Refugiado sírio que pegou Covid deixa hospital e agradece mobilização que pagou tratamento

A mobilização mais uma vez deu certo. E o refugiado sírio Talal Al-tinawi e sua família, cuja trajetória já é conhecida no Brasil, vão superando mais uma barreira. Desta vez, criada pela Covid-19.

Vivendo no Brasil desde o final de 2013, Talal retornou à Síria no final de junho passado para visitar familiares e retornaria poucas semanas depois. Mas toda a programação mudou depois que Talal contraiu o novo coronavírus e a infecção evoluiu a ponto dele ser internado em um hospital de Damasco, capital síria.

Sem condições para tratamento no sistema público, Talal foi levado para uma unidade privada. A família relatou ainda que ele precisou de medicamentos que só eram acessíveis por meio de importação. Para tal, pegaram dinheiro emprestado as pressas e criaram uma campanha de financiamento coletivo para pagar a dívida.

Na última quarta-feira (28), a família de Talal divulgou nas redes sociais que ele havia finalmente deixado o hospital e terminaria o tratamento em casa. E agradeceu pela mobilização. Por meio da campanha foram arrecadados R$ 64 mil, usados no pagamento da internação, medicamentos e outros insumos utilizados no tratamento.

“Eu queria agradeçer de coração o povo brasileiro que foi extremamente generoso comigo e com a minha família nesse momento tão difícil da minha vida. Eu estava no hospital preocupado demais, mas ao mesmo tempo tranquilo, sabendo que se acontecesse alguma coisa comigo, eu sabia que a minha família estaria em boas mãos, como também a todos que me ajudaram na questão financeira”, disse ele na postagem divulgada pela família.

A volta ao Brasil ainda precisa aguardar a recuperação plena de Talal, o que deve levar pelo menos mais 45 dias. Ele ainda precisa de cilindros de oxigênio e tem dificuldade para falar, em razão dos efeitos da Covid sobre seu pulmão.

De acordo com a Universidade Johns Hopkins, referência em informações sobre a pandemia, cerca de 196 milhões de pessoas já foram infectadas com a Covid-19 em todo o mundo, com 4,1 milhões de mortes. A Síria tem 25 mil casos confirmados e 1.911 mortes.

Trajetória

Talal teve de sair da Síria em 2012, quando foi solto da prisão depois de três meses e meio atrás das grades. Após ser confundido com um outro procurado pelo governo, que possuía o nome idêntico e data de nascimento coincidentemente próxima, Talal arrumou suas malas e fugiu com sua esposa e duas crianças para o Líbano.

“Minha vida na Síria era muito tranquila. Tinha meu escritório, minhas três lojas de roupa de crianças, tinha meu carro, minha casa, meu apartamento, minha família. Mas eu tive que abandonar”, disse ele ao MigraMundo, em reportagem publicada em março deste ano.

Inocentado, fugindo das perseguições e dos conflitos internos, refugiou-se no país ao lado, onde ficou por dez meses. No entanto, apesar de não haver guerra como na Síria, a situação econômica foi mais um obstáculo em que Talal se deparou. O peso da responsabilidade de Talal cuidar de sua família passava a aumentar. Em dezembro de 2013, chegaram ao Brasil.

Pelo fim de 2014, apostou no empreendedorismo como a única saída e fonte de renda. Além disso, confiou na decisão como uma oportunidade de projetar sonhos maiores. Talal abriu um restaurante, o Talal Culinária Síria, em 2016, levando a cultura árabe até a zona sul da capital paulista, com apoio de financiamento coletivo. Um episódio que, segundo ele, foi um dos mais felizes de sua vida.

Com a crise econômica no Brasil e queda no movimento do local, fechou o restaurante dois anos depois. Mas continuou a participar de eventos e a preparar receitas típicas da Síria a partir de casa, com a ajuda da família, no bairro paulistano do Campo Belo.

Em abril de 2020, já durante a pandemia de Covid-19, Talal procurou dar sua contribuição para ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade, preparando e entregando marmitas para pessoas em situação de rua. Ao menos 900 refeições foram entregues, sendo 300 pagas do próprio bolso e outras 600 foram viabilizadas com a ajuda de amigos, que contribuíram financeiramente.

Para além do proposito de ajudar, o gesto foi “também para agradecer o povo brasileiro porque me receberam muito bem no Brasil e me ajudaram bastante para continuar minha vida aqui”, disse o sírio em conversa com o MigraMundo à época.


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