu com um sorriso no rosto: “Não sou cantora, eu sou uma artista!”. E os talentos vão além da voz: Mariama é percussionista, cantora, coreógrafa, professora e dançarina, ex-bailarina dos Les Ballets Africains (of Guinea) entre outras companhias artísticas e já rodou a América Latina em apresentações e oficinas. Ela integra junto com o marido, Hassan, um projeto de música e dança e reúne em sua bagagem apresentações no Itaú Cultural e no Auditório do Ibirapuera. Mariama também já dividiu o palco com Salif Keita, célebre músico do Mali.

Mariama Camara, da Guiné, é uma das integrantes da Mundana Refugi.
Crédito: Lya Amanda Rossa/MigraMundo

MahMooni também integra o time vocal da orquestra, vinda do Irã. No Brasil há cinco anos, ela conta que não podia cantar em seu país como solista, apenas no coral, pois não era permitido às mulheres. Todos os participantes da orquestra estavam usando uma echarpe com escritas em persa, que são feitas pelo seu esposo, com uma homenagem que significa “eu te amo desde antes de você nascer”.

MahMooni, do Irã, se apresenta no Mundana Refugi ao lado de Leonardo Matumona (Congo) e Oula Al-Saghir (Síria/Palestina).
Crédito: Lya Amanda Rossa/MigraMundo

Mas nem todos os integrantes possuem um histórico assim tão longo com o Brasil. Youssef Saif [que na orquestra toca buzuq, um tipo de alaúde muito usado na música árabe], veio há apenas 3 meses da Palestina. Ele comentou que chegou no dia 28/04, em que ocorreu a greve geral no Brasil, e ficou assustado pelas ruas estarem vazias em alguns locais, e com grandes manifestações em outros pontos da cidade. Perguntei qual a forma de comunicação com o grupo, já que Youssef ainda não fala português. “Em inglês e linguagem de sinais”, respondeu, bem humorado. Certamente, a música é também outro meio de comunicação para compor sons em perfeita harmonia.

O encerramento desta edição do projeto Refugi terá duas apresentações da Orquestra Mundana no Sesc Consolação, nos dias 5 e 6 de agosto, com ingressos entre R$ 8 (meia-entrada) e R$ 17 (inteira). Haverá ainda um outro concerto no dia 19 do mesmo mês, na inauguração do SESC 24 de Maio, na região central de São Paulo.

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