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sexta-feira, dezembro 2, 2022

Quiosque em homenagem a Moïse Kabagambe no Rio representa cultura congolesa e luta por justiça

Quiosque inaugurado no Rio em memória do refugiado congolês espancado até a morte traz consigo uma mescla de sentimentos, especialmente para familiares e amigos de Moïse

Por Natália Scarabotto

O rosto do congolês refugiado Moïse Kabagambe, de 24 anos, desenhado na fachada do recém-inaugurado quiosque no Parque Madureira, no Rio de Janeiro, é mais do que uma homenagem. Para os amigos e compatriotas do congolês brutalmente assassinado em janeiro, o local será o polo de cultura congolesa. Para a família, significa ainda mais… será a principal fonte de renda, mas é também retrato do luto e da luta por justiça.

“Quando a gente sentir saudade dele, vai sempre poder vir aqui extravasar”, disse a mãe, Ivana Lay. “O que aconteceu com o Moïse causa muita dor, eu não quero isso para nenhuma outra mãe. Eu pergunto para Deus o porquê disso, só porque somos refugiados e negros… É muito duro.”

Inaugurado na última quinta-feira, 30, data da Independência da República Democrática do Congo, o quiosque foi cedido pela Prefeitura do Rio, após a repercussão do caso, para ser um restaurante com pratos típicos e um memorial da cultura do Congo. 

E o que não falta nos congoleses é animação e boa comida. Os convidados puderam experimentar o bolinho de feijão da casa embalados por músicas do afrobeat e uma apresentação de “ndombolo”, dança originária congolesa popular na década de 1990 e 2000.

Quiosque traz pratos e petiscos típicos da República Democrática do Congo. (Foto: Natália Scarabotto)

Sentimentos divididos

Apesar do clima de festa, para a família foi difícil sorrir.

“Fico dividida. O quiosque é bom, mas não vai acabar com a nossa dor, precisamos também de justiça. É um dia muito triste para nossa família e todos os refugiados”, foi uma das poucas coisas que Ivana disse o dia todo.

“É um caminho para a minha família trabalhar e tentar ter uma vida melhor. Mas a nossa luta continua. Não vamos esquecer o Moïse”, disse o irmão dele, Djodjo Kabagambe.

Moïse foi assassinado a golpes e pauladas no dia 24 de janeiro, em um quiosque onde trabalhava informalmente na praia da Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, após o congolês cobrar o pagamento de duas diárias atrasadas.

O caso ganhou grande repercussão e milhares de pessoas protestaram em frente ao local do crime no Rio e em outras capitais do Brasil naquela semana. Até o momento, três pessoas foram presas por homicídio duplamente qualificado, com emprego de meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima.

Inicialmente, a Prefeitura do Rio sugeriu à família administrar o quiosque na Barra, mas os familiares recusaram a proposta temendo novos episódios de violência, e optaram pelo Parque Madureira, na Zona Norte, onde o congolês costumava passar seu tempo livre.

“Não vamos aceitar no Rio atos de xenofobia, de racismo, de preconceito. Ainda mais da forma violenta como o que aconteceu com o Moïse. É claro que não vamos reparar a dor da família, mas é uma homenagem e uma forma de lembrar permanentemente desse ato bárbaro e selvagem que acabou com a vida de um homem, disse o prefeito do Rio, Eduardo Paes, durante a inauguração.

Familiares e advogado da família de Moïse durante a inauguração do quiosque no Rio que homenageia o congolês. (Foto: Natália Scarabotto)

Polo de cultura congolesa

Logo da entrada do Portão 1 do Parque Madureira, é possível avistar as bandeiras do Congo penduradas no topo do quiosque e o letreiro com o nome de Moïse. O estabelecimento de madeira é pintado em cores vivas e com desenhos que remetem às estampas africanas se destacam entre o verde do parque.  Ao todo são 154 m² de área total e capacidade para 60 lugares.

As batidas animadas das músicas afrobeat podem ser ouvidas de longe e animam o local. “Esse tipo de música combina ritmos de jazz, funk e ritmos africanos. Era a preferida dele”, afirmou o DJ Chancel, amigo de infância de Moïse e quem comandará a playlist do local todos os dias.

Para os amantes da boa culinária, o cardápio traz opções da gastronomia congolesa, brasileira e receitas que mesclam ambas. Entre as opções estão pratos como o “Makayabu” (bacalhau à moda do Congo), “Soso Ya Kotumba” (coxa de frango assada) e “Mbsi Ya Kotumba” (tilápia assada) e petiscos como coxinha de galinha com quiabo, bolinho de tutu com carne seca e banana da terra frita. Os preços variam entre R$ 15 a R$ 50.

“Tudo isso aqui representa a cultura do Congo e agora as pessoas vão poder vir aqui conhecer. Mostrar a nossa cultura também é uma homenagem pra ele”, completou o amigo de infância de Moïse.

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