Projetos usam a literatura para falar de migração, fomentar reflexões e derrubar estereótipos

Considerada uma linguagem universal, a literatura também ajuda a entender as migrações do passado e do presente. Projetos visam aproveitar esse potencial

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Projetos usam a literatura para falar de migração e fomentar reflexões
Projetos usam a literatura para falar de migração e fomentar reflexões. (Foto: Unsplash)

Por Anna Cicilini

A literatura pode ser entendida de diversas maneiras. No dicionário, por exemplo, encontramos ao menos oito definições que explicam o que é a literatura. A mais extensa traz ideias sobre a utilização estética da linguagem escrita, que explora o sentido metafórico das palavras ao contar histórias. E é ao redor dessas histórias, sob a temática da migração, que muitas pessoas se reúnem a fim de experienciar narrativas sobre a mobilidade humana.

Nos últimos anos a migração vem ganhando visibilidade em histórias ficcionais, como no Prêmio Nobel de Literatura de 2021, ganho por Abdulrazak Gurnah e dedicado àqueles que inspiraram seus livros, além de sua própria vivência, pessoas em situação de refúgio. O autor nasceu na ilha de Zanzibar, atualmente parte da Tanzânia, em 1948, e deixou o país aos 18 anos como refugiado, estabeleceu-se no Reino Unido, onde começou a escrever aos 21.

Um projeto a partir de um Nobel

É a partir da divulgação das obras deste autor que teve início o projeto “Literatura entre Fronteiras”, em março passado, por meio do Instagram da Cátedra Sérgio Vieira de Mello da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). O projeto visa sensibilizar o grande público sobre o tema do refúgio e deslocamento forçado, divulgando grandes autores, que, apesar de consagrados, têm pouca visibilidade no Brasil. Com duas postagens ao mês, o programa será feito em ciclos focados em diferentes regiões. A primeira postagem será sempre sobre o autor e a segunda sobre uma de suas obras.

A primeira fase tem como tema a África e será curada por Elena Brugioni, professora de literaturas africanas e teoria pós-colonial no Instituto de Estudo da Linguagem na Unicamp.

“A ideia é mostrar como uma linguagem tão universal como a literatura, porque se escreve literatura e se lê literatura em qualquer lugar do mundo, pode nos trazer essas muitas facetas da migração. Migração que é um tema gigantesco, que inclui quem tem que viajar, quem tem que se deslocar de forma forçada, quem foge da guerra, da fome, da perseguição, mas também quem procura uma oportunidade melhor para sua vida, para sua família e para sua existência.”, conta Brugioni.

Como primeira indicação, By the Sea (Junto ao Mar, 2001), de Gurnah, foi publicado com sua resenha e uma breve biografia do autor no instagram da Cátedra.

“Na sua obra e na sua literatura, o Gurnah mostra também como o refugiado é uma pessoa multifacetada, é alguém que também é capaz de se adaptar, de se esquecer da sua existência anterior para procurar uma existência em outro lugar, onde essas memórias, daquilo que esta pessoa era, estão continuamente aparecendo na narrativa. Tem toda uma dimensão multifacetada e que vai um pouco além da visão que às vezes a gente vê do refugiado bom ou mal, da pessoa que procura refúgio, que se desloca como um santo ou como um diabo”.

A professora cita ainda como iniciativas como essa podem ajudar a derrubar visões equivocadas a respeito da temática migratória.

“Nós temos uma ideia muito estereotipada do migrante, do refugiado ou da refugiada, então a ideia é alargar realmente o conhecimento sobre esse tema e ver como as experiências podem ser muito distintas, mas que ao mesmo tempo elas são comungadas por pequenos aspectos, por exemplo a falta de compreensão, a solidão, a saudade, a ideia de uma pessoa se sentir em casa, mas nunca completamente a vontade, acolhida”, complementa.

A segunda autora a ser lançada pelo projeto é Nadine Gordimer (1923-2014), vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 1991, com o romance The Pickup (O engate, 2001). A obra conta a história de Julie Summers, uma jovem abastada que vê sua vida virar de ponta cabeça após se apaixonar Abdu, um imigrante de origem árabe em situação irregular na Cidade do Cabo pós-apartheid, que acaba por ser repatriado.

A Cátedra Sérgio Vieira de Mello da Unicamp é resultado de um acordo entre a universidade com a Agência da ONU para Refugiados e presidida pela professora Ana Carolina Delfim Maciel, coordenadora da Coordenadoria dos Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa da Unicamp (COCEN) e professora Permanente do Programa de Pós-graduação em Multimeios na UNICAMP e International Fellow do ICM na França.

“Atuamos em diversas frentes de ação, desde o ingresso facilitado para alunos e alunas refugiadas, ações de extensão universitária, políticas de permanência e de fomento à pesquisa voltada para a temática. Temos atualmente 14 alunos em condição de refúgio na graduação e um aluno na pós-graduação”, explica.

Experiências de leitor e de vida

Além de grupos que contam com algum tipo de suporte institucional, existem também aqueles de caráter independente, fundados e mantidos por pessoas que lidam com a temática migratória. É o caso do Leituras dos Girassóis, um clube independente dedicado à literatura sobre mobilidade humana e experiências interculturais, fundado pela Profa. Dra Giselle Ribeiro, docente na Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira).

O grupo tem cinco anos de existência e teve seu início em 2018, sendo originalmente pensado para acontecer de forma presencial em uma biblioteca pública. Como não recebeu apoio e incentivo necessários para continuar, migrou para os encontros virtuais, que acontecem quatro vezes ao ano através do ConferênciaWeb, plataforma da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa.

A curadoria dos livros é feita pela própria fundadora, por meio de seu tato pessoal sobre o assunto e votada em enquetes divulgadas para o próprio grupo, que acaba por definir sua própria programação anual.

Preocupada com diferentes olhares sobre os mais diversos continentes e editoras, conta com a presença de, em média, oito pessoas por encontro e é majoritariamente feminino e adulto. A presença de leitores que estão fora do país também é recorrente.

“É muito interessante, sempre que você tem a chance de ter uma pessoa que tem uma realidade mais próxima do que está ali retratado ficcionalmente, é um depoimento que acrescenta sua experiência de leitor. Vamos juntar o que é sua impressão de leitor com o que a gente pode chamar de experiência de vida”, relata Giselle.

Letícia Rodrigues é uma das participantes das discussões online. Guia de turismo em São Paulo, ela encontrou o grupo através do blog do projeto. Já se interessava pela temática de migração por conta de sua atuação enquanto pesquisadora e criadora de roteiros.

“O ritmo da conversa é fluido e espontâneo. Alguns lêem trechos do livro para levantar pontos de reflexão e provocação, outros contribuem com as suas próprias experiências como leitor ou como quem já viveu fora de sua terra natal. Sempre aparecem novos participantes nos encontros. É uma conversa muito rica também porque os seus participantes são formados em diversas áreas”, relata Letícia.

A programação completa e os próximos encontros do grupo podem ser consultados na página do projeto.