Raheem Sterling e sua luta contra o racismo

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O atacante inglês Raheem Sterling, do Manchester City, que luta contra o racismo no futebol. Crédito: Manchester City

Negro e de origem migrante, jogador é a principal voz contra o racismo no futebol inglês

Por Guilherme Freitas
Em São Paulo (SP)

Nascido no dia 8 de dezembro de 1994 em Kingston, capital da Jamaica, Raheem Sterling é hoje um dos melhores jogadores do futebol inglês, brilhando nos gramados e com uma importante tarefa fora dele.

Dentro das quatro linhas o jogador de 24 anos fez uma temporada irretocável (2018-2019) anotando 25 gols em 51 jogos pelo Manchester City, conquistando quatro títulos nacionais (Campeonato Inglês, Copa da Inglaterra, Copa da Liga Inglesa e Supercopa da Inglaterra) e sendo eleito o melhor jogador jovem do Campeonato Inglês.

Fora dos gramados este atacante, que imigrou aos cinco anos da Jamaica para a Inglaterra com a mãe solteira, tornou-se a principal voz contra o racismo no futebol inglês. Nos últimos meses, Sterling foi vítima de atos racistas dentro e fora da Inglaterra.

Tudo começou na derrota do Manchester City para o Chelsea em dezembro do ano passado. Quando ia se preparar para bater um escanteio, ouviu ofensas racistas de um torcedor que estava próximo do gramado. Ao fim do jogo além de lamentar a conduta do agressor, criticou a forma como parte da mídia inglesa trata os jogadores negros.

Em suas redes sociais expôs a forma depreciativa que parte da imprensa trata os atletas negros. Sterling questionou o tratamento pejorativo do jornal Daily Mail quando a publicação noticiou de forma diferente a mesma história. Os jovens Phil Foden e Tosin Adarabioyo, ambos revelados pelo Manchester City, compraram mansões de 2 milhões de libras em um condomínio para suas mães. O jornal fez uma matéria em tom positivo a Foden, o definindo como “estrela do Manchester City”. Já Adarabioyo foi destacado negativamente, soando ser um absurdo um jogador reserva comprar uma casa tão cara para a mãe. Foden é branco. Adarabioyo, negro.

Sterling questionou a forma pejorativa de como a publicação noticiou os dois casos, dando a entender que o atleta negro não merecia ter comprado a casa. Alguns não enxergaram racismo e disseram que o jornal quis apenas polemizar para o fato de um reserva ter tanto dinheiro para comprar uma mansão. Porém, o histórico da relação entre imprensa e jogadores negros na Inglaterra pesa a favor de Sterling.

Tendo disputado sua primeira partida oficial em 1872, a Inglaterra demorou mais de um século para ver o primeiro negro ser convocado para defender a seleção nacional. Em 1978, o lateral-direito Viv Anderson teve a honra de vestir a camisa da seleção em uma partida amistosa contra a Tchecoslováquia.

Anderson superou este tabu, mas sofreu. Foi bastante ofendido e perseguido por torcedores racistas, principalmente pelos hooligans e pelos adeptos do Front National, movimento supremacista branco que aterrorizava jogadores e torcedores negros nos estádios entre as décadas de 1960 e 1980. Cânticos racistas, ameaças de agressão e bananas atiradas em campo eram, infelizmente, atos normais quando Anderson estava em campo pela Inglaterra. Mas ele superou tudo isso e disputou duas Copas do Mundo.

Porém, antes de Anderson outro negro poderia ter mudado a história do futebol inglês. Em 1925 não havia imagens de TV e nem todos conseguiam ter imagens das partidas de futebol. Dessa forma conheciam-se apenas os nomes, mas muito pouco da fisionomia dos atletas. O Plymouth Argyle, clube localizado no sudeste do país, tinha um atacante chamado Jack Leslie. Artilheiro, chamou a atenção da Federação Inglesa que resolveu convocá-lo. Mas havia um problema. Leslie era negro. Ao tomar ciência que o filho de um imigrante jamaicano não atendia aos princípios do regimento resolveram vetar sua convocação alegando que ele era um “homem de cor”.

Um histórico pesado e conturbado que Sterling vem enfrentando com muita coragem. O jogador afirmou que jamais deixará o campo quando o ofenderem e que vai encarar os agressores de cabeça erguida. Seu companheiro de seleção Danny Rose, que também é negro, apoiou o amigo e cobrou da Federação Inglesa e da UEFA punições mais duras contra o racismo. Longe dos gramados quem também se solidarizou com Sterling foi Lewis Hamilton, negro e pentacampeão de Fórmula 1.

Sterling é hoje a principal voz contra o racismo no futebol inglês, buscando encorajar a nova geração de atletas ingleses a se tornarem cidadãos mais críticos contra os racistas e intolerantes.

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