publicidade
sexta-feira, julho 12, 2024

Queria muito ter o sentimento de ser um cidadão de um país, diz refugiado e apátrida rohingya

Em entrevista ao MigraMundo, Amin Khairul falou sobre como atua em prol de pessoas que vivem na mesma condição que ele e sobre o que sonha para o futuro

Viver como refugiado e apátrida, atuar em prol dos direitos de outras pessoas nessa condição e sonhar com a obtenção de uma cidadania nacional. Em poucas palavras, assim poderia ser resumida a trajetória de vida de Amin Khairul, que ainda serve para ilustrar uma das grandes migrações de crise em curso no mundo.

Nascido em Mianmar (antiga Birmânia), o jovem de 28 anos é privado da cidadania do local de origem por ser da etnia rohingya, natural do estado de Rakhine, oeste do país. No entanto, essa comunidade é duramente perseguida pelo governo – e por esse motivo, é obrigada a buscar abrigo em outros países.

O êxodo Rohingya levou à formação do maior campo de refugiados da atualidade, localizado em Cox’s Bazaar, na vizinha Bangladesh. De acordo com a agência da ONU para Refugiados (ACNUR), são cerca de 1 milhão de rohingya vivendo como refugiados e apátridas em outros países, sobretudo em localidades próximas a Mianmar, como Bangladesh, Malásia e Indonésia.

Ainda criança, Amin deixou a terra natal para fugir da perseguição sofrida pelos rohingya e iniciou uma jornada que incluiu passagem por Cox’s Bazaar e uma viagem solo ao longo de anos até a Grécia, onde chegou em 2017 e finalmente se estabeleceu. No país europeu, ele tem trabalhado como mediador cultural e tradutor para uma organização grega que opera abrigos para menores refugiados. Ele é fluente em sete idiomas – rohingya, bengali, urdu, persa, inglês, turco e grego.

Amin veio ao Brasil por conta de um evento promovido pela ONG Planeta de Todos, que acontece de forma online nesta quinta (20), quando é lembrado mundialmente o Dia do Refugiado. A transmissão ocorrerá por meio do YouTube, no player abaixo.

Por e-mail (por questões de agenda), Amin falou ao MigraMundo sobre sua trajetória e planos para o futuro. E também fez elogios à diversidade cultural que encontrou ao circular pelo centro de São Paulo.


Você é da etnia rohingya. O que significa para você ser parte desse grupo e qual seu sonho como rohingya? Eu sou muito orgulhoso de ser rohingya e muçulmano, mas a questão é que não temos nenhum tipo liberdade e direitos básicos. Precisamos disso para sermos, de fato, independentes. Meu maior sonho é poder fazer algo para a minha gente, quero fazer com que a minha voz e minhas ações possam, de alguma forma, beneficiar minha gente. Que a minha voz chegue ao mundo e possa fazer com que as pessoas entendam nossa situação e atuem pelos nossos direitos básicos como cidadãos. 

Sabemos que os rohingya são perseguidos pelo governo de Mianmar. Como e de onde começou essa perseguição à sua comunidade? Essa perseguição começa no passado, em 1940. Mas o grande fato é que em 1982 o governo local simplesmente retirou a nossa nacionalidade. A partir disso, viramos apátridas, retiraram nossos direitos e começaram as violações de diversas maneiras. Estupram nossas mulheres, queimam nossas casas, matam as pessoas, não importa se é mulher ou criança. Eles não fazem perguntas: eles atiram. Essa é a nossa rotina desde então. A partir disso, obviamente, ficamos muito vulneráveis. Não podemos fazer nada: trabalhar, viver, ter um documento. E não temos outra opção que não seja sair do país. Temos medo de viver em Mianmar, por sermos minoria, então cedo ou tarde eles vão nos matar. 

Em que cidade você nasceu? Você tem algo da infância do qual gosta de lembrar? Eu nasci na cidade de Mandu, no estado de Rakhine, no litoral de Mianmar. Minha maior lembrança da infância tem a ver com meus pais. Minha convivência com eles. No auge do caos, eles me prometeram que iriam me encontrar em Bangladesh, mas eu nunca mais os vi. São muitos órfãos rohingyas em Mianmar em função desse genocídio. Então, por mais que isso me deixa muito emotivo (lágrimas nos olhos), é o que eu mais gosto de lembrar, dos meus pais. 

Como você foi parar no campo de refugiados em Cox’s Bazaar? Por quanto tempo lá viveu e quando decidiu sair? Eu tinha apenas nove anos e tive sorte de ficar na casa de uns amigos dos meus pais, ainda que em péssimas condições. Fiquei por oito meses em Bangladesh, onde eu fui pouco a pouco aprendendo a língua local que eu falo até hoje. Foi com essa família que me ajudou que eu fui para a Índia, já que em Bangladesh é muito pobre e as condições de vida são horríveis. Fiquei apenas três meses mais com essa família, quando eu conheci um grupo de pescadores que me acolheu e fui com eles para o Paquistão, quando começa a minha jornada solo pelo mundo, de fato. 

Refugiados rohingya caminham por uma trilha durante uma forte chuva de monções no campo de refugiados de Kutupalong, no distrito de Cox’s Bazar, em Bangladesh. 
(Foto: David Azia/ACNUR)
Refugiados rohingya caminham por uma trilha durante uma forte chuva de monções no campo de refugiados de Kutupalong, no distrito de Cox’s Bazar, em Bangladesh. (Crédito: David Azia/ACNUR)

Após Bangladesh, você passou por vários outros países, Paquistão, Irã e Turquia, até chegar à Grécia. Você de fato tinha a Europa como destino final? Eu não tinha nenhum desejo de Europa. Eu só buscava um lugar onde eu pudesse estar seguro, nada mais. Não importava para mim o país, apenas queria um país onde eu pudesse ter documentos, ir para a escola, aprender línguas, ter uma vida decente. Estar seguro, sobretudo, correto, todo mundo busca e precisa disso na vida. 

O que foi mais difícil nessa jornada desde o sudeste asiático até a Europa e o que te motivou a seguir adiante? O mais desafiador para mim foi estar sozinho. Eu sofri muito, eu era apenas um garoto, que não falava línguas ainda. Eu sempre sentia medo por ser menor de idade. Eu não conseguia encontrar um país estável para mim. Mesmo na Índia, Paquistão e Irã, eu não tinha nenhum documento e tampouco conseguia ir à escola. Quando eu percebi que nesses países eu não iria conseguir nada disso, foi quando eu pensei em tentar a Europa. Ter os meus direitos básicos foi o que me motivou a seguir adiante, na verdade. 

Você notou diferenças no tratamento recebido de acordo com o país no qual se encontrava, em relação a outras pessoas? Em cada país eu tinha um tratamento diferente, mas, em geral, era sempre o mesmo: não tinha documentos e não conseguia ir para a escola. Em todos os países em que passei me senti mal tratado e sem acesso. É verdade que na Grécia, sim, eu consegui, finalmente, os meus documentos, mas isso não quer dizer que os gregos tratam bem os refugiados.    

Você chegou à Europa pouco antes das notícias sobre o povo rohingya aparecerem com mais força na mídia internacional. Como você viu essa cobertura da mídia sobre seu povo? Eu me senti muito mal, claro. Em 2017, com o enorme fluxo de rohingyas para Bangledesh, nesse momento eles colocaram fogo na casa do meu tio e meu primo foi assassinado pelo exército local. Neste momento eu perdi o contato com o meu tio e até hoje eu não sei o que aconteceu com ele. Todo o meu bairro foi destruído, eles mataram até as cabras que tínhamos ali. Nesse momento, foi como se a minha última esperança estivesse finalmente acabado. Minha cidade, meu vilarejo acabou de vez.

Atualmente você trabalha em prol de outros refugiados. Quando e como você começou a trabalhar com esse tipo de assistência? E o que representa para você hoje essa atuação? Comecei em 2017, em Moria, no campo de refugiados de Moria (o maior da Europa naquele momento), ajudando em uma ONG local, especialmente na cozinha, mas também já com algumas traduções. Também brincava com as crianças e adolescentes, foi uma prévia do que eu iria fazer melhor ainda no futuro. Quando eu vim para Atenas, na capital, eu traduzi para uma organização médica alemã, até encontrar o projeto do Planeta de TODOS. Ali eu pude desenvolver melhor minhas habilidades e entender que a função de tradutor e mediador cultural, de fato, poderia ser uma saída profissional para mim. Com esse tipo de auxílio, eu fui contratado por uma ONG inglesa que tinha um centro de atenção a menores refugiados. Fiquei por dois anos e meio com eles. Até o momento em que encontrei uma organização grega, que opera abrigos para menores refugiados, e estou com eles até hoje. 

Eu me sinto muito orgulhoso ajudando garotos que enfrentam os mesmos desafios que eu enfrentei. Eu sinto que estou fazendo algo realmente útil, porque eu sei os traumas, conheço tudo, e eles confiam muito em mim por isso. Eu tento ensinar como é a vida na Europa para eles. É como se fosse um misto de retribuição e carinho por eles. 

O que você conhece sobre o Brasil? Tem algo que te chama a atenção de modo especial? Eu só conhecia a bandeira e o time de futebol hahaha. E meu amigo brasileiro André (Naddeo, diretor da ONG Planeta de TODOS). O que eu mais gosto daqui é que todo mundo pode ser brasileiro. Vocês são muito misturados. Cheguei há alguns dias e me sinto brasileiro. Lembro que estava no metrô de São Paulo e olhava ao redor e fiquei impressionado como as pessoas são misturadas. Automaticamente me senti como um brasileiro, porque também percebi que as pessoas são muito abertas, educadas e me tratam muito bem. Me sinto à vontade. 

Você pensa em retornar para Myanmar em algum momento da vida, mais especialmente para cidade onde nasceu? Claro que sim. Mas eu não posso, no momento, se eu pisar lá, os militares me matam. A única possibilidade é que os militares sejam retirados do poder e a democracia volte ao meu país. É um sonho difícil de acontecer. É uma sensação horrível de você não poder voltar para o seu país, você consegue se colocar no meu lugar? Como você se sentiria se nunca mais pudesse voltar para o Brasil? Espero de verdade que um dia eu possa realizar esse sonho, especialmente de volta à minha cidade, por mais que isso seja algo super distante. 

Alguns países oferecem a possibilidade de pessoas apátridas solicitarem cidadania. Você pensa em fazer isso em algum lugar? Eu gostaria muito que isso acontecesse. Vou tentar aplicar para a cidadania grega, tenho que estudar muito para passar pelas provas e exames que eles exigem. Eu queria muito ter o sentimento de ser um cidadão de um país, e não ter a cada ano que renovar meus documentos, por exemplo. Desejo que essa situação chegue a um fim na minha vida. 

A partir de sua vivência como pessoa refugiada e apátrida, o que você gostaria de dizer a outras pessoas e grupos na mesma condição? Para que todos nós continuemos lutando pelos nossos direitos, lutem por independência, que consigam viver como em seus países de origem e possam construir uma vida. Sendo um apátrida você é eternamente vulnerável. Que a gente não tenha mais medo para buscar o básico: ter saúde, escola e um documento com uma foto sua. Sentir que você pertence.

Publicidade

Últimas Noticías