Semáforos fechados

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Por Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs

Apesar de todos semáforos amarelos ou vermelhos, os migrantes seguem adiante. Não podem dar-se ao luxo de deter os próprios passos. O fogo e a fome mordem-lhe os calcanhares. O fogo da violência e das armas, a fome da pobreza e da miséria os põem em fuga. Atrás a morte os persegue, fulminante ou a conta-gotas; à frente o horizonte é incerto e nebuloso, denso de nuvens sombrias. Mesmo assim, devem abrir novas picadas na mata cerrada e escura. São homens e mulheres, crianças, adolescentes e jovens, famílias em geral mutiladas – todos em fuga. Uma corrida desesperada, frenética, ansiosa: cheia de pedras, espinhos, águas bravias, areias escaldantes e barreiras de todos tipos. Muros altos e sem fim, intransponíveis, visíveis e invisíveis, feitos de concreto, arame farpado, soldados armados ou leis restritivas. A polícia e o rótulo de “extra comunitários” cortam-lhes os passos e as pernas, ceifam-lhes os sonhos e a esperança.

Entre a origem e o destino, espreitam os abutres, “mercadores de carne humana”, como diria Scalabrini. Protagonistas do crime organizado e do tráfico humano: com o pretexto de “facilitar-lhes” a fuga, empurram-nos à aventura da estrada, roubam-lhes os últimos centavos, mas não raro os abandonam à própria sorte, em meio ao oceano, ao deserto, nas garras das forças de segurança. Sem possibilidade de retornar, sem meios para prosseguir ou constritos e parar – eis bloqueada a multidão dos “sem papéis, sem pátria, prófugos, refugiados, errantes!…”

Surgem os acampamentos, toscos, feitos às pressas, improvisados. Algumas tendas, para começar, depois multiplicadas por dez, cem, mil… Chuva e neve, lama e frio… E a sede e a fome, as crianças que choram inocentes do que se passa, os pais que não sabem o que responder ou o que fazer. Fila para a água, para o leite, para a comida, para o agasalho, para satisfazer as próprias necessidades fisiológicas… Mãos e olhares que oferecem algo, mas não oferecem a si mesmos! Um abismo insuperável entre quem dá e quem recebe, uma fronteira sutil mas nítida entre “eles” e “nós”. E depois a falta de documentos ou a documentação incompleta, ou incorreta: “o nome está errado, falta uma letra!”, “qual é o sobrenome?”, “onde está a data de nascimento?”, “o número de registro não corresponde!”, “qual a verdadeira nacionalidade?”, “como provar que essas crianças são seus filhos!” “por que saiu do seu país?”. Enfim, “refugiado, migrante ou prófugo, como classificar!?…”. Diferente idioma, a dificuldade de fazer-se entender, gestos que falam mas não explicam, o medo de que a situação provisória se torne definitiva.

Ninguém deveria ter mais direito que outro de ocupar um determinado lugar na Terra. Mas a teoria está bem distante da prática. Crédito: Roney Rios
Ninguém deveria ter mais direito que outro de ocupar um determinado lugar na Terra. Mas a teoria está bem distante da prática.
Crédito: Roney Rios

E por onde passam, rostos empedernidos, amedrontados, como se estivessem sendo ameaçados no seu trabalho, na sua casa, na sua pátria – na própria cidadania. Uma atmosfera noturna de indiferença, com alguns gestos de aproximação e solidariedade, como estrelas solitárias num céu distante, cego, surdo e mudo. Que diferença da Europa que havíamos sonhado e esperado! Que diferença do que nos diziam a propaganda, os “gatos” que tomaram nosso dinheiro, os cartões de visita!

Resta um fio de esperança, um fio por mais frágil que seja! Restam olhares e vozes, rotas e horizontes cruzados. Vozes e olhares, rotas e horizontes de quem leva no corpo e na alma feridas e cicatrizes de uma experiência semelhante: traumática mas comum, e por isso passível de ser compartilhada. Resta uma pequena luz, minúscula vela acesa, em meio à tempestade e às trevas. Resta a chama viva e vivificante de que, a cada dia, não obstante tudo, nasce uma nova aurora… Por isso seguimos aqui de pé, por isso amamentamos nossos filhos, por isso tratamos de cuidar da família, por isso confiamos em nossas energias, por isso mantemos nosso olhar fixo na agulha magnética da bússola que marca a direção do destino… Por isso seguimos de perto a estrela mais brilhante, símbolo da fé que sinaliza o horizonte de uma vida recriada.

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