Sanaúd: A participação da diáspora palestina no processo de redemocratização do Brasil

A presença palestina no Brasil remonta ao século 19 e, mesmo em meio à ditadura militar, aliou a defesa da causa da comunidade às mobilizações em torno da redemocratização do país

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Comício pelas “Diretas Já!”, na praça Charles Miller, São Paulo, em 1983
Comício pelas “Diretas Já!”, na praça Charles Miller, São Paulo, em 1983, com participação da diáspora palestina. (Foto: Arquivo pessoal)

Por Luciana Garcia de Oliveira

A diáspora palestina no Brasil – A FEPAL: Trajetórias, reivindicações e desdobramentos (2000-2012) foi o título da minha dissertação de mestrado realizada e defendida em 2017 no Programa de Estudos Judaicos e Árabes do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo (DLO-USP). Nela, conto a história da diáspora palestina, com ênfase no período de exceção até o restabelecimento da Democracia no Brasil, sob o olhar de integrantes e simpatizantes da Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), instituição representativa da Autoridade Palestina no Brasil. Em seguida, apresento as principais mobilizações políticas pela causa palestina no Brasil, sob vigência da democracia, a partir do ano 2000, durante a Segunda Intifada, até 2012, quando a Autoridade Palestina encaminhou, por fim, um requerimento solicitando o reconhecimento do Estado da Palestina na Organização das Nações Unidas (ONU).

A presença palestina no Brasil é bastante antiga. Os primeiros imigrantes palestinos eram dois irmãos da família Zakhariya, que chegaram ao Brasil por volta de 1874. De acordo com a obra Arab Speakers in South America, “Eles vendiam objetos de arte em madrepérola, como rosários, cruzes e ilustrações na principal rua dos joalheiros na cidade do Rio de Janeiro” (RAHEB, 2012, p. 15).

Foi entre os anos de 1908 e 1918 que muitos palestinos imigraram em larga escala rumo à América Latina e ao Brasil. Nessa ocasião, o Império Turco Otomano seguia em franca decadência. O serviço militar compulsório, em vistas da Primeira Guerra Mundial, juntamente ao aumento do custo de vida e, invariavelmente, da pobreza, influenciou grandes deslocamentos humanos e, sobretudo, a imigração em massa de palestinos. Por outra parte, os palestinos que já se encontravam em alguns países da América Latina, notadamente no Chile, Honduras, El Salvador e no Brasil, por segurança, permaneceram neste lugar.

A imigração palestina rumo ao Brasil continuou até a instauração do Mandado Britânico na Palestina. Até meados da década de 1920 a identidade palestina se manifestava através das cidades de origem (Belém, Jerusalém, Yaffa, Bayt Jalla), à religião, à “cristandade” e ao arabismo. A reafirmação da identidade palestina aparece, primeiramente, através da fundação de um clube de futebol no Chile, o Palestino, pela diáspora palestina do Chile. Foi a partir de então que as cores e a bandeira da Palestina foram incorporadas à identidade da diáspora palestina na América Latina e no Brasil. Todos os símbolos e tradições que remetem à identidade palestina foram gradualmente fortalecidas, à medida que a Palestina passou a estar ameaçada por uma ocupação territorial estrangeira.

Nesse passo e gradualmente, muitas famílias palestinas desembarcavam na América Latina e no Brasil, em virtude da Nakba (catástrofe) de 1948 e de conflitos mais recentes como a guerra de junho de 1967, a guerra do Líbano em 1982 e a primeira Intifada de 1987.

Questão palestina na agenda pública

É importante ressaltar que a questão da Palestina começou a ocupar a agenda pública dos grandes centros latino-americanos a partir do reconhecimento da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) como “legítima representante do povo palestino” pela ONU em 1974. Foi, inclusive, no ano seguinte, em 1975, que foi inaugurado o primeiro escritório da OLP em toda a América Latina, em Brasília.

Até então, os palestinos permaneciam dispersos pelo vasto território nacional, sem que existisse uma entidade física e uma organização representativa. Foi, mais tarde, em 1980, em pleno momento manifestações civis pelas “Diretas Já!” que foi, enfim, fundada a chamada Federação Árabe Palestina do Brasil (FEPAL), com o intuito de unificar e politizar a diáspora palestina do Brasil. Nessa ocasião, palestinos e brasileiros, de origem palestina, aproveitaram a ocasião de efervescência política nas grandes cidades brasileira para apresentar a história da Palestina e a importância da causa palestina para o público brasileiro.

Em 1982, diante da grande repercussão internacional das notícias sobre o massacre nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila, no contexto da guerra do Líbano, houve uma grande passeata da comunidade árabe de São Paulo, com a participação de palestinos e descendentes, juntamente aos grupos organizados da sociedade civil brasileira, que se mobilizaram na tradicional Avenida Paulista, na cidade de São Paulo. A manifestação de setembro de 1982, de acordo com alguns depoimentos colhidos durante o trabalho de campo, foi capaz de mobilizar cerca de 10.000 pessoas.

O sucesso das manifestações públicas pela causa palestina incentivou os jovens da comunidade árabe e palestina a fundar um grupo organizado na sede da então sociedade árabe-palestino brasileiro, situada na Avenida Senador Queiróz, no centro da capital paulista. A então batizada Associação Cultural Sanaúd reunia, à princípio, 200 jovens de origem palestina, síria e libanesa.

No ano seguinte, durante o terceiro congresso da FEPAL, em 1983, houve uma expansão importante da Associação Cultural Sanaúd. Nesse período foram fundados mais de 14 Associações em diversas cidades brasileiras, como Maringá, Foz do Iguaçu, Cuiabá, Recife, Porto Alegre, entre outras.

Nesse passo, em 1984, aconteceu, em São Paulo, o maior congresso das comunidades palestinas na América Latina, organizado pela FEPAL, aliada à juventude Sanaúd e ao clube Palestino do Chile. Ao final desse grande encontro foi formalizada a Confederação das Comunidades Palestinas da América Latina e do Caribe (COPLAC). E, em 1985, a juventude Sanaúd promoveu o 1º Encontro da Juventude Árabe-Palestina da América Latina e Caribe no campus Taquaral da Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP).

Todos esses eventos, em plena Ditadura Militar, foram organizados com cautela e muita habilidade pois, todos eles, contaram com a presença de lideranças palestinas, partidos políticos de esquerda e alguns representantes do regime militar.

Renasacimento dos debates

A intensidade das atividades políticas e culturais palestinas ocorreu até o fim da década de 1980. A Associação Cultural Sanaúd, existiu até meados de 1987, mesmo ano de início da primeira Intifada palestina. Também no fim da década de 1980 e início da década de 1990, a FEPAL diminuiu drasticamente suas atividades e atuações políticas em muitas cidades brasileira. A frustração gerada pelos acontecimentos após os Acordos de Paz de Oslo, a expansão dos assentamentos israelenses em território ocupado e o aumento da violência na Palestina gerou um desânimo profundo nos grupos militantes da comunidade árabe-palestina e nos grupos de esquerda judaica.

O renascimento dos debates sobre o conflito Israel-Palestino irão ocorrer, mais tarde, nos anos 2000, na ocasião da segunda Intifada, conhecida como Intifada Al Aqsa. Frente à um novo ciclo de violência em Israel e nos territórios palestinos ocupados, uma das lideranças judaicas de São Paulo, integrante do movimento Shalom Achshav, redigiu um manifesto no jornal O Estado de São Paulo em prol da paz na região e em repudio à atuação do então primeiro-ministro, Ariel Sharon. Assim que a assinatura do secretário da FEPAL foi percebida no manifesto, houve uma rápida aproximação entre a FEPAL e o grupo Shalom Achshav.

A reunião entre palestinos e judeus de São Paulo resultou na fundação da ONG Shalom, Salam Paz, cujo estatuto aprovado chancelava todas as resoluções da ONU referentes à questão da Palestina desde 1947, ano da partilha da Palestina. Em seu curto tempo de existência (2000-2002) a ONG Shalom, Salam, Paz promoveu uma série de programações políticas e culturais, como manifestações de rua e exposição de arte. Essa organização, formada por judeus e palestinos, do mesmo modo, chamou a atenção da imprensa brasileira. Foi nesse período que alguns telejornais convidaram representantes dos dois lados do conflito para debaterem e analisarem os acontecimentos em Israel e nos territórios palestinos ocupados.

A rearticulação da FEPAL, em conjunto com a ONG Shalom, Salam, Paz, foi extremamente importante. Foi, em meados dos anos 2000 que os congressos da FEPAL continuaram a acontecer, com a participação massiva da comunidade palestino-brasileira de todo o território brasileiro.

Em novembro de 2011, houve o I Encontro Nacional de Solidariedade ao Povo Palestino realizado na Escola Nacional Florestan Fernandes, no município de Guararema, em São Paulo. Instituição de ensino idealizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A programação e os assuntos abordados basearam-se em alguns pontos convergentes entre o público presente, formado, sobretudo, por trabalhadores rurais brasileiros e palestinos, como a defesa dos camponeses, trabalhadores rurais, pescadores e beduínos que perderam o direito e o acesso à terra, à água e ao trabalho desde o início da ocupação colonialista israelense.

O Encontro entre a diáspora palestina do Brasil e os palestinos culminou, mais tarde, no que foi considerado o evento mais importante organizado pela FEPAL, o Fórum Social Mundial Palestina Livre (FSMPL).

Em 2012, em função da votação do requerimento, protocolado pela Autoridade Palestina para o reconhecimento formal do Estado palestino nas fronteiras de 1967 na ONU, houve, no Brasil, mais especificamente na cidade de Porto Alegre, o primeiro Fórum Social Mundial temático. O Fórum Social Mundial Palestina Livre (FSMPL) propiciou o encontro de grupos, movimentos, partidos políticos e ONGs nacionais e internacionais em apoio ao reconhecimento do Estado da Palestina, desde o Brasil. O Fórum Social também foi considerado um evento que simbolizou e traduziu a empatia do povo brasileiro ao sofrimento do povo palestino e, sobretudo, a integração da diáspora palestina na sociedade brasileira.

No Brasil, palestinos e descendentes são, também, brasileiros, com muito orgulho. Por isso, nunca deixam de se mobilizarem em defesa da democracia brasileira.

Sobre a autora

Luciana Garcia de Oliveira é Mestre no Programa de Estudos Judaicos e Árabes do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo (DLO-USP), pesquisadora associada do Centro de Estudos Judaicos (CEJ-USP) e uma das responsáveis pela tradução da coletânea Escritos Judaicos, de Hannah Arendt, publicado em 2016 pelo selo Amarylis. Contato: luciana.garcia83@gmail.com.

Para saber mais

ASFORA, João Sales. Compacto Palestina. Olinda: Centro Cultural Palestino Brasileiro, 2010.

MUSALLAN, Adnan A. Palestinian Immigrants to Latin America and their Quest for Return and Palestinian Citizenship. Disponível neste link.

O Encontro da Juventude Palestina em Piracicaba. Declaração de Piracicaba, 07 de fevereiro de 1985.

RAHEB, Viola (org.). Latin Americans with Palestinians roots. Bethlehem: Diyar Publicher, 2012.

*Sanaúd é uma expressão árabe que significa “voltaremos”.