Venezuelanas em PE enfrentam novos desafios em Brasil hostil para mulheres migrantes

Reportagem é a primeira da série “Terra-mãe: histórias e percursos de migrantes venezuelanas em Pernambuco", fruto de parceria do Grupo Migra, da UFPE, com o MigraMundo

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Marco da fronteira Brasil/Venezuela, entre Pacaraima e Santa Elena de Uairén. Crédito: Rodrigo Borges Delfim/MigraMundo

Reportagem é parte da série “Terra-mãe: histórias e percursos de migrantes venezuelanas em Pernambuco”, fruto do livro-reportagem homônimo produzido pela jornalista Júlia Lyra em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Também marca o início da parceria do Grupo Migra, da UFPE, com o MigraMundo

Por Júlia Lyra
Do Grupo Migra

Após seis dias consecutivos ouvindo o filho chorar de fome, a venezuelana Saray* se virou para o esposo e, num ato de desespero, disse que precisava sair do país. Com uma mochila nas costas e o recém-nascido a tiracolo, chegou ao Brasil com a passagem de ônibus que conseguiu comprar à custa dos bolos e copinhos de café que vendia nas ruas de El Tigre.

Não sabia que passaria os cinco meses seguintes morando na quina de uma rodoviária em Boa Vista, nem que seria explorada no primeiro emprego de carteira assinada que conseguiria tempos depois no Recife.

Do mesmo ponto de partida, Maria* foi à procura de mais: comida, emprego, dinheiro, uma vida melhor e confortável, enfim, era o que visava para si e seus três filhos. Em especial para o do meio, que, por conta de um Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), precisava de remédios e acompanhamento médico pelos quais Maria não podia pagar. Queria ainda ajudar os familiares e conhecidos venezuelanos que, como ela, viram no país vizinho a única opção de futuro.

Voltar em saldo reduzido, portanto, não fazia parte de seus planos. Mas foi isso o que o destino acabaria lhe impondo a partir do dia 10 de novembro de 2019, quando um brasileiro entorpecido – pelo ódio e pela bebida – assassinou o seu filho “por engano”.

Carmen* estava grávida pela segunda vez e, com medo de se tornar mais uma vítima do colapso no sistema de saúde de seu país, se viu sem escolhas a não ser partir para parir. Também foi esse o caso de Angelina, que estava em sua primeira gestação e achou por bem migrar para o outro lado da divisa, pois lá ao menos via “a facilidade de ser atendida e ajudada, de ter medicamentos e insumos num hospital”.

Ambas fugiram das estatísticas e conseguiram dar à luz as suas crias, mas até hoje esperam pela revalidação do diploma universitário para exercer suas profissões ou simplesmente se afiançar em algo mais fixo.

Cansada de levar uma vida destituída quase até do básico, Victoria* resolveu vir para o Brasil porque “era o lugar mais perto”. No Norte, assistiu ‘de camarote’ ao show do ódio tupiquiniquim contra seus compatriotas – com direito a linchamentos, agressões, queima de objetos pessoais – e teve o próprio abrigo onde morava apedrejado.

Pensou em voltar para casa. Acabou indo parar no Nordeste, onde viu a violência que sofria do ex-marido apenas mudar de endereço.

Todas elas foram empurradas para fora da pátria mãe em busca do direito à vida, suas e dos seus. E foram atravessadas por toda a má sorte de precariedades, sobretudo por serem mulheres. Esta série de reportagens vai abordar a realidade de mães venezuelanas sob a ótica local de Pernambuco, costurando suas histórias de vida, desafios e perspectivas em torno do deslocamento.

Dupla face da vulnerabilidade

A instabilidade político-econômica na Venezuela tem sido acompanhada por um fluxo migratório singular, de características e dimensão sem precedentes na história recente do continente. Desde 2015, mais de 5 milhões – de uma população estimada em 32 milhões de habitantes – deixaram a república bolivariana, sobretudo em direção aos países vizinhos.

No Brasil, sexto principal destino do contingente, estima-se que o número de refugiados e migrantes venezuelanos seja de 264 mil, formando a maior comunidade migrante e uma das mais bem distribuídas pelo território nacional na atualidade.

Outro aspecto que chama a atenção no fluxo venezuelano é o perfil demográfico, no qual a proporção de mulheres tem se destacado em relação às demais comunidades migrantes, bem como crescido exponencialmente.

Segundo dados divulgados pelo OBMigra, com base no Sistema de Registro Nacional Migratório da Polícia Federal, as mulheres são 46,7% entre os venezuelanos que chegaram ao Brasil no período de 2010 a 2020, superando a média geral em quase dez pontos percentuais. Se no início da série histórica o número de venezuelanas era quase inexpressivo, em 2019 elas já eram mais de 60% do total de mulheres migrantes residindo no país.

Os números ajudam a revelar uma face ainda pouco debatida sobre o êxodo venezuelano – a de que as mulheres são especialmente afetadas pela crise do país vizinho. Relatórios dos mais diversos organismos locais e internacionais apontam que, na pobreza, são elas que ficam com a pior parte, estando mais expostas à fome, à mortalidade – por falta de pré-natal e insumos necessários para realizar um parto seguro, por exemplo –, à exploração sexual e à menos oportunidades financeiras.

As diferenças em relação aos homens venezuelanos, entretanto, não se limitam à etapa anterior ao deslocamento, senão as acompanham durante todo o processo migratório. Depois de viajar centenas de quilômetros, muitas vezes a pé ou de carona, sem comer e com bolsos vazios, ao cruzar a fronteira em direção ao Brasil, elas não encontram o acolhimento almejado. Sem alternativas, acabam recorrendo a abrigos superlotados ou mesmo vivendo nas ruas de Pacaraima e Boa Vista.

À procura de amparo, estejam sozinhas ou acompanhadas por seus filhos e companheiros, muitas venezuelanas permanecem desprotegidas em solo nacional. A porta de entrada roraimense, aliás, não vem acompanhada de tapete de “boas-vindas” para mulheres, descerrando um cenário pouco amigável para elas.

“Roraima é o estado campeão em mortes violentas de mulheres. Obviamente, as mulheres migrantes sofrem uma espécie de exposição extremamente mais perigosa, ainda mais as que permaneceram enquanto população de rua”, atesta a defensora pública do juizado de violência doméstica de Roraima, Jeane Xaud.

De acordo com Xaud, ao aportar no Brasil desprovidas de qualquer tipo de documentação e/ou meios de sustento, parte das venezuelanas acabaram cruzando seus rumos com a prostituição: “Ainda que não fosse essa sua intenção ao migrar, buscavam ganhar dinheiro assim”.

Para garantir o mínimo a si mesmas e aos filhos – muitas vezes sem qualquer apoio dos pais das crianças – foi essa uma das formas drásticas encontradas pelas nacionais para sobreviver em território estrangeiro. Na língua do povo, o fenômeno esvaziou as venezuelanas até mesmo do próprio nome. Ficaram conhecidas como “as ochenta”, em Boa Vista, em referência ao preço abaixo do mercado aplicado pelas migrantes a quem paga por sexo.

Segundo observa a defensora pública, há de sobra quem alicie as venezuelanas para esta e também para outras formas de exploração em Roraima. “Muitas foram submetidas ao trabalho escravo, em troca de pão e um lugar para dormir. Outras foram trazidas com a promessa de emprego e foram submetidas ao cárcere privado, exploração sexual e trabalho escravo”, denuncia.

Saray presenciou um pouco de tudo isso. Quando chegou a Boa Vista, o cenário não era dos melhores. Em 2017, ano em que, segundo dados da Polícia Federal, o número de solicitações de refúgio de venezuelanos mais do que quintuplicou no país, ainda não havia nenhum abrigo público na capital roraimense.

Instalando-se na rodoviária da cidade, local onde muitos venezuelanos então moravam em barracas de papelão, a mulher conta que atravessava as noites “com um olho aberto e o outro fechado”, por medo de que algo acontecesse com seu filho. Na época, choviam relatos sobre crianças venezuelanas que estavam sendo sequestradas, exploradas e até mesmo mortas, vítimas do tráfico infantil na fronteira.

De dia a vida também não era nada fácil para Saray. Sozinha, ela precisava se desdobrar em muitas para conseguir ao menos o essencial para o menino – fraldas e alguma comida. Saía da rodoviária às 8h e voltava às 21h para catar lixo, troco e o que mais conseguisse pelas ruas. Nem sempre bem sucedida e não raras vezes sob xingamentos e propostas cuja moeda de troca era o sexo, relembra, a venezuelana mudava de posto em direção a um novo sinal eletrônico.

“Foram muitos meses de tristeza, porque não é fácil morar em Roraima, não é fácil morar na rua, não é fácil sentir fome, ouvir teu filho chorando de fome e ir procurar no lixo algo que possa comer”, desabafa Saray.

Mandados para fora, mais uma vez

No início, Maria teve um pouco mais de sorte. Ao atravessar a fronteira para pedir refúgio em 2018, a venezuelana descobriu que poderia ser alojada no mesmo abrigo em que uma sobrinha estava morando na capital roraimense. Era a garantia de um teto, comida e também de apoio psiquiátrico e neurológico para o filho do meio. Por isso, ela não pensou duas vezes e decidiu voltar para a Venezuela: buscou a prole e toda a papelada necessária, retornando em seguida para fazer um novo protocolo.

De maio a novembro daquele ano, período que passou entre dois abrigos em Boa Vista, Maria foi aos poucos galgando o crescimento que pretendia. Aproveitou-se dessa relativa estabilidade e começou a trabalhar numa microempresa de venezuelanos, subsidiada pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) e a partir da qual produzia doces típicos para vender no trânsito.

Só que quando tudo parecia estar melhorando, veio o primeiro baque e a matriarca se viu, junto aos três filhos, morando na rua. A motivação para a mudança repentina foi um desentendimento ocorrido entre o menino do meio e o diretor do abrigo onde estavam, o qual, segundo ela, era um dos muitos que não entendiam o “problema” do seu filho. “Ele brigou com o diretor, que não entendeu a condição dele, trocou palavrão e mandou a gente embora”, resume.

A partir daí, a família passou “dois meses de dificuldade”. “Quando a gente dormia na rua, eles passavam e jogavam água, falavam muitos palavrões para nós venezuelanos”, relembra Maria. Mesmo assim, a mulher fala que mantinha a cabeça erguida, pois pretendia se encontrar com os familiares que haviam aderido à interiorização do Governo Federal em Igarassu, Pernambuco, por meio do programa de reunião familiar da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e da OIM.

Outro motivo pelo qual pretendia migrar à nordeste era a aparente maior chance de achar trabalho e assim ter de volta um teto para chamar de seu. “Desde que cheguei em Roraima vejo que lá não tem tantas pessoas solidárias, porque [o estado] está cheio de venezuelanos”, explica. Iria, então, para a região geográfica onde menos deles havia, na esperança de encontrar um ambiente mais auspicioso e, enfim, mudar de vida.

*Os nomes das entrevistadas foram alterados para preservar a sua identidade


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