Um olhar sobre o naufrágio, do mundo antigo às migrações contemporâneas

O naufrágio de imigrantes, de um ponto de vista figurado, traz à tona as tormentas de um modo de produção que, em lugar da primazia sobre o trabalho e a pessoa humana, privilegia a privatização dos lucros e a acumulação do capital

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Diariamente, milhares de pessoas se arriscam no mar Mediterrâneo em busca de uma vida melhor na Europa. O que os espera do outro lado (quando chegam) é incerto. Crédito: Victória Brotto/MigraMundo

Por Pe. Anfredo J. Gonçalves

A noção de naufrágio remete ao Mundo Antigo e à Idade Média, com suas embarcações frágeis e vulneráveis pelos mares bravios. Lembra de forma toda particular os séculos XV e XVI, época dos grandes descobrimentos e longas navegações, onde eram frequentes os ataques dos piratas. Mas remete também à famigerada noite entre 15 e 16 de abril de 1912, ano em que o imbatível Titanic, gigantesco titã dos mares, chocou-se com um iceberg, causando a morte de quase 1500 pessoas.

E remete, ainda, às últimas décadas do século XX e primeiras do século XXI, quando inúmeros imigrantes perderam a vida, tanto na arriscada travessia das águas do Mediterrâneo, quanto em outras travessias igualmente temerárias.

O naufrágio de imigrantes, entretanto, de um ponto de vista figurado, traz à tona as tormentas de um modo de produção que, em lugar da primazia sobre o trabalho e a pessoa humana, privilegia a privatização dos lucros e a acumulação do capital. Trabalhadores e trabalhadoras, num vaivém sucessivo e em sua grande maioria forçado, são vistos como meras “peças de reposição” de uma engrenagem complexa, impiedosa e cada vez mais globalizada. Peças que tendem a ser, a um só tempo, desejadas e rechaçadas.

Peças de reposição

O fato de que expressivos deslocamentos humanos se põem em movimento pela face da terra, costuma revelar turbulências ocultas. Representam, a bem dizer, agitação superficial e visível de correntes subterrâneas invisíveis. Os terremotos ou maremotos provocados pelas decisões políticas e econômicas, com seus efeitos em cascata, soem produzir tsunamis populacionais que marcham em todas as direções.

Os imigrantes, considerados como peças de reposição, são desejados onde e quando escasseiam os braços para os serviços que, se de um lado requerem grande dispêndio de força e energia, de outro dispensam especial qualificação técnica, sendo em geral precariamente remunerados. Mas são igualmente rechaçados onde e quando a crise e o desemprego rondam as portas. Tornam-se, então, estranhos e intrusos que, nos lugares em que desembarcam, disputam as oportunidades e as migalhas do trabalho com a população local.

Com frequência, de resto, a acolhida e o rechaço ocorrem no mesmo espaço e de forma simultânea, de acordo com a oscilação cíclica, turbulenta e contraditórias da produção capitalista.

“Mão invisível” e “dupla ausência”

Nestes casos, não é difícil constatar como a “mão invisível” da obra de Adam Smith, Teoria dos Sentimentos Morais (1759) não dispensa o punho de ferro das forças da ordem. Numa palavra, quando o liberalismo (ou neoliberalismo) obtém ganhas vultosos e mão-de-obra abundante, vale o credo da mão invisível. Entretanto, quando o ciclo da crise vem acompanhado de rajadas de ventos furiosos e contrários, seus representantes não hesitam em apelar para o punho de ferro da polícia e do exército, no sentido de conter possíveis desordens sociais e políticas.

Os senhores que, em tempos de lucros fáceis e fartos, pregam a liberdade total do mercado, rejeitando toda e qualquer intervenção do poder público, são os mesmos que, no momento da crise e de menores taxas de rentabilidade, gritam pelo socorro do Estado autoritário.

Pressionado de um lado e de outro, entre a terra natal definitivamente deixada para trás e um destino incerto, os migrantes acabam se configurando como mais atual “bode expiatório”, às vezes tanto na origem como no destino. Tendo abandonado a própria pátria por não encontrar nela condições dignas de vida, não raro os migrantes e refugiados são tidos como desordeiros no lugar onde tentam se fixar e reconstruir o destino interrompido. Os que falham nesse propósito e procuram retornar ao solo de onde partiram, também ali muitas vezes serão classificados como estrangeiros e indesejáveis. Discriminados lá e cá, num polo e no outro. Com o pé em cada lado, não se encontram em pátria alguma. “Dupla ausência”, de que nos fala Abdelmalek Sayad.

Somando os danos ao meio ambiente, causados pelo uso incorreto e indiscriminado dos recursos naturais, por uma parte, e a superexploração da força humana, por outra, cabe-nos perguntar até quando a Terra prosseguirá sua navegação sem risco de um colossal naufrágio planetário?!

Sobre o autor

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, é vice-presidente do SPM (Serviço Pastoral dos Migrantes)

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