Seminário no Sesc debate migrações; plateia é destaque

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O seminário Ciclo de Olhares Luz e Sombra de São Paulo, organizado pelo SESC Bom Retiro para discutir a capital paulista, também incluiu a questão dos migrantes em sua programação – em um novo exemplo da dimensão que o tema vem ganhando e em um bairro conhecido também pela presença migrante hoje e ao longo da história.

O debate, chamado de “Olhares para a Imigração”, ocorreu na última quinta-feira (21) e contou com as presenças de Oriana Jara, presidente da ONG Presença da América Latina (PAL), Antonio Andrade, fundador e diretor do Bolívia Cultural, e de Benjamin Seroussi, curador da Casa do Povo, centro de cultura com raízes judaicas – não um centro judaico, como fez questão de lembrar. O encontro teve a mediação da jornalista Rose Silveira.

Da esquerda para a direita: Benjamin Seroussi (Casa do Povo), Antonio Andrade (Bolívia Cultural) e Oriana Jara (PAL)
Da esquerda para a direita: Benjamin Seroussi (Casa do Povo), Antonio Andrade (Bolívia Cultural) e Oriana Jara (PAL)

Três temas principais foram discutidos no encontro: políticas públicas, o pluriculturalismo (e não multiculturalismo) e a memória – não como algo para apenas lembrar um tempo passado, mas também para ser vivida. E a plateia – devido ao perfil da maioria dos presentes e sua participação nas discussões – merece destaque especial.

Políticas públicas

Quando os convidados foram questionados sobre os atuais fluxos migratórios, Oriana lembrou que, pela primeira vez, ocorrerá em São Paulo uma conferência dedicada a discutir políticas públicas para imigrantes (entre os dias 29/11 e 01/12). No entanto, ressaltou que cada grupo possui com necessidades próprias que precisam ser levadas em conta. “Por desconhecimento, muitas políticas voltadas para imigrantes dão errado”, exemplifica. Concordando com Oriana, Andrade citou a necessidade que os migrantes têm de serem ouvidos e também de se expressarem.

Já Bejnamin, falando sobre a imigração judaica, frisou que o total da comunidade não é tão grande quanto se imagina (em torno de 100 mil pessoas em todo o país, segundo o último Censo) e citou as mudanças pelas quais passou a cadeia produtiva têxtil do Bom Retiro, conhecido no passado como “bairro judeu” e que hoje é integrada na região basicamente por bolivianos e coreanos. Andrade acrescentou que atualmente tais mudanças nos perfis migratórios ocorrem muito mais rapidamente do que em outras épocas.

Cultura e memória

O conceito de “cultura de paz”, que força uma união destas sem considerar os elementos especiais de cada uma, foi alvo de questionamento durante o debate. Em vez de multiculturalismo, o pluriculturalismo é que deve ser buscado e valorizado. “É essa diferença que é bonita, mas é importante não deixar de lado ou perder nossa identidade”, explica Andrade.  “Somos híbridos, migrantes ou não. A migração permite que você escolha o que quer ser, de reconstruir-se”, diz Oriana, mostrando um outro aspecto do pluriculturalismo.

A memória foi outro importante tema em debate e citado como algo não apenas para lembrar, mas também para ser vivido no presente e poder constituir outras memórias no futuro. “Um povo sem memória é um povo sem história”, crava Oriana.

Seroussi lembra que, para os judeus, “memória é um dever” e cita como exemplo o Pessach, a Páscoa judaica, na qual cada alimento ingerido representa um aspecto. “Memória é algo que se vive no presente”, diz.

A participação da plateia

Quando o debate foi aberto para o público, a observação de Andrade sobre as mudanças rápidas propiciadas pelas migrações encontrou na plateia um exemplo direto e em tempo real.

A plateia foi um dos pontos altos do debate
A plateia foi um dos pontos altos do debate

Dentre os presentes ao debate, a maioria era composta de migrantes e refugiados vindos do Haiti e de países africanos que têm o francês como língua materna, e que pouco ou quase não falam português. Tal ruído, no entanto, foi contornado pela tradução voluntária de Seroussi, francês de nascimento, e permitiu que os espectadores pudessem expressar suas demandas na própria língua.

O fato chegou a gerar críticas de participantes pela ausência de representantes de países africanos no debate. No entanto, certamente foi um dos pontos altos da noite por complementar os temas discutidos no evento e servir de exemplo de como a questão migratória é dinâmica e pede respostas rápidas do governo e da sociedade.

Crédito das fotos: Rodrigo Borges Delfim

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