Venezuelanos e Operação Acolhida são alvo de protesto em Pacaraima; imigrantes relatam medo

Morte de comerciante foi estopim para manifestações, que contaram com o apoio de políticos locais

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Barreira de pneus montada por manifestantes em Pacaraima (RR) durante protesto contra venezuelanos e Operação Acolhida. (Foto: Reprodução/Instagram/Pacaraima Notícias)

Atualizado às 12h15 de 26.nov.2021

Cidade que é porta de entrada para os venezuelanos que migram por terra para o Brasil, a cidade fronteirça de Pacaraima, em Roraima, foi palco de protestos durante a quinta-feira (25), que tiveram os imigrantes do país vizinho e a Operação Acolhida como alvo.

O protesto foi uma reação à morte do comerciante Djalma Alves Lobo, de 51 anos, esfaqueado durante um assalto no bar em que ele era dono, na noite de quarta-feira (24). A Polícia Militar não divulgou a identidade e nacionalidade dos suspeitos, mas moradores da cidade atribuem o crime aos venezuelanos.

No entanto, o cenário tenso é anterior a esse crime. Reportagem do MigraMundo publicada na última segunda-feira (22) relatou a situação de rua vivida por muitos venezuelanos em Pacaraima e na capital de Roraima, Boa Vista. Os abrigos criados para gerenciar o fluxo migratório do país vizinho não estão dando conta da demanda – reprimida ao longo de mais de um ano de fronteira fechada em razão da pandemia.

Em consequência, a população local tem manifestado cada vez mais objeção em relação aos imigrantes. Entre pessoas ouvidas pelo MigraMundo que atuam em Roraima, há o temor da repetição de cenas como as que ocorreram em agosto de 2018, quando venezuelanos que viviam nas ruas de Pacaraima tiveram seus pertences queimados e foram empurrados para o outro lado da fronteira, com direito a entonação do hino nacional brasileiro pela população local.

De acordo com os dados da OIM (Organização Internacional para as Migrações), em Pacaraima, em junho, havia 71 migrantes em situação de rua, enquanto em setembro, na cidade, mais de 2.300 pessoas se encontravam nessas condições. Outros 1.600 migrantes se encontravam em ocupações públicas, espaços e edificações inacabadas em situação de precariedade. Em setembro, na cidade haviam 4.225 venezuelanos desabrigados, incluindo pessoas em maior situação de vulnerabilidade, como grávidas, crianças, idosos e pessoas com dificuldade de locomoção/deficiência física. 

Dia de tensão e endosso político

As hostilidades tiveram início logo na madrugada, com a expulsão de imigrantes que estavam alojados em uma quadra coberta. Ao longo da quinta feira, fogos de artifício foram disparados contra venezuelanos, incluindo crianças.

A reação da Operação Acolhida e dos próprios migrantes foi iniciar um toque de recolher para que não tenha nenhum venezuelano na rua após os episódios de xingamentos e ameaças. Segundo relatos ouvidos pelo MigraMundo sob reserva, as ruas ficaram vazias e todos os imigrantes foram colocados em abrigos.

No período da tarde, moradores iniciaram uma manifestação, pedindo ajuda à cidade e com críticas à acolhida de venezuelanos, como mostram vídeos que estão circulando nas redes sociais. A manifestação contou com a participação de figuras publicas, como o vice-prefeito Simeão Peixoto (PV) e o senador Telmário Mota (PROS).

Em discurso, um dos manifestantes afirmou que a ajuda humanitária aos venezuelanos era necessária, mas que “deveria ser feita do outro lado da fronteira”. Outro disse que o dinheiro empregado na operação de acolhimento aos venezuelanos deveria ser utilizado em beneficio da população local.

Ainda ocorreram tentativas de ocupar os postos fronteiriços e os manifestantes fecharam a rodovia BR-174, que liga Amazonas e Roraima à fronteira com a Venezuela. Por volta das 20h30, a rodovia foi liberada pela Polícia Rodoviária Federal.

Segundo o defensor público federal Rafael Liberato, que atua em Roraima, a ausência de políticas públicas para migrantes em nível municipal e estadual colabora para esse quadro de tensão, que pode se tornar ainda pior.

“As autoridades locais cobram muito a União, mas não fazem a sua parte. Essa soma de omissões acaba gerando um caldeirão que pode explodir a qualquer momento”.

Insegurança dos venezuelanos

Os imigrantes estão assustados, contou um venezuelano recém-chegado à cidade roraimense. De Ciudad Guayana, ele, seu primo e tia, alugam um apartamento enquanto aguardam seus documentos para seguir com a interiorização.

De forma reservada para o MigraMundo, ele relatou que na quinta, no dia de maior tensão, os venezuelanos ficaram protegidos porque estavam fora das ruas, mas que nem sempre é assim. Ele ainda acrescentou que se sente inseguro em Pacaraima, por ser imigrante e pela falta de apoio das autoridades locais. 

Nas redes sociais, venezuelanos que vivem no Brasil também reagiram aos protestos em Pacaraima. A maioria expressa medo e sentimento de injustiça pela generalização, como se todos os nacionais do país vizinho fossem potenciais infratores.

Em um comunicado divulgado pelas redes sociais, a Embaixada da Venezuela no Brasil disse aguardar investigações da Polícia Federal em Roraima e expressou repúdio a qualquer ato de violência. Ainda, pediu aos venezuelanos em Pacaraima e Boa Vista que sigam as indicações das autoridades locais, evitem circular nas ruas e fiquem e cumpram as leis e normas dos abrigos.

Por meio de nota, a Operação Acolhida informou que oferece assistência emergencial aos refugiados e migrantes venezuelanos que entram no Brasil pela fronteira com Roraima e procuram o Posto de Interiorização e Triagem. E que as investigações sobre o crime e as circunstâncias que o envolvem são de competência dos órgãos de segurança pública.

Com colaboração de Rodrigo Borges Delfim


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