Seminário expõe dilemas, projetos e caminhos para museus de migrações

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O segundo dia do Seminário Internacional: Museu, Migrações e Identidades, que aconteceu no Museu da Imigração de São Paulo, deu continuidade às discussões sobre identidade e representação iniciadas no dia anterior e mostrou as questões e perspectivas que museus do mundo todo lidam no trabalho de conservar e debater as migrações de ontem e de hoje.

Um deles é o Museu Nacional de Imigração e Colonização de Joinville (SC), mais antigo museu do Brasil voltado às migrações, que vive um momento de transição de um espaço voltado somente para a memória da imigração que formou a cidade (com foco na comunidade alemã) para uma instituição mais aberta às novas comunidades que chegam à cidade catarinense, como os haitianos.

“Se o museu não se aproxima dessas comunidades, ele não cumpre sua função social. Não se trata de destruir o trabalho já feito, mas de acrescentar, dar voz para que outras comunidades possam estar lá representadas”, explica Dilney Cunha, diretor do museu de Joinville.

Desafios de museus de migrações no mundo foram destaque no segundo dia do seminário. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Desafios de museus de migrações no mundo foram destaque no segundo dia do seminário.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Aproximar-se e manter o engajamento da comunidade com a qual dialoga é o desafio do Museu de Favela, fundado em 2008 no Rio de Janeiro e que fica entre os morros do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho. E com esse engajamento, entre outras metas, a ideia é mostrar que a favela (que também conta com muitos migrantes internos e internacionais nela vivendo) também é um ponto social e cultural. “A praia hoje é o grande local de sociabilização do Rio de Janeiro. A ideia é fazer Ipanema e Copacabana também subirem para a favela, fazer a favela ser reconhecida como parte da cidade”, diz Sidney Tartaruga, coordenador do Museu de Favela.

O painel da manhã teve ainda o relato da experiência do Horniman Museum and Garden, do Reino Unido, que passou de local idealizado por um colecionador para um espaço de articulação do movimento social e humano, com destaque para ações educativas sobre refugiados e seus direitos. “Eles cruzam fronteiras entre países, mas também cruzam fronteiras de entendimentos. E isto por si só já é uma experiência de empoderamento”, lembra Julia Cort, diretora de comunicação do Horniman Museum.

Jovens museus, grandes desafios

Já à tarde o debate foi voltado para três jovens museus de imigração existentes na América Latina, representados no seminário pelos museus de Buenos Aires, Montevidéu e pelo próprio Museu da Imigração de São Paulo.

Relacionar passado e presente por meio de testemunhos de migrantes e pela arte contemporânea é uma das apostas do Museo Nacional de la Inmigración de Buenos Aires (Argentina), inaugurado em 2013 em parte do prédio que foi o Hotel de los Inmigrantes. “Estamos tentando refletir sobre a formação da Argentina moderna, que cresceu sob a migração. Cada mostra é um “working in progress “, explica Marcelo Huernos, representando o museu.

Participantes contribuem com as discussões no seminário. Crédito: Rodrigo Borges Delfim
Participantes contribuem com as discussões no seminário.
Crédito: Rodrigo Borges Delfim

Outro jovem museu é o Mumi (Museo de las Migraciones) de Montevidéu (Uruguai), fundado há três anos e instalado em um prédio que conserva parte da antiga muralha que cercava a capital uruguaia no período colonial. Para Irene Cabrera, diretora responsável pelo Mumi, o desafio atual é trazer jovens e famílias para o espaço, na Cidade Velha – conhecida área turística, mas que também reúne locais com problemas sociais. “A Cidade Velha é um local de tensões, onde estão bancos, galerias de arte, museus e onde tanto vivem pessoas de classe média como excluídos sociais- entre eles, os imigrantes de hoje”.

Já Marília Bonas, diretora executiva e técnica do Museu da Imigração de São Paulo, aproveitou o espaço para mostrar uma reflexão crítica sobre a trajetória recente do Museu após a reinauguração, em maio de 2014. Entre os desafios imediatos estão reconquistar parte do público do antigo Memorial do Imigrante e engajar as comunidades migrantes no espaço do Museu.

“Estamos em uma fronteira muito complexa de lidar com representações de identidades muito cristalizadas e tentar desconstrui-las para desfazer questões de superioridade. Por outro lado, o museu tem o papel também de promover a representação das migrações contemporâneas e internas”.

Ainda sobre a diferença entre o Memorial, mais focado no imigrante, e o atual foco na imigração do Museu, Marília pondera que é possível recuperar parte desse caráter mais pessoal do espaço, sem abandonar a proposta de debater e refletir sobre o fenômeno migratório. “As histórias individuais constroem um história coletiva. E acho que o museu tem de dar conta desses dois focos. Essa retomada não chega a ser um retrocesso se dermos espaço para múltiplas vozes”.

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