Sobreviventes e familiares de vítimas mantêm viva a memória do massacre de imigrantes no México

Em agosto de 2010, no episódio conhecido como massacre de San Fernando, 72 imigrantes - incluindo quatro brasileiros - foram encontrados mortos no estado de Tamaulipas, no norte do México

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Antimonumento em frente à Embaixada dos EUA na Cidade do México lembra as vítimas do massacre contra imigrantes em San Fernando, em 2010. (Foto: Proyecto Ambulante)

Por Dolores Guerra*

A escalada da violência no México devido às disputas dos grupos criminosos impacta não somente a população local como vitimiza aos migrantes que cruzam seu território em busca do sonho americano. 

Um triste caso que marcou o encontro entre esses dois movimentos foi o massacre de San Fernando, no qual 72 imigrantes, incluindo quatro brasileiros, foram encontrados mortos no estado de Tamaulipas, no norte do México.

Abaixo, três breves histórias recordam o episódio.

Sobrevivendo ao inferno

Ao perceber que não havia morrido depois do disparo, um jovem equatoriano dissimula seu estado enquanto espera que os capangas se afastem. Vendado e amarrado a outro colega, que a essa altura já deveria estar morto, acredita ser o único sobrevivente da chacina até que um rapaz hondurenho o ajuda a se soltar. Os dois caminham mata adentro até ver uma luz vinda da estrada e se separarem. 

Ferido na cabeça, o equatoriano percorre 22 km em busca de ajuda que lhe é negada, até ser informado que logo mais, na estrada 101 de Tamaulipas, havia uma blitz do exército mexicano. Ainda que cansado e atordoado, ele consegue abordar os agentes de segurança e se apresenta como sobrevivente do massacre sofrido contra um grupo de migrantes que viajavam rumo aos Estados Unidos em dois ônibus desde Veracruz. 

Seguindo as indicações do sul-americano, os militares encontraram na manhã de 24 de agosto de 2010 os corpos de 72 migrantes expostos à intempérie pelas últimas 24 horas. Os cadáveres haviam sido abandonados por seus carrascos em um rancho em San Fernando, no ejido de El Huizachal. 

Segundo os relatos dos dois migrantes, seus ônibus foram sequestrados pelos Zetas, que desapareceram com os motoristas dos veículos enquanto os atravessadores (polleros ou coyotes) conseguiram escapar. O grupo foi levado ao rancho onde teriam que escolher trabalhar para Los Zetas (seja como soldado ou empregada doméstica) em troca de 1 mil dólares quinzenais ou morrer. 

Desprotegidos tanto na vida como na morte 

Maria da Glória é tia de uma das vítimas brasileiras do massacre. Ao chegar no México para recuperar o corpo do sobrinho, recebeu do governo mexicano uma caixa fúnebre de cinquenta centímetros. Assim como ocorreu com as outras famílias, Maria foi advertida pelas autoridades que a abertura da caixa era proibida, sendo o delito passível de prisão. 

Sem nenhum documento de peritagem, provas genéticas ou procedimento administrativo, como se é exigido nos casos de identificação de cadáver, a brasileira não resistiu e abriu a caixa, encontrando apenas uma pequena massa gelatinosa em seu interior. Com dúvidas sobre se aquele era realmente seu parente, ela insistiu que não voltaria ao Brasil até que o cadáver fosse repatriado, mas foi informada que os restos mortais do rapaz haviam sido enviados para Honduras. 

Diante de tanto descaso, Maria da Gloria se transformou em uma das sete representantes das 72 famílias das vítimas do primeiro massacre de San Fernando, em parceria com a Fundación para la Justicia

Em 2014, o Instituto Federal de Acesso à Informação (INAI) ordenou que a PGR que informasse sobre o caso dos 72 migrantes, frustrando a tentativa da Procuradoria Federal de manter os dados em sigilo por 12 anos. Ainda assim, os expedientes não foram publicados até 2016, quando a Suprema Corte (SCJN) reconheceu algumas famílias de migrantes encontrados em fossas comuns depois do massacre de San Fernando como vítimas diretas, podendo assim ter acesso ao expediente. 

Quando a necessidade supera o trauma 

Era 2018 quando um migrante de 33 anos chegou em Chiapas, no sul do México, com a primeira caravana que atravessou o país naquele ano. Essa era a sua segunda tentativa de cruzar a fronteira com os Estados Unidos, dessa vez em busca de asilo depois que um de seus filhos foi assassinado por engano por organizações criminosas em sua terra natal, Honduras. Da primeira viagem, ele guarda terríveis lembranças, pois precisou escapar do massacre que custou a vida de 72 migrantes. Depois de fugir do rancho pelos matagais, o hondurenho se escondeu em um rio por horas até sentir que era seguro tentar retomar seu caminho. 

Em seu twitter, a jornalista Denise Maerker relata que o migrante percorreu mais de 3 mil km junto a essa caravana carregando a bandeira do México. Quando perguntado o porquê, alegou que ela significava que “não o deixaram morrer de fome”. No entanto, ao tentar cruzar a fronteira, policiais migratórios estadunidenses a tomaram e a retalharam. “Vinha machucado e queria minha bandeira. Estava gritando que me devolvessem e eles disseram ¨veja o que fazemos com ela¨ e a rasgaram”. Os agentes migratórios daquele país o prenderam com o argumento de uma suposta ordem de prisão contra o rapaz em seu país de origem.

*Dolores Guerra é formada em Letras pela USP (com enfoque em Oriente Médio), ativista social, professora de línguas, tradutora e jornalista freelancer


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