Prolongamento de conflitos desafia atuação de entidades e aumenta migração forçada

Retroalimentadas pela pobreza e grupos armados, conflitos se estendem por décadas, dificultando a reconstrução da vida local e o retorno de refugiados

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Avanço do Taleban causa deslocamentos forçados no Afeganistão e, potencialmente, refugiados em outros países.
Avanço do Taleban causa deslocamentos forçados no Afeganistão e, potencialmente, refugiados em outros países. (Foto: Edris Lutfi/ACNUR)

Por Ramana Rech Duarte

Com a retomada do poder pelo grupo radical Talibã no Afeganistão, imagens do aeroporto de Cabul e aviões apinhados de gente desesperada para fugir do país chocaram o mundo. Mesmo antes do retorno do grupo, o país da Ásia Central já era o terceiro do mundo em geração de refugiados, atrás apenas da Síria e Venezuela, segundo dados do Alto-Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) de 2020.

A guerra na região corre desde os anos de 1970 e os conflitos nunca cessaram por completo, gerando migração forçada tanto no âmbito interno quanto externo

Na década de 90, ficou evidente para a comunidade internacional a tendência de prolongamento de crises como essas. O fenômeno tem ampliado preocupações sobre o desrespeito contínuo aos direitos humanos e criado dificuldades para a atuação de organizações humanitárias.

O ACNUR destaca que a continuidade de conflitos agrava a migração de crise. Em 2020, foram 48 milhões de pessoas deslocadas internamente, enquanto dez anos atrás esse número era de 25 milhões. O porta-voz da agência, Luiz Fernando Godinho, disse que a continuidade dos conflitos impede que essas pessoas retornem a seus locais de origem de forma segura e voluntária.

Para o representante da ACNUR, não há organização capaz de resolver as questões humanitárias frutos da violência armada. É preciso vontade e coordenação política para declarar um cessar-fogo. “Essa é a única maneira de reduzir o número de pessoas refugiadas no mundo.”

Redução de danos

A vida acaba se tornando insustentável para aqueles que vivem em regiões conflituosas. Segundo o professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas, Daniel Rio Tinto, a guerra se difunde na comunidade local e molda todos os aspectos da vida social e política.

Comércios saqueados, ocupação de escolas e hospitais e queima de plantações passam a ser recorrentes, “o que torna difícil e pouco prático reconstruir essa infraestrutura ou retomar as atividades normais”, explica Tinto.

A dilatação de guerras está associada a uma maior propensão de conflitos dentro de um mesmo Estado. Essas crises, geralmente, têm menor avanço militar em função do objetivo político e, por isso, costumam se esticar. Ainda que não sofram violências físicas, os civis vivem sob ameaças existenciais, como efeito colateral dos conflitos. 

Nesse cenário de crise incessante, as organizações internacionais buscam minimizar os efeitos para a população ao oferecer serviços básicos, como alimentação, moradia e atendimento em saúde. Embora seja o mínimo, a atuação das entidades humanitárias pode fazer a diferença entre a vida e a morte das pessoas da região.

Prolongamento de conflitos

O chefe da Delegação Regional do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) para o Cone Sul, Alexandre Formisano, afirma que a extensão de conflitos por décadas é o principal desafio para a organização. As violências armadas costumavam durar entre dois a quatro anos, período no qual o CICV trabalhava de forma emergencial. 

“Isso [prolongamento de conflitos] está nos forçando a ter uma reflexão mais profunda sobre como trabalhar em contextos de violência prolongada, em parceria com outros atores e garantir mais a sustentabilidade dessas ações”, comenta Formisano. 

Uma pesquisa do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) publicada em maio de 2020 indica que 60% dos conflitos armados atuais persistem por mais de uma década. Na maioria das vezes, eles incluem a proliferação e sofisticação de grupos armados não-estatais. 

André Zuzarte, vice-coordenador do Centro de Proteção a Refugiados e Imigrantes (CEPRI), lembra que o recrutamento da população civil para a luta armada retroalimenta esses conflitos. Hoje, as milícias detém grande poder de fogo e, diversas vezes, são financiadas por atores estrangeiros com interesses no país em crise.

“Essas regiões já são bastante castigadas por governos corruptos, a pobreza, falta de infraestrutura básica, e a guerra vem destruir o mínimo que existia”, diz Zuzarte. “Muitos veem a adesão a grupos paramilitares como a única saída”, completa.


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