Rota migratória letal, Tampão de Darién teve recorde de imigrantes em 2021

Migrantes se arriscam em selva entre Colômbia e Panamá, rumo ao norte do continente americano. Só em 2021 foram mais de 120 mil pessoas. Pelo menos 42 morreram

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Angolanos atravessam o rio Turquesa a caminho de Bajo Chiquito, a primeira vila panamenha na fronteira com a Colômbia, na região conhecida como Tampão de Darién. (Foto: UNICEF/ William Urdaneta)

Um lugar inóspito, perigoso, considerado uma espécie de “inferno verde”. Esse é um dos nomes pelos quais é conhecido o chamado Tampão de Darién, um território de selva na fronteira entre Colômbia e Panamá. E é por essa região que passam — ou tentam passar — migrantes de diferentes origens que buscam uma vida melhor no norte do continente americano, especialmente nos Estados Unidos.

Não é à toa que o Tampão de Darién é considerada uma das travessias mais perigosas do mundo.  O trecho usado por migrantes leva de quatro a seis dias para cruzar a pé e a floresta pouco sinalizada separa o povoado de Acandí, na Colômbia e Bajo Chiquito, no sul do Panamá.

De lá, seguem ainda até a fronteira com a Costa Rica, e, em seguida, passam por Nicarágua, Honduras, Guatemala, México até chegar aos Estados Unidos, em uma viagem que pode durar mais de dois meses. 

Entre janeiro e novembro de 2021, a travessia de Darién registrou o maior fluxo migratório da história do Panamá, totalizando 126.675 imigrantes. O número ultrapassa o total de travessias realizadas entre 2010 e 2020, segundo dados do Serviço Nacional de Migração do Panamá.

Condições extremas

O percurso na selva inclui muita umidade, cadeias de montanhas, travessias de rios com fortes correntezas e animais perigosos. Os migrantes enfrentam ainda o cansaço, fome e sede. No caminho, é comum se depararem com corpos abandonados sem vida daqueles que vieram antes. 

Como se não bastasse as condições naturais do meio ambiente e do corpo humano, na região ainda tem a presença de paramilitares, grupo armados e tráfico de drogas e de pessoas. Episódios de violência, assaltos, roubos, agressões sexuais e até assassinatos são relatados constantemente nos meios de comunicação locais e internacionais. 

Entre as nacionalidades que se arriscam no percurso, a haitiana e cubana representam quase 80% do total. São migrantes que em um primeiro momento vieram para países da América do Sul. O fluxo migratório haitiano, após o terremoto de 2010, por exemplo, explica a dinâmica e, por isso, ficou comum o registro de descendentes de haitianos nascidos no Brasil e Chile. Dessa vez, os haitianos migram novamente, mas para os países do norte. 

Ainda, pessoas da Venezuela, Bangladesh, Gana, Uzbequistão e diversas outras nacionalidades também utilizam desse corredor de migração para tentar chegar ao norte do continente.

A condição naturalmente inóspita da área, somada aos fatores de violência, levaram à morte de pelo menos 42 pessoas ao longo de 2021, segundo a OIM (Organização Internacional para as Migrações). A entidade, no entanto, estima que o dado real seja bem maior.

Migração infantil

Segundo a Unicef, a travessia de crianças atingiu seu pico entre os meses de janeiro e setembro de 2021. Quase 19 mil crianças migrantes cruzaram a selva de Darién, sendo metade delas menores de cinco anos. Mais de um em cada cinco migrantes que fizeram o percurso era criança. Os números de 2021 são quase três vezes maiores que o total registrado nos cinco anos anteriores. 

Relatos de exploração contra as crianças se tornaram frequentes e, em 2021, a Unicef registrou 29 denúncias de abuso sexual de meninas no trajeto. Além disso, ao menos cinco crianças foram encontradas mortas na selva e mais de 150, incluindo recém-nascidos, chegaram ao Panamá sem seus pais.

A OIM estima um recurso de US$ 74,7 milhões para responder às necessidades humanitárias do crescente número de migrantes vulneráveis em movimento do Caribe e da América do Sul para cruzar a América Central em direção ao México e aos Estados Unidos, o que inclui Darién.


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